Programa faz homenagem a Clara Nunes

Sorriso largo, mulher emotiva, voz límpida e cativante - a cantora Clara Nunes foi uma das mais idolatradas da música popular brasileira e teria gravado mais que 17 discos não fosse a morte por parada cardíaca há exatamente 20 anos, quando faltavam poucos meses para completar 40 anos. Sua ausência será lembrada hoje no programa Arquivo N, que o canal por assinatura Globo News (sistema Globosat) leva ao ar às 23 horas. O motivo da morte de Clara sempre foi controverso. Internada na clínica São Vicente, no Rio, para uma cirurgia de varizes, ela entrou em coma e morreu 27 dias depois. A notícia de sua morte provocou comoção entre os fãs, que se acotovelaram no enterro. Apontada como sua substituta pela própria Elizeth Cardoso, Clara cantava do samba carioca à música dos índios karaós, em permanente pesquisa de ritmos e sons. Em uma das curiosidades do Arquivo N, ela conta como se interessou pelo samba. "Conheci o Ataulfo Alves, nos tornamos amigos. Ele me aconselhava a cantar samba. Por meio dele, fui até a Odeon e disse que queria gravar samba. O Ataulfo foi comigo e me deu um samba para gravar, que foi um grande sucesso: Você Passa Eu Acho Graça. Ele foi muito importante, inesquecível." Em outra entrevista, de 1976, Clara comenta sobre sobre rótulos. "Sou uma cantora pop brasileira, sempre lutei para cantar as coisas boas. Só canto os compositores de verdade; então, não posso garantir que sou sambista. Eu sou uma cantora autêntica brasileira. É isso que faço questão de ser." No programa, Clara aparece cantando sucessos como Conto de Areia, Nação, Serrinha e Morena de Angola. E também uma apresentação sua com Paulinho da Viola, um dos entrevistados. Clara nasceu em Paraopeba, Minas Gerais, em 1943, filha de pai violeiro e cantador em folia de reis, influências que permaneceram em seu sangue. Foi tecelã e tornou-se cantora na adolescência. Gravava boleros e sambas-canções sem muito sucesso até que, em 1968, em um festival de música em Juiz de Fora, cantou Você Passa Eu Acho Graça. Foi um sucesso imediato, mas mesmo assim ela ainda teria de brigar muito para escolher seu repertório. No Rio, fez um teste na gravadora Odeon e, em 1971, gravou seu primeiro LP. Passou a lançar um disco por ano, vendendo, inicialmente, 500 mil discos. Seis anos mais tarde, já ultrapassava a marca de 1 milhão. Sempre preocupada em gravar os ritmos que chegassem à sua gente, ela lançou compositores como Dona Ivone Lara (Alvorecer), Candeia (O Mar Serenou) e Xangô da Mangueira (Quando Eu Vim de Minas). Ao mesmo tempo, preocupava-se com questões sociais e culturais. Em 1977, no auge do sucesso, abriu um teatro no Rio com seu nome, onde se apresentavam sambistas e cantoras novas, como Marina Lima. Mesmo com a discriminação sofrida pelas religiões africanas, Clara não hesitava em apresentar-se com figurinos trazidos das cerimônias de candomblé e cantar sambas inspirados em pontos de macumba. Foi um sucesso em sua terra e também no Japão, onde era aplaudida e aparecia em capas de revistas.

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