Propaganda abraça música eletrônica

O caso de amor do cinema e da propaganda com a música eletrônica está cada vez mais sério nos Estados Unidos. Desde que as faixas de Fatboy Slim viraram a trilha sonora para nove entre dez produções e anúncios orientados para o público teen, no início do ano passado, publicitários e executivos de Hollywood não querem saber de outro gênero, transformando Moby, Groove Armada e Orb em celebridades mainstream.O licenciamento de faixas dançantes vem impulsionando a venda de produtos e a promoção de filmes ao mesmo tempo em que dá uma boa força na venda de discos dos artistas. Um bom exemplo disso é o Groove Armada, cujo álbum Vertigo, lançado há 18 meses, continua sumindo das prateleiras graças, em parte, à inclusão do hit I See You Baby em um comercial da Mitsubishi. Em um movimento que assume a "dobradinha", o disco vem sido vendido com um adesivo que lembra os desavisados sobre "a música do anúncio da Mitsubishi" que já era hit de pista antes de chegar à TV. Os dois integrantes do Groove Armada, Andy Cato e Tom Findlay, dizem não ter problemas com o uso de suas músicas para fins comerciais. "Somos contratados de uma gravadora que provavelmente é dona da Mitsubishi, de qualquer maneira", diz Cato.A dupla defende que o dinheiro dos comerciais e dos filmes tem possibilitado as turnês do grupo com músicos de verdade. O dinheiro, por sinal, não foi pouco: o Groove Armada licenciou também as faixas Rap e If Everybody Looks the Same para o filme 60 Segundos (a segunda também está em Sobrou Pra Você); e Inside My Mind Blue Skies e I See You Baby para Romeo Must Die (sendo que a segunda também aparece na trilha de Road Trip).Mas ninguém bate Moby no quesito licenciamentos. O produtor, que passou boa parte de sua carreira criticando os abusos ecológicos de grandes corporações e se recusando a participar de eventos patrocinados por marcas de cigarros, parece ter deixado os escrúpulos um pouco de lado. As 18 faixas de Play, o álbum que o tornou conhecido em todo o mundo, foram licenciadas para o uso comercial.Honey apareceu em duas novelas; Porcelain foi parar na trilha de A Praia, além de um comercial de carro e de máquina de lavar; Bodyrock ajudou a vender cerveja e virou tema de nada menos que três programas de TV; Natural Blue é o tema de uma estação de rádio alternativa de Londres; enquanto Everlonging é o background de uma propaganda de doces (!). E por aí vai. Não é a toa que Play chegou ao primeiro lugar da parada inglesa e rendeu ao produtor o prêmio de melhor álbum do ano no DanceStar2000 Awards, no mês passado. Nos últimos tempos, outros nomes da eletrônica que também licenciaram seus trabalhos foram o Crystal Method (High Roller foi usado no comercial da Mazda); Wise Guys (Ooh La La foi parar na propaganda da marca de roupas J.Crew); Mr. Oizo (Flat Beat virou tema da Levi´s e ainda inspirou o bonequinho Mr. Flat); e The Orb (Little Fluffy Clouds no anúncio do novo Fusca). Até o homem que impulsionou a onda, Fatboy Slim, está de novo "em cartaz": Praise You é o áudio da atual campanha da Mercedes nos Estados Unidos.Se a associação com grandes marcas rende um bom dinheiro, ela também pode arranhar a credibilidade do artista no mundo underground, que, em geral, é o território de fermentação de boa parte desses artistas. "Se é um bom comercial, qual é o problema?", argumenta Cato, do Groove Armada. Nem todo mundo concorda. Entre os maiores críticos estão os integrantes dos Beastie Boys: "Usar músicas de alguém como Tom Jobim para vender roupas é muito errado", disse Mike D à Planet Pop. "Esse tipo de coisa está só contribuindo para abaixar ainda mais o nível da música pop."

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