Alan Fischer/ACG-IEB-USP/Divulgação
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Projeto Brasil em Concerto regasta a obra de compositores brasileiros em 30 álbuns

O primeiro álbum da série Brasil em Concerto será lançado no começo de 2019, com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais interpretando obras de Alberto Nepomuceno; projeto vai até 2023

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

27 Novembro 2018 | 06h00

Um projeto do Ministério das Relações Exteriores em parceria com algumas das principais instituições musicais do País vai promover a gravação e o lançamento de 30 CDs dedicados à música de compositores brasileiros. O primeiro álbum da série Brasil em Concerto será lançado no começo do ano que vem, com a Orquestra Filarmônica de Minas Gerais interpretando obras de Alberto Nepomuceno. Até 2023, o selo Naxos vai disponibilizar a série completa de álbuns, totalizando cem obras gravadas de autores de diferentes épocas e gerações.

“A ideia partiu do próprio ministério, com o diplomata e compositor Gustavo Sá, que percebeu a carência de gravações e de material editado de importantes obras brasileiras e resolveu criar um projeto de cooperação entre orquestras”, diz Marcelos Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp, que integra o projeto ao lado do grupo mineiro e da Orquestra Filarmônica de Goiás. “O ministério apoia os custos de produção e cada orquestra insere o projeto em sua agenda anual”, completa.

A Osesp inicia sua participação em janeiro, com a gravação dos Choros do compositor Camargo Guarnieri, que será comandada pelo maestro Isaac Karabtchevsky – as peças também serão apresentadas ao longo de um ciclo de concertos em fevereiro, antes da abertura oficial da temporada de assinaturas.

“Será a primeira vez que me dedico a uma das vertentes de Guarnieri que mais admiro, sua profunda vinculação à temática brasileira. Nesse sentido, tanto ele como Villa-Lobos apresentam visões díspares e por vezes contraditórias sobre uma fonte comum”, diz o maestro. “Em Guarnieri há uma dissecação da linguagem, uma orquestração que reflete um pensamento apolíneo, timbres pontuais visando à clareza da forma e absoluta lógica do discurso. Já em Villa-Lobos, os ritmos geniais e alucinantes podem confundir a escuta, mas deixam transparecer a força do pensamento musical. Dois grandes músicos, duas visões que se completam.”

A Osesp fará dez CDs: além de Guarnieri e Villa-Lobos, o grupo deve se dedicar a compositores paulistas, como Almeida Prado e Francisco Mignone. Almeida Prado também está nos planos da Orquestra Filarmônica de Minas Gerais, que em 2019 vai gravar com a pianista Sonia Rubinsky peças para piano e orquestra do compositor. “Outros nomes incluem Lorenzo Fernandez, em 2020, e Henrique Oswald e Antonio Carlos Gomes nos anos seguintes”, diz o maestro Fabio Mechetti, diretor artístico e regente titular do grupo mineiro, que em 2018 se dedicou a Alberto Nepomuceno.

“Do ponto de vista da criação nacional de música sinfônica, Nepomuceno tem uma importância singular, já que foi um dos primeiros compositores brasileiros a dedicar boa parte de sua obra à música orquestral, tendo composto uma das poucas sinfonias escritas em território sul-americano ainda no século 19”, diz Mechetti. “A obra de Nepomuceno também representa um fim de período em que compositores cada vez mais se distanciam das influências europeias e emprestam do folclore brasileiro fontes de inspiração para suas criações musicais.”

Quando assumiu a Orquestra Filarmônica de Goiás, o maestro inglês Neil Thomson procurou obras de artistas brasileiros que pudesse interpretar e gravar com a orquestra – mas tentando evitar os nomes mais conhecidos, como Villa-Lobos. Os primeiros dois discos lançados pelo grupo, em 2015 e 2016, sob o comando de Thomson, tinham como foco a obra de César Guerra-Peixe. E, no começo deste ano, o grupo anunciou o ambicioso plano de gravação de todas as sinfonias de Claudio Santoro, nome chave da música brasileira na segunda metade do século 20, ainda que pouco interpretado por nossas orquestras.

“Ao chegar ao Brasil, eu conhecia Villa-Lobos, mas queria saber um pouco mais sobre música brasileira. Depois do Guerra-Peixe, comecei a perguntar, e me falaram do Santoro. A primeira coisa que fiz foi ouvir a gravação que John Neschling fez com a Osesp, das Sinfonias n.º 4 e n.º 9 e, uau!, fiquei impressionado com a força sinfônica de sua música”, contou Thomson em entrevista na época do anúncio das gravações, no meio do ano. O grupo já interpretou em sua temporada deste ano as sinfonias n.º 1, n.º 5, n.º 6, n.º 7 e n.º 8. “Não tenho dúvida de que, se ele fosse um compositor europeu, seria tão tocado quanto Shostakovich.”

 

Brasil em Concerto prevê raro diálogo entre instituições

O projeto Brasil em Concerto prevê também a gravação de obras de José Siqueira, Guerra-Peixe e Edino Krieger, que completou 90 anos em 2018. E marca uma parceria entre orquestras (e também com a Academia Brasileira de Música) que, para Marcelo Lopes, diretor executivo da Fundação Osesp, pode gerar frutos que transcendem os 30 CDs previstos.

“A Osesp vem se dedicando à recuperação e gravação da música brasileira há muito tempo. Mas o passivo de repertório a ser gravado é imenso, impossível de ser coberto por uma orquestra”, diz Lopes. “Esse acordo pioneiro vai acelerar o processo e viabilizará que cada grupo possa centrar esforços nos compositores aos quais já vêm se dedicando. O trabalho coordenado, além de melhorar a produtividade, é uma forma de distribuir a responsabilidade de preservação da memória musical brasileira entre várias orquestras. Espero que outras possam vir a participar futuramente. E a criação de um setor específico de música brasileiro no selo Naxos vai facilitar a busca do nosso repertório por interessados nacionais e estrangeiros.”

A falta de diálogo entre orquestras é um antigo problema da vida musical brasileira. Mas, além do projeto Brasil em Concerto, há pelo menos outra parceria prevista para a temporada do ano que vem. Para celebrar os 80 anos do compositor Marlos Nobre, um pool formado por Osesp, Filarmônica de Goiás, Orquestra Petrobras Sinfônica e Filarmônica de Minas Gerais encomendou a ele um novo concerto para violoncelo e orquestra, que será apresentado por todos os grupos com Antonio Meneses como solista. 

Para Karabtchevsky, o trabalho de gravação é particularmente importante no momento em que significa também a preparação de edições de referência de partituras, nem sempre disponíveis. Ele cita como exemplo o projeto de gravação das sinfonias de Villa-Lobos, encerrado este ano pela Osesp sob seu comando. “Era preciso restabelecer a coerência entre os manuscritos e as partituras à disposição da classe musical. Foi um trabalho que empreendemos durante sete anos sem pausa.”

Para Mechetti, um projeto como esse tem também um poder simbólico. “Ainda é pequena a difusão da música brasileira de concerto no exterior e, quando isso se dá, fatalmente é feita através de algumas obras de Villa-Lobos, ou, em menor quantidade, de Guarnieri e Carlos Gomes”, explica o maestro. “Um projeto abrangente como esse não só dará oportunidade de que mais compositores nacionais sejam conhecidos como também divulgará o trabalho de qualidade que orquestras nacionais têm feito nos últimos anos, mostrando que o Brasil tem mais a oferecer do que os chavões de sempre.”

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