Punk brasileiro construiu identidade própria

Há exatamente uma semana, GastãoMoreira estava uma pilha de nervos. Na sede da ST2, em São Paulo seria realizada a primeira exibição do documentário "Botinada",para poucos. Ali, a responsabilidade era grande. O fato é queestavam na platéia alguns dos pioneiros do movimento punk noBrasil: Clemente, do Inocentes, Fábio, do Olho Seco, Ariel, doRestos de Nada, e sua mulher Tina. Gastão passaria pela prova defogo. "Se esses caras não aprovassem, não teria validade", disse Durante a sessão, olhos grudados na TV - e um misto de risos esaudosismo. Ao final, Gastão pôde respirar aliviado: a aprovaçãofoi geral. Pelo menos, daqueles que lá estavam. Por que alguém demorou tanto para se dar conta de quãoimportante foi a trajetória do punk no Brasil? As teorias são asmais variadas. Para Ariel, símbolo da resistência do movimento,os punks já estão escaldados com gente que deturpa suashistórias. Acham que foram prejudicados pela incompreensão damídia. Globo e "Fantástico", então, soam como insultos a eles."O pessoal sentiu firmeza no Gastão. A gente passou a conhecerele no Musikaos, ele deu muito espaço para nós. Deu liberdadepara a gente falar", observa Ariel. Segundo João Gordo, do Ratos de Porão, Gastão se lançounum trabalho de arqueologia como nunca ninguém fizera antes. "OBrasil nunca deu importância para o punk", acredita. Nunca um movimento musical levou tão a ferro e fogo amáxima do ?faça você mesmo?. Com poucas referências do punkfeito fora do Brasil e nenhuma grana, os adolescentes deperiferia só tinham acesso a uma revista ou outra sobre oassunto. "Os office-boys eram a maioria, muitos trabalhavam emescritórios, no centro", descreve o escritor Antonio Bivar.Discos, então, eram artigos raros. Quem trazia do estrangeiro ouos conseguia com alguma importadora compartilhava com os amigos,fazendo cópias e mais cópias em fitinhas K-7. Diante da escassezde informações, resolveram dar identidade própria ao que seria opunk brasileiro, fazendo sua música, suas roupas, sua rebeldia.Daí, o surgimento das primeiras bandas, como Restos de Nada,Cólera, AI-5 e Condutores de Cadáver. "A gente se correspondiapor carta com punks de outros países e percebia que em cadalugar o movimento tinha uma característica. Diferente de hoje:as bandas cantam igual na Inglaterra ou em Nova York", dizClemente. "Ninguém se vestia como o outro, cada um tinha seuvisual", conta Tina. Na época, lembra que a mãe costurava asroupas para ela. Mas nem todos os pais aceitavam assim que seusfilhos usassem um visual agressivo: calças rasgadas, jaquetas,cabelos desgrenhados, correntes. Ainda mais quando eram suasfilhas. Segundo Tina, a vida da mulher dentro do punk não erafácil. "Mulher sempre foi deixada de lado e com o punk não eradiferente. A gente tinha de meter as caras, senão dançava. Eusempre me impus", comenta ela. "Banda de mulher era muitodifícil. As meninas não sabiam tocar e os caras não tinhampaciência para ensinar." Ela conta que as pessoas nas ruas nãoentendiam aquelas garotas vestidas de sainha e maquiagemcarregada. "Não sabiam se a gente era prostituta, palhaça",completa ela, que continua atuante no movimento até os dias dehoje. Eles contam ainda que muitos entraram para o movimentopelos mais diferentes motivos, seja pela roupa, pela música,pelas gangues. As brigas entre gangues deixaram marcas nomovimento, assim como a rivalidade entre os punks de São Paulo edo ABC. Na opinião de alguns deles, a violência teriaprejudicado a imagem do movimento. "Eu ia aos shows paraassistir às bandas, porque gosto de som ao vivo. E havia essasgangues, que iam se encontrar para tirar rivalidade nos shows.Eu não achava legal", reclama Fabio, do Olho Seco. João Gordodiz que se afastou do movimento brasileiro justamente por causadas brigas. "Da cena mundial, nunca deixei de ser punk; soumuito mais punk que muito nego aí." Essas e outras histórias, como os pontos de encontro, aorigem do punk em São Paulo e o celeiro do movimento no bairrode Vila Carolina, são retratadas também em "Botinada". Nesta terça-feira,às 19 horas, na Fnac Pinheiros, Gastão e companhia participam docoquetel de lançamento do DVD e conversam com o público sobre astrês décadas de punk.

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