Tiago Queiroz/Estadão
O músico Acacio Reis, fundador da escola de música Unidos de Paraisópolis Tiago Queiroz/Estadão

Projeto musical ensina ritmos brasileiros a crianças e jovens de Paraisópolis

Iniciativa é liderada pelo músico e professor Acácio Reis, que cresceu na comunidade

Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 05h00

"Eu era um filho da rua, passava o dia todo na rua”, assim o músico e professor Acácio Reis, de 28 anos, descreve sua infância pelas vielas de Paraisópolis. Isso antes de entrar no extinto projeto cultural Barracão. Lá ensinavam música brasileira, muito além do samba. E o jovem teve contato pela primeira vez com os instrumentos de percussão. “A percussão é uma família de tambores. Tem o surdo, a caixa, o tamborim, o ganzá, o agogô, o xequerê, o caxixi. O percussionista não pode tocar só pandeiro”, resume ele. 

Nascido nas ruas do Bexiga, ele cresceu ouvindo os ensaios da escola de samba da paulistaníssima Vai-Vai. Com a separação dos pais, aos cinco anos foi morar com a mãe em Paraisópolis. Lá se encontrou e se apaixonou pela música. “Quando comecei a tocar meu primeiro instrumento, a caixa, parecia que já sabia tocar. Foi muito familiar. Aquilo tudo já estava dentro de mim, só precisava de um instrumento para colocar para fora”, diz. 

Os anos se passaram, o rapaz fez faculdade de música na zona leste da cidade, duas horas de distância para ir, mais duas horas para voltar à Paraisópolis. Nas aulas noturnas aprendeu a dedilhar os instrumentos de corda, teclado e também as notas musicais em partituras. O universo musical se abriu para além dos instrumentos de percussão. 

Começou então a ter um sonho: retribuir para os moradores de Paraisópolis, tudo aquilo que havia aprendido. “Existem vários projetos musicais no bairro, como a Orquestra Paraisópolis, que participei, mas de ensino de música brasileira, como tinha no Barracão, não existia mais, foi aí que pensei numa escola com esse perfil”, explica. Surgiu então a Unidos de Paraisópolis, que diferente das escolas de samba tradicionais, tem por fim não ensinar apenas o ritmo brasileiro mais conhecido no mundo, mas outros tantos que fazem parte de nossa cultura. 

Em um ano de existência possui 25 integrantes, alunos cujas idades vão de sete anos, até a faixa dos trinta. Ensaiam todos os finais de semana em um estacionamento dentro da comunidade que cedeu parte de seu espaço para os jovens e, no momento, fazem vaquinhas e campanhas para conseguirem mais instrumentos para aumentarem o número de alunos por aula. / T. Q.

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Live-filme reúne grandes nomes da música e literatura com artistas de Paraisópolis

'Inspira: Quem Jamais te Esqueceria' contará com duas horas de programação gravada e ao vivo, com direito a Gilberto Gil, Maria Gadú, Elza Soares e a Orquestra Filarmônica de Paraisópolis

Tiago Queiroz, O Estado de S.Paulo

03 de outubro de 2020 | 05h00

Um tambor, cujo som remete às batidas do coração, ecoará por meio dos bits e bytes virtuais nas redes sociais pontualmente às 18 horas neste sábado, 3. Esse som, um ijexá, ritmo dos blocos de afoxé da Bahia, será tocado pela percussionista Simone Sou em parceria com o professor Acácio Reis e os alunos da escola Unidos de Paraisópolis. A dupla dará início a live-filme Inspira: Quem Jamais te Esqueceria, um roteiro com a participação de 24 atrações, entre grandes nomes da música brasileira, escritores, pensadores e artistas do bairro de Paraisópolis. Serão cerca de duas horas de filme, entre as atrações gravadas e as participações ao vivo.

A lista é extensa e nela constam nomes como: Gilberto Gil, Chico César, Maria Gadú, Orquestra Filarmônica de Paraisópolis, Francis e Olivia Hime, Elza Soares e Flávio Renegado, entre muitos outros. O evento também contará com a presença da atriz Clarice Niskier, do escritor Milton Hatoum e do fotógrafo francês Yann Arthus-Bertrand que, além da participação na live, expõe sua célebre série de fotografias aéreas do planeta alertando para a destruição da Terra. Grandes painéis fotográficos podem ser vistos pelos corredores do Pavilhão de Paraisópolis, um ponto de encontro no bairro essencial nestes meses de isolamento social e combate à pandemia.

O projeto da live, sem fins lucrativos, é fruto do trabalho do produtor cultural Carlos Netto, ex-diretor de estratégia e recursos humanos do Banco do Brasil. Nos tempos de banco, Netto organizava o seu Inspira, uma série de bate-papos presenciais (pré-pandemia) e histórias de vida dos funcionários da empresa, que se tornou o embrião do que vem fazendo agora, em versão virtual e fora da instituição financeira, com parcerias de comunidades de todo o Brasil, como a favela da Maré, no Rio de Janeiro, cuja live foi exibida em junho, e Paraisópolis, neste fim de semana.

Na tarde da segunda-feira, 28, Carlos Netto esteve com uma pequena equipe pelas ruas de Paraisópolis captando as últimas imagens para tecer essa colcha de retalhos de depoimentos, narrativas e músicas. Boa parte do conteúdo já foi pré-gravada e passou na última semana por edição. “Queremos um projeto que estimule a reflexão nas pessoas. Mostrar esse Brasil bonito, esses bons exemplos de lugares como a Maré e agora Paraisópolis. As pessoas precisam de uma janela de esperança”, diz o produtor, que tem planos de levar em breve seu Inspira para outras cidades como Recife e Belém do Pará. 

Uma parte do dinheiro arrecadado por meio da doação dos expectadores da live em uma conta própria, aberta pela comunidade, servirá para a construção de uma escola de teatro. A ideia da escola partiu do coordenador da rádio comunitária, Daniel Silva Cristóvão. “Já gravaram novela, documentário, tanta coisa por aqui, e nunca vi um ator de Paraisópolis participando. É hora de dar um basta de sempre ser figurante, nunca protagonista”, diz o jovem nascido e criado no bairro. A outra parte da verba será usada para a compra de cestas básicas. “Falando o português claro, há muita gente passando fome por aqui, que perdeu o emprego neste período de pandemia”, acrescenta Daniel.

Com o título Quem jamais te esqueceria, refrão da música Terra, de Caetano Veloso, a presença do cuidado com a natureza, com as matas, os rios e os oceanos permeia todo o filme. O roteiro foi feito em parceria com a atriz Clarice Niskier, que resume em uma frase o objetivo do projeto: “Um grande ritual de ressignificado do que é ser vivo”.

Parcerias como a do maestro João Carlos Martins, que foi até Paraisópolis semanas atrás gravar uma música com a presença do casal de bailarinos Mariana Farias e Luiz Fabiano Dias, alunos do Ballet de Paraisópolis, enchem os olhos. Um piano de cauda foi levado até o mezanino do Pavilhão, numa “operação de guerra”, segundo as palavras do próprio maestro. 

Nele, João Carlos dedilhou, com o apoio de suas luvas biônicas, a belíssima e pouco conhecida Playing Love, do compositor Ennio Morricone. “Quando vejo jovens como a Mariana e o Fabiano, com a qualidade da apresentação deles, sonhando com a Academia de Ballet de Londres, é porque algo deu certo neste país. Nos traz esperança”, completa o maestro, ele também um exemplo de resiliência.

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