Julio Maria/Estadão
Julio Maria/Estadão

Projeto Música nas Montanhas cria plateias levando sons para fora das salas de concerto

Festival que ocorre agora em Poços de Caldas, Minas Gerais, já é considerado um dos dez mais conceituados o País

Julio Maria, O Estado de S. Paulo

13 Janeiro 2014 | 19h32

O que os três motoristas de trator do Sul de Minas Gerais estão vendo, ninguém sabe. Seus olhos viraram pedra logo depois que eles chegaram a um dos galpões da fazenda da família Carvalho Dias na manhã do último domingo. Sentados em uma mureta entre colonos e fazendeiros que vivem da colheita de batatas há mais de 20 anos, passam a habitar outra dimensão no instante em que um grupo de clarinetistas toca à sua frente Luiza, de Tom Jobim. “Nunca ouvi nada parecido”, diz Aparecido de Souza, o mais velho.

Os pouco mais de 30 minutos em que os músicos ficam ali reativam alguns vulcões em Poços de Caldas. A cidade de quase 170 mil habitantes cresceu sobre águas e terras acomodadas em uma região vulcânica milenar. Quando não havia batatas, suas erupções moldavam o vale à beira da Serra da Mantiqueira no qual Poços faria ninho. A música dos clarinetistas, 85 milhões de anos depois dos vulcões, volta a deixar os colonos agitados.

A estratégia de se tirar a música das salas de concerto e levá-la para regiões onde ela praticamente inexiste é parte de um festival que cresce, surpreende organizadores e já é considerado como um dos 10 mais conceituados do País. “Fizemos milagre com o orçamento”, diz a diretora Raquel Mantovani, referindo-se aos R$ 700 mil que recebe por temporada por meio de incentivos fiscais.

Seu formato lembra, guardadas as proporções e com algumas ressalvas, o invernal Campos do Jordão, feito, para efeito de comparação, com R$ 3 milhões. Durante duas semanas, a cidade trabalha com três frentes: anuncia uma programação de concertos noturnos no teatro principal da cidade, abre dezenas de aulas e workshops para alunos de todo o País e faz o que chama de série especial.

É da série especial que saem iniciativas capazes de, como efeito colateral, levar aos concertos oficiais uma plateia virgem, que acaba de descobrir a música sinfônica. A reportagem acompanhou grupos de músicos no Restaurante Popular, no Mercado Municipal da cidade e na fazenda da família Carvalho Dias. Em todos os lugares, a maior parte das plateias era formada por pessoas sem nenhum contato anterior com música de câmara. “É uma experiência para os dois lados. Assim como as pessoas que ouvem música erudita pela primeira vez, os alunos que vão a esses lugares saem de lá enriquecidos”, diz Andrea Turato, responsável pelos concertos especiais.

A necessidade virou aliada quando a organização percebeu que não poderia engessar sua programação aos locais físicos. Ainda que tenha o bom Teatro da Urca (o nome é sim uma referência à Urca carioca), seus 500 lugares não são mais suficientes para abrigar os concertos principais. Assim, os especiais funcionam também como um alívio às plateias.

Os clientes do Restaurante Popular de Poços de Caldas tiveram primeiro um susto quando perceberam que um grupo de sopros de peso se apresentaria ali. Os chamados metais pesados, de tubas, trompas e trombones, se posicionou entre as mesas e, ainda no susto dos que almoçavam, abriu uma série de temas com o spiritual Amazing Grace. Fez depois Habanera, da ópera Carmen, Dança Slava, de Dvorak, e o Amor das Três Laranjas, de Prokofiev. “Já temos aqui um conceito de resgate de cidadania dessas pessoas de baixa renda. Achei que receber os músicos por aqui seria parte disso”, diz o gestor da casa, Carlos Eduardo Almeida. “Sei que somos um celeiro de artistas”, dizia o jornalista aposentado Lud Gero Borges. “E eles podem aparecer até em um restaurante popular. As pessoas só precisam aprender a ouvir este outro tipo de música.”

O festival, que leva o nome oficial de Música nas Montanhas, tem como idealizador o maestro Jean Reis e chegou este ano à sua 15.ª edição. Sua programação, mesmo a principal, é gratuita e segue até o dia 18, domingo. Os grupos dos concertos especiais são formados pelos alunos que procuram o projeto. Este ano eles foram cerca de mil e vieram também de países da América Latina para estudarem com professores como Gilberto Tinetti (piano) e Marcelo Jafé (viola). Convênios são feitos com universidades de música dos Estados Unidos e da França, para que alunos do festival passem a estudar no exterior com os custos pagos.

Ainda sem a visibilidade nacional de seu primo mais rico, Campos do Jordão, Poços ainda consegue manter o charme nos dias de maior vibração, quando a cidade está cheia.

Mas o festival começa a sentir que precisa de mais espaço para não sufocar. Um importante e histórico teatro do complexo Palace Cassino, que nos anos 40 recebeu grandes nomes da música brasileira, como Carmen e Aurora Miranda, está passando por um processo de licitação. Em reforma, a casa pode ficar pronta até o ano que vem e deve ser o espaço mais nobre do festival, com 700 luxuosos lugares a mais.

“Poços é a cidade que mais apresenta projetos culturais no País. Temos um potencial grande por aqui”, diz o prefeito Eloízio do Carmo (PT). Seu desafio agora é fazer o festival crescer com segurança, já que os estudos mostram que a cada ano são mais alunos e turistas migrando para a cidade nesta época do ano. Os números oficiais apontam que em 15 edições, o Música nas Montanhas recebeu 316 mil espectadores e 11 mil alunos que vieram de 40 países.

Um deles, Leandro Siqueira, flautista, saiu do interior de São Paulo e foi escalado para tocar com o grupo que visitou o Mercado Municipal da cidade. “É um presente para quem está do lado de cá também.”

Encontrou algum erro? Entre em contato

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.