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Pupillo, ex-Nação Zumbi, celebra em álbum trilhas originais de novelas

Lançado pela gravadora Deck, 'Novelas' traz sucesso dos folhetins das décadas de 1960 e 1970

Danilo Casaletti, Especial para o Estado

10 de novembro de 2020 | 05h00

Há quem tenha uma relação afetiva com as telenovelas. Elas podem remeter a um período da vida – relacionamento, conquista, ídolo, moda. Para o baterista e produtor pernambucano Pupillo, esse vínculo se dá pela música. E com um período bem específico: o fim dos anos 1960 e início dos anos 1970, quando as tramas tinham trilhas sonoras originais. Esse é o tema de seu novo álbum instrumental, Sonorado Apresenta: Novelas, que ele acaba de lançar pela gravadora Deck.

Antes de virar disco, o projeto foi um show que Pupillo apresentou no Sesc Belenzinho, em 2019. “O Sesc me convidou para um evento sobre ritmistas brasileiros. Como eu não tenho um repertório autoral, lembrei da minha coleção com as trilhas originais. É um som cultuado por DJs pelo mundo afora. Resolvi dar a minha versão para algumas dessas músicas”, conta. Com a boa acolhida do público, ele decidiu entrar no estúdio e, em dois dias, gravou as nove faixas.

Pupillo teve contato com esse repertório no começo dos anos 2000 por meio da coleção Vale a Pena Ouvir de Novo, que colocou no mercado duas dezenas de trilhas sonoras recordistas de vendas que nunca haviam saído em CD até aquele momento. “Lembro de ir a uma loja e comprar a coleção toda. São discos incríveis que fizeram escola”, diz. Posteriormente, ele buscou pelos vinis originais, que até hoje estão em seu toca-discos.

No projeto, Pupillo traz, além de canções assinadas por nomes como Vinicius de Moraes e Toquinho, Marcos e Paulo Sérgio Valle, Roberto e Erasmo Carlos, Paulo César Pinheiro e Baden Powell e Antônio Carlos e Jocafi, o som de uma geração de maestros – venerados pelos DJs por conta das batidas, como já citou Pupillo –, que inclui Erlon Chaves e Waltel Branco. 

“Somo a isso os grandes ritmistas da época, como o seu Wilson das Neves (1936-2017) e o Mamão (Ivan Conti). Era música para valer, não mero entretenimento. É um grupo que tem a ver com o hip hop também, que é uma influência na minha carreira por conta da Nação (Zumbi, banda da qual fez parte até 2018). Eles têm uma batida bem característica. Com os grandes arranjadores, as trilhas tinham uma unidade sonora. É um prato cheio para a cultura hip hop”, diz.

Segundo Pupillo, o disco foi gravado praticamente ao vivo em estúdio na companhia dos músicos Thomas Harres (percussão e voz), Marcio Arantes (baixo e voz), Zé Ruivo (teclados, sintetizadores e voz), Guri (guitarra e voz) e Angelo Medrado (caxixi e voz) e teve pouco trabalho de pós-produção. Por conta disso, ele usou, em algumas faixas, o coro que reforça a melodia. Com trechos percussivos mais longos, as músicas vão encontrar justamente o hip hop clássico com intuito de alimentar as pistas.

Entre as faixas escolhidas estão O Bem Amado, tema de abertura da novela homônima exibida em 1973, composta por Vinicius e Toquinho. Na gravação original, o intérprete creditado é o Coral Som Livre, que contou com as vozes do grupo MPB4. Outro tema de abertura é o de Selva de Pedra, de 1972, assinado pelos irmãos Valle, compositores que aparecem em outra faixa, Mentira, de Carinhoso, exibida em 1973.

Entre as menos conhecidas, está a instrumental Tema de Kiko, composta por Roberto e Erasmo para o personagem interpretado pelo ator Marcos Paulo na comédia romântica Pigmaleão 70, de Vicente Sesso. O registro original foi feito pelo The Youngsters, conjunto da Jovem Guarda que acompanhou Roberto Carlos em gravações da época. Pupillo afirma que a gravação foi liberada por Roberto, conhecido pelo rigor que tem com as autorizações para regravações, sem maiores problemas. “Até me surpreendi”, comenta.

A exceção no meio da seleção de músicas produzidas especialmente para as novelas se dá por conta da faixa Irene, composição de Caetano Veloso que fez parte da trilha de Véu de Noiva (1969-1970), a primeira a contar com uma trilha original na TV Globo – a tarefa coube ao produtor Nelson Motta. A faixa, na voz de Elis Regina, foi gravada ao vivo para o LP Elis No Teatro da Praia com Miele e Bôscoli. Nela, a cantora é acompanhada pelo conjunto Elis 5, que tinha entre os membros o baterista Wilson das Neves, um dos ídolos de Pupillo. “Por eu ser ritmista, valorizo muito uma track que tenha a assinatura dele. Além disso, essa faixa dialoga muito com o meu universo dentro da música brasileira”, diz.

A era das trilhas feitas sob encomenda durou até 1975, ano em que Pupillo nasceu, quando o LP de Pecado Capital inaugurou as compilações com músicas de diferentes gravadoras – embora o tema de abertura ainda tenha sido composto por Paulinho da Viola especialmente para esse grande sucesso de Janete Clair. “O processo mudou. As gravadoras, para divulgarem seus artistas, lançavam as músicas nas novelas. Ficou tudo mais misturado, sem uma assinatura como era antes. Perdeu o charme.”

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