Luan Cardoso
Luan Cardoso

Projeto de Luca Raele e Marcelo Quintanilha põe temas em canções de Beethoven e outros compositores

Em 'EruDito' participam, em duetos com Marcelo, nomes muito conhecidos como as cantoras Mônica Salmaso, Virgínia Rodrigues e Daniela Mercury, além do padre-cantor Fábio de Melo

João Marcos Coelho, Especial para o Estadão

20 de julho de 2021 | 05h00

O musicólogo norte-americano Lewis Lockwood escreveu, em 2003, um dos mais qualificados e abrangentes livros sobre Beethoven. Felizmente, existe uma tradução em português, lançada pela Editora Códex no ano seguinte. Num prefácio escrito em 2018, a propósito de uma nova edição do livro, mostrando que a fama multissecular de Beethoven entre o grande público se deve a seus temas mais famosos, como o das batidas do Destino na Quinta Sinfonia ou a Ode à Alegria da Nona Sinfonia, Lockwood cita uma anedota envolvendo o compositor francês Maurice Ravel. 



Alguém lhe perguntou como iam as coisas em relação a uma obra de grandes proporções que estava compondo. Ele teria respondido: “Terminei tudo, exceto os temas”. Esta pitada de fino humor de Ravel, diz Lockwood, lembra que, no vasto repertório da música clássica, os “temas” de uma composição são suas características definidoras mais óbvias. Eles são as assinaturas pelas quais geralmente a gente recorda e identifica uma composição inteira ou qualquer um de seus movimentos.

Há muitas melodias de obras-primas da música de concerto que já receberam letras e foram adaptadas de várias maneiras. Mas o detalhe é que em geral se aproveita apenas a primeira melodia, a que é a assinatura da obra para o grande público. O tema a que se referiu Ravel na piada contada por Lockwood. 

Conhecedor profundo do repertório clássico romântico, o clarinetista, pianista, compositor e arranjador Luca Raele propôs ao cantor e compositor Marcelo Quintanilha uma aventura singular: colocar letra em grandes temas da música clássica. Depois de muito trabalho, eles selecionaram 11 melodias de 10 compositores que atendem pelos nomes de Bach, Vivaldi, Mozart, Beethoven, Schubert, Schumann, Chopin, Brahms, Tchaikovski e Debussy.

Ora, pegar apenas o tema e colocar uma letra seria simplista, simplório até. Infelizmente, é o que geralmente ocorre, desde priscas eras - como os anos 1970, em que foi sucesso mundial o famigerado arranjo pop-latin-sinfônico feito pelo argentino Waldo de los Rios do Molto Allegro inicial da Sinfonia N.º 40 de Mozart. Ele inventou um galope, parece que se ouve um caubói de um western spaghetti. Foi replicado zilhões de vezes por outros arranjos estilo Frankenstein, plenamente desconjuntados.

Esta dupla refinada passa longe desse tipo de trapalhada. Construiu um álbum duplamente sensacional. Primeiro porque os arranjos e as letras, além das performances, são de primeiríssima qualidade. Depois, porque também é capaz de atingir o grande público porque dele participam, em duetos com Marcelo, nomes muito conhecidos como as cantoras Mônica Salmaso, Virgínia Rodrigues e Daniela Mercury, além do padre-cantor Fábio de Melo.

O título é EruDito, ou seja, como Luca explica, o erudito versado, letrado, cantado, transformado em canção. E por canção entenda-se bossa nova, moda de viola, marcha-rancho, samba choro e congado. Os arranjos são assinados por Luca Raele, que também toca piano e clarinete; Marcelo Quintanilha, além de cantar e escrever todas as letras também pilota o violão. Camilo Carrara se alterna entre violões, bandolim e guitarra - e Danilo Vianna toca o baixo acústico. A direção artística do recém-lançado álbum EruDito, da YB Music, é de Luca Raele e Camilo Carrara.

Vou ficar num exemplo só, Nem País, Nem Paz, baseado num dos mais lindos temas compostos por Brahms, em sua terceira sinfonia. Vá ao YouTube, batuque Brahms Symphony 3 Poco Allegretto e ouça. São 7 minutos, em média.

 


Em seguida, escute a faixa 5 de EruDito, Nem País, Nem Paz. Você deve ter notado que há, além do conhecidíssimo tema inicial, um outro igualmente belo mas ao qual você não havia prestado atenção nem é memorável a ponto de estar no nosso inconsciente. Pois Luca e Marcelo usam não apenas o tema aqui conhecido, mas também o segundo tema dessa romança, na versão de Brahms, reinventada como canção sobre o drama dos refugiados. A canção tem 4’35 e o segundo tema aparece na altura de 1’55. Luca faz dele um delicadíssimo intermezzo com o som característico do clarinete surgindo num levíssimo colchão de piano e cordas dedilhadas, até a coda, quando Marcelo Quintanilha e seu convidado para esta faixa-degustação do álbum, o padre Fábio de Melo, voltam a cantar. 

 

Todo esse sofisticado trabalho musical poderia ir a pique se a letra fosse daquelas comuns e óbvias de tantas canções feitas para durar 15 minutos e depois mergulharem no cesto do lixo descartável. Mas elas são igualmente refinadas. Como a de Nem País, Nem Paz. Marcelo não é só bom cantor, é excelente letrista - veja um trecho:

“Quem partiu sem chegar / Quem deixou seu lugar / Sem poder se aprontar / Sem saber onde aportar / Que o mar sem fim, sem cais / Só desfaz o que ficou pra trás / Quem perdeu junto ao chão / Pai e mãe, filho, irmão / Só ganhou não e não / Sem caber, qual a direção? / Que o norte, o sul e mais / Cardeais, não têm país nem paz / É gente da mesma Terra / São tantas, e a mesma guerra / E os muros entre nós / Sempre mais sós / Só deixam ver / Lado de cá Nada a fazer / Se já nem há / Lado de lá / Só bandeiras / E trincheiras / Só fronteiras / Quem partiu sem chegar / Quem deixou seu lugar / Sem poder se aprontar / Sem saber onde aportar / Que o mar sem fim, sem cais / Só desfaz o que ficou pra trás.” 

Isso é que é fazer uma ponte virtuosa entre melodias eruditas que estão no inconsciente coletivo e a canção popular. Cada canção é uma viagem transversal que parte do erudito e constrói canções consistentes, que não devem ser ouvidas porque são bem arquitetadas ou embutam sacadas inteligentes. Também por isso, mas sobretudo porque são deliciosas, aliando temas conhecidos com letras que fazem parte do nosso dia a dia. 

Última informação: este exercício que acabei de fazer em relação ao poco Allegretto da Sinfonia N.º 3 de Brahms transformado na canção Nem País Nem Paz pode ser replicado por você numa playlist elaborada por Luca Raele disponível no Spotify: ele colocou o movimento ou trecho da peça erudita e em seguida a canção nela baseada. 

 

 

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