Programação foge do previsível e seduz público

O que significa a Osesp para um morador de São Paulo que goste de música clássica? A possibilidade de dispor, todas as semanas, de concertos elaborados e executados com competência, num local bastante atraente. Nos termos dessa resposta já estão enfeixados os ingredientes da receita: imaginação para construir os programas, alto nível técnico e estético de realização, planejamento antecipado. Fórmula que parece óbvia, mas nem sempre tem sido moeda corrente na vida musical desta cidade.O ano passado ainda não tinha terminado e a direção da Orquestra Estadual já anunciava oficialmente todo o programa para 2000 e punha à disposição do público diversas modalidades de assinaturas, das quais foi vendido um número mais do que expressivo. Estamos em outubro e, em todos os concertos realizados até agora, houve apenas uma modificação: o Concerto para Violino de Ligeti, que deveria ter sido interpretado por Saschko Gawriloff, foi trocado pelo de Dvorak. Para o nosso público, habituado à rotina das mudanças e cancelamentos de última hora, isso soa como uma verdadeira proeza.É a preocupação em planejar com antecedência que tem permitido trazer à cidade nomes estrangeiros significativos, que não teriam condições de atender ao convite se este não fosse feito com antecedência. Graças a essa política, no decorrer deste ano, pudemos assistir ao trabalho de regentes como David Parry, Michel Tabachnik ou Mark Ermler e tivemos entre nós solistas do porte de Mikhail Rudy, Cristina Ortiz ou o próprio Gawriloff, com os quais ouvimos programas que também fogem ao previsível.Este, aliás, é outro ponto importante: ao organizar os concertos da Osesp, o seu diretor artístico, o maestro John Neschling, está demonstrando que não é necessário continuar trilhando os caminhos batidos. Confiar na maturidade e no interesse do público faz com que a orquestra não hesite em oferecer uma noitada de Ravel, Chausson e Janácek para uma casa cheia que, no final, aplaudiu entusiasticamente. Na semana em que tocou a estréia de uma peça para viola e orquestra de um compositor cubano, e uma das sinfonias do contemporâneo inglês sir Michael Tippett, a Osesp demonstrou cabalmente não ser preciso ficar remoendo os surrados cavalos-de-batalha de sempre para cativar a atenção do público.É possível arriscar, para abrir horizontes. E os concertos da Sala São Paulo o têm feito galhardamente, fazendo-nos ouvir sinfonias de Mahler e Shostakovitch, poemas sinfônicos de Richard Strauss, peças de nomes pouco familiares ao público em geral ? Charles Ives, Darius Milhaud, Bohuslav Martinu, muitos inéditos brasileiros ?, mas também grandes textos clássicos raramente executados entre nós: a Missa Solemnis, de Beethoven, As Estações, de Haydn. E antes do final do ano, reserva-nos outra grande página do repertório deste século: o Réquiem de Guerra, de Benjamin Britten.À riqueza de opções somam-se o rigor e a alta qualidade da execução. Mas isso já é chover no molhado, pois outra coisa não tem feito a crítica desta cidade senão assinalar os níveis técnicos e estéticos elevados que o processo de renovação dos efetivos da orquestra e o sistema organizado fizeram a Orquestra Estadual atingir nestes últimos anos, obtendo não só um excelente resultado de conjunto, mas também apresentando notáveis talentos individuais, que têm se destacado cada vez que as peças escolhidas exigem participações solistas. Essas observações se estendem também, naturalmente, ao coro, diante do qual Naomi Munakata tem feito um trabalho da maior consistência.O local, finalmente, último ingrediente daquela receita a que nos referíamos no início dessa reportagem. Não seria o mesmo o charme da Osesp sem o encanto da Sala São Paulo, espaço maravilhoso, salvo de ter-se convertido num estacionamento pela inteligência de quem percebeu poder funcionar ali uma belíssima sala de concertos. Mais do que um local adequado para a realização do trabalho da Estadual, a Sala São Paulo ? administrada com extrema eficiência ? converteu-se num ponto de encontro para o fim de semana, num espaço de confraternização para quem gosta de música, numa afirmação viva de que existe nesta cidade um potencial enorme para as atividades musicais, que só não se explora mais por inércia e falta de imaginação.

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