Marc Andrew Deley
Marc Andrew Deley

Quando McCartney voltou aos trilhos

Nos anos 80, após fracassos comerciais, Beatle se junta a Elvis Costello e dupla produz tesouros agora revelados

Geoff Edgers, THE WASHINGTON POST

21 Maio 2017 | 05h00

Os anos 1980 não estavam indo bem para Paul McCartney. Mas uma série de fracassos comerciais deixou o artista pensativo. “Chegou a hora de provar algo para mim mesmo”, disse ele na ocasião. O que ele fez. Flowers in the Dirt, lançado em 1989, marcou um renascimento.

Mas o elemento mais curioso de Flowers ficou engavetado por décadas. Em 1987, McCartney havia convidado Elvis Costello para trabalhar com ele.

Quatro de suas canções entraram em Flowers, mas outras nunca vieram à luz. E tanto McCartney como Costello concordam que suas nove gravações demo iniciais são a melhor parte de sua colaboração. Em 24 de março, essas demos foram lançadas como parte de uma caixa elaborada num relançamento de Flowers in the Dirt.

Conversamos recentemente com McCartney e Costello, separadamente e por telefone, sobre os desafios de transformar as demos num bom álbum e as divergências óbvias sobre certo grupo tecnopop. Em 1986, McCartney lançou seu sexto álbum solo de estúdio, Press to Play.

McCartney: “Às vezes, você se vê tentado pelo sabor do momento e eu acho que Press to Play foi isso. Eu me lembro dos discos que escutava. Let’s Dance. Ou Drive, dos Cars. Gravações que eram da época e eu provavelmente pensei: Seria legal entrar um pouco nisso”.

O agente de McCartney sugeriu que ele chamasse Costello. Este, então com 33 anos, veio ao Hog Hill Mill Studio de McCartney no East Sussex, Inglaterra. Costello cresceu amando os Beatles. Mas não trouxe seu carteirinha do fã-clube.

Costello: “Já vi pessoas eminentes perderem completamente a cabeça na presença do Paul. Eu não queria ser esse tipo de gente”. 

McCartney: “Tenho um jeito de evitar, mas com Elvis, não foi necessário. Nós nos sentamos, conversamos e tomamos chá. Disse que eu e John sentávamos um em frente do outro. Isso era legal, porque sou canhoto e ele era destro, assim como Elvis. Era como se estivesse olhando no espelho”.

Costello: “Fiquei meio aparvalhado quando ele fez essa referência. Acho que foi mais para tentar explicar como poderíamos trabalhar melhor do que para me colocar na mesma categoria de Lennon”.

McCartney: “A questão de trabalhar com John é que nós começamos a compor juntos. Nunca tive um colaborador melhor do que John”. 

O trabalho com Costello criou um som nitidamente parecido com o dos Beatles, algo que McCartney tentou evitar. McCartney: “Tentamos nos manter distantes disso, mas acho que My Brave Face tem algo dos Beatles”.

Quando críticos ouviram falar da colaboração, eles desenvolveram um enredo – que Costello, o bad boy do punk-rock representava o Lennon mais soturno. Ele empurraria McCartney, o sentimental que cantava Silly Love Songs. Costello nega.

Costello: “Paul é o cara da balada, o que cantava I’m Down, She’s a Woman e Helter Skelter. Vai encontrar o contrário disso quando as pessoas falam de Lennon/McCartney, como em Instant Karma e Revolution”.

McCartney: “O engraçado é que eu acho que as pessoas imaginam que John e eu competíamos. Isso nunca aconteceu”.  

Em 1988, Costello e McCartney voltaram ao estúdio. A ideia é que Costello coproduziria o novo disco. Enquanto trabalhavam, perceberam que tinham ideias diferentes. Um dia, uma ideia de Paul irritou Costello, que saiu do estúdio para se acalmar.

McCartney: “Eu digo o que me vem à cabeça. E se você não gostar, me diz e eu provavelmente concordarei. Mas o meu método é jogar uma porção de material e ir reduzindo”. 

A gravação final em estúdio de That Day Is Done, em Flowers, foi, na verdade, fiel à ideia original de Costello.

Costello: “Fui sensível demais. Me sentia preso à letra”.  Então, por que Costello e McCartney se separaram?

McCartney: “Voltando no tempo, eu queria um pouco de variedade e isso levou à decisão de compor com Elvis. E coisas como Put It There foram muito bem-sucedidas”.

Sobre as demos, Paul e Costello concordam. Elas são, de fato, as melhores versões de suas canções. Isso não significa que McCartney tenha algum pesar.

McCartney: “Cara, você está brincando? Ele está sendo relançado um zilhão de anos depois e as pessoas o estão adorando. E o legal é que agora nós podemos lançar esses tesouros ocultos”. / TRADUÇÃO DE CELSO PACIORNIK

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