Acervo Estadão
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Projeto lançará 30 CDs de música clássica brasileira até 2023

Obras incluem compositores como Villa-Lobos, Almeida Prado e Guarnieri

João Marcos Coelho, Especial para o Estado

01 de outubro de 2020 | 05h00

Nascido nos estertores do governo Temer, o projeto “Brasil em Concerto”, concebido e “costurado” por Gustavo de Sá, do Itamaraty, deverá continuar sua trajetória firme e forte até 2023, quando 30 CDs terão sido lançados – aqui pelo Selo Clássicos, internacionalmente pela Naxos – contendo 100 obras sinfônicas e concertantes de música brasileira, em registros técnica e artisticamente impecáveis, a cargo de três de nossas mais qualificadas orquestras: as Filarmônicas de Goiás e de Minas Gerais e a Osesp. Pode ser, ou melhor, deve ser o único projeto a atravessar três gestões do escalão federal. Mesmo sem Ministério da Cultura, mesmo com os cortes em tempos de pandemia.

No projeto está Almeida Prado – Obras para piano e orquestra, da Filarmônica de Minas Gerais, indicado, na segunda-feira, 29, ao Grammy Latino 2020 na categoria melhor álbum clássico do ano. Gravado em maio de 2019 e com regência do maestro Fabio Mechetti, o disco contempla as primeiras gravações mundiais de três obras de Almeida Prado (Concerto para piano no. 1, Concerto Fribourgeois e Aurora) com a sempre excelente pianista Sonia Rubinsky. 

Outro recente fruto desse projeto é o CD em que músicos interpretam quatro choros de Mozart Camargo Guarnieri (1907-1993). Ao todo, serão dois álbuns com a integral dos choros do compositor paulista. Choro, para Guarnieri, é algo bem diferente do que significava para Villa-Lobos, por exemplo. Choro é apenas uma palavra para substituir a convencional, concerto, para obras destinadas a instrumentos solistas e orquestra.

Este não é o Guarnieri sempre repetido e sim o menos tocado e gravado, com exceção talvez do choro para violino, com solo de Davi Graton. São peças espalhadas por seus últimos 40 anos de vida, a partir de 1951, um ano depois de sua polêmica com Koellreutter em 1950, em que defendeu o nacionalismo contra a postura vanguardista do alemão aqui radicado. Foi sua carta aberta musical de reafirmação do nacionalismo mariodeandradino.

Aos poucos, Guarnieri afastou-se da cartilha nacionalista. Abriu seus ouvidos e ampliou consideravelmente suas ferramentas composicionais. Foi se libertando aos poucos da tonalidade estrita e, melhor, de um nacionalismo igualmente estrito. Postura já explícita na Seresta para piano e orquestra, de 1965, como bem acentua Paulo de Tarso Salles no texto do encarte do CD. Interpretação admirável de Olga Kopilova, pianista da Osesp. 

Cinco anos mais tarde, Guarnieri já brincava à vontade com as técnicas seriais. Permitiu-se até incluir um cravo, estendendo sua paleta até o barroco no interessantíssimo Choro para flauta. De novo, performance impecável de Cláudia Nascimento e da Osesp regida por Isaac Karabtchevsky. O maestro Lutero Rodrigues escreve, no livro coletivo Camargo Guarnieri – o tempo e a obra, de 2001, que a característica mais marcante deste choro é “a ausência de tonalidade”. Lutero continua: “Surpreendendo aos que o julgavam incapaz de empreender novas experiências aos 60 anos de idade, e descontentando os conservadores que o tinham como seu mais firme partidário, o compositor produziu um número significativo de obras que não figuram entre as suas mais conhecidas criações”.

O choro para fagote, obra mais curta deste CD, vai na mesma toada do choro para flauta, brincando com o melhor dos dois mundos. Em 1991, no final da vida – ele morreria um ano e meio depois --, Guarnieri comprime admiravelmente a forma e obtém enorme força expressiva. São 9 minutos de música intensa. Excelente Alexandre Silvério ao fagote. Irretocável a Osesp. Os músicos todos empenhados na execução deste repertório que é fundamental na vida de todas as orquestras brasileiras.

Tudo aqui é elogiável: os solistas são primeiras estantes da Osesp. E de novo o maestro é Isaac Karabtchevsky, responsável pela mais consistente aventura da orquestra em gravações nas duas últimas décadas: a primeira integral decente das sinfonias de Villa-Lobos, para o mesmo selo Naxos, e com partituras submetidas a um minucioso trabalho de revisão crítica.

Se foram decisivos para a música brasileira o resgate e a recolocação em circulação das sinfonias de Villa-Lobos, agora o passo que está sendo dado pelo projeto Brasil em Concerto é gigantesco, revolucionário. Villa é o maior compositor brasileiro, ninguém duvida. Mas a música brasileira não é só Villa, embora internacionalmente assim nos vejam. 

Os primeiros CDs do projeto Brasil em Concerto já estão alterando o modo como somos vistos internacionalmente. Como, por exemplo, os dois primeiros CDs da Filarmônica de Minas Gerais e Fábio Mechetti: um com a Sinfonia em sol menor de Alberto Nepomuceno.

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