Ronaldo Franco/Divulgação
Ronaldo Franco/Divulgação

Quando a Jamaica encontra o Nordeste

O disco 'Bambas 2', do produtor BiD, traz uma modernosa mistura de duas culturas e ritmos

Emanuel Bomfim,

30 de setembro de 2011 | 22h00

Misturar, definitivamente, é da alçada de BiD. Assim o fez na sua estreia solo, quando reuniu 53 artistas, entre a velha e nova geração, navegando pelas escolas do groove, do soul ao samba, do rap à eletrônica. Seis anos depois, o inquieto produtor, projetado nos anos 90 por Afrociberdelia (Chico Science e Nação Zumbi) e pelo grupo Funk Como Le Gusta, ele chega ao seu projeto mais ambicioso: Bambas 2, viabilizado com patrocínio da empresa Natura e distribuído pela Universal (nas lojas, até o fim de outubro).

A sensação de provar do ‘novo’ é inevitável: BiD fundiu o reggae com os ritmos nordestinos. É o rastapé mais modernoso de que se tem notícia. Você já imaginou juntar o canto de lavadeira de Karina Buhr com o potente vocal do jamaicano Jesse Royal? Ou a sanfona jazzística de Dominguinhos com o spiritual reggae de Kymani Marley?

"Esse disco não é uma invenção. Eu simplesmente tentei ir mais fundo do que já se foi até agora", explicou o multi-instrumentista à reportagem do Estado em conversa no seu aconchegante estúdio Soul City, na zona oeste de São Paulo. Foi nele que boa parte do projeto ganhou forma. O estalo, porém, veio em 2009, numa viagem de férias pela Jamaica. Durante um passeio de barco pelo mar caribenho, o produtor brasileiro colocou para tocar no CD-player o álbum Francisco, Forró y Frevo, de Chico César. "Quando botei, o piloto começou a improvisar em cima. Na hora, quando vi aquilo, pensei: vou fazer um disco assim. Vou a fundo nessa parada!".

De volta ao Brasil, certo da urgência de Bambas 2, rapidamente compôs as músicas no violão, com ajuda de Fernando Nunes e de Gustah - que também assina a produção. O primeiro passo foi gravar as bases dos temas, moldadas sob a identidade nordestina, do forró, baião, xaxado e maracatu. Nada de bateria. O frescor estava em fazer reggae a partir da zabumba, alfaia e triângulo, executados por especialistas como o maranhense Papete.

A segunda etapa se deu em Kingston, capital da Jamaica. Para BiD era fundamental que a parte vocal do trabalho fosse desempenhada por artistas de lá. "Eu sempre acreditei, desde o começo, que as faixas deveriam ser cantadas por eles. Já daria uma legitimidade. Não queria soar ‘estamos tentando fazer reggae’. Essa é a essência do projeto: na parte instrumental, o baixo de Bi Ribeiro, a sanfona de Dominguinhos e o tambor da Nação Zumbi. Nos vocais, os cantores são Tony Rebel, Heptones, Queen Ifrica e Luciano."

Logo que pisou em território estrangeiro, num domingo, veio o primeiro desafio: Sizzla Kilonji e Kymani Marley, os dois principais convidados do álbum, teriam que gravar no dia seguinte, pois estavam com viagem marcada. "O primeiro dia começou assim, na fogueira com os big stars", conta. "O Sizzla chegou no estúdio com uns 15 caras, tipo bando, à la Mano Brown. Na hora do almoço, ele chamou um serviço de buffet e fizeram uma mesa enorme no quintal. Os caras ficaram lá o tempo todo no estúdio enquanto ele gravava. Nem entravam, a maioria só ficava ali junto...".

A surpresa inicial rendeu frutos. Com a presença de Sizzla, rapidamente os boatos se espalharam pela pequena ilha. Quem era o ‘polaco’ que estava agitando uma produção tão bem frequentada? Aos poucos, dezenas destes estilosos regueiros começaram a bater na porta do estúdio. O trio vocal do Heptones, pioneiro do rockstead, foi um dos casos. Primeiro, quiseram vender os próprios discos. Depois, assuntados do que se passava, se ofereceram para participar. BiD não desperdiçou tamanho presente: "Ó, não tenho dinheiro, mas tem uma música instrumental. Era um ska, que tinha a ver com o rockstead, que tem a cara de vocês. Se quiserem escrever...".

Assim como o Heptones, todos os convidados jamaicanos assinam as letras das faixas que compõem Bambas 2. "Uns, tiveram duas semanas. Outros, fizeram na hora", revela o produtor, impressionado pelo caráter edificante de cada uma delas. "A maioria deles se preocupou em transmitir uma mensagem, do tipo ‘respeite os mais velhos’, ‘cuide das crianças, elas são o futuro’. Não tem ‘me liga, te amo’, sabe?".

A única versão escolhida para o repertório é Something, dos Beatles, que traz o guitarrista Ernest Ranglin, um dos preferidos de Bob Marley, e o cantor Luciano. "Quando fiz a trilha de As Melhores Coisas do Mundo, a Laís Bodanzky me pediu uma versão dela, que iria aparecer só no final do filme. Fiz uma versão em reggae, achei que ia dar uma cara nova. Só que a Laís ficou meio em choque. Achou legal, mas queria que fosse mais Beatles mesmo. Eu fiquei com a versão reggae gravada. Quando pintou o Bambas 2, não tive dúvida: vou colocar Something!", explica.

Dominguinhos, um dos convidados da ala brasileira do álbum, conta que descobriu Bob Marley numa viagem com Gilberto Gil, em 1972. O ouvido atento logo sugeriu: "Se colocar um triângulo aí, vira xote". No encontro proposto por BiD, não há só a constatação desta similaridade, mas a certeza do nascimento de uma terceira via, desprovida de explicações conceituais. "Se alguém me perguntar: ‘puxa, você planejou?’, eu direi: a única coisa que planejei foi a mistura das duas culturas. Agora, tudo o que veio depois, foi pura intuição."

FAIXA A FAIXA

Music For All

Rocksteady estiloso do Heptones se funde em alegre baião

Little Johnny

Suingada, canção sobre São João tem Chico César e Jah Marcus

Happiness is All in Your Hands

Refrão forte, metais e a voz mágica de Queen Ifrica

Brasil (Little Sunday)

Introdução rock pontua o xote de Ky-mani Marley e Dominguinhos

We Put the ‘M’ in a Music

Quem diria que a viola de Siba cairia tão bem com Tony Rebel?

Children of the Future

Poético, U-Roy faz a lição de casa sob a percussão de Papete

Chiquinha Hey

Luiz Melodia, que é samba e soul, faz vocais no reggae mais intrigante do disco

Lehá Doddi

Rabeca de Siba, Dub de Oku Ounora e os vocais enigmáticos de Karina Buhr

Something

Luciano dá o tempero soul para esta versão de Beatles, reforçada pelo jazz de Ranglin

World Cry

Karina Buhr entoa os cantos de lavadeira e Jesse Royal chega com seu vocal arrojado

Only Jah Love

Aqui é a prova porque Sizzla é o nome mais competente do dancehall. Canta como um legítimo MC

Forever you Are

Perto do jazz, Queen Ifrica emociona e mostra que pode ir além do dancehall

Something is Wrong

A mesma de Tony Rebel soa mais aconchegante com o jovem I Wayne

Nayabinghi

O canto de oração encontra plena ressonância no berimbau executado por Papete

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