GABRIELA BILO / ESTADAO
GABRIELA BILO / ESTADAO

Programa da ‘Eldorado’ faz sucesso ao resgatar clássicos da canção

Apresentado por André Góis, 'A Hora da Vitrola' transita pela música que se fez entre as décadas de 1940 e 1980

Alberto Bombig, O Estado de S.Paulo

22 Dezembro 2017 | 06h00

São 18h55 de uma quinta-feira na Rádio Eldorado, na zona norte de São Paulo. Pela janela, é possível observar o trânsito furioso da Marginal Tietê. Num dos estúdios, jornalistas do Estadão debatem os principais fatos de mais um dia intenso deste 2017. Em outra sala hermeticamente vedada, André Góis, está alheio, em sua máquina do tempo. Ele só retorna do passado quando interrompe a conversa com o repórter num sobressalto: “Espera, tinha me esquecido! Preciso colocar no ar A Voz do Brasil”.

A conversa prossegue quando o paulistano de 49 anos, vocalista de um banda de heavy metal e profissional de rádio há 23 anos, volta aliviado. “Ufa, deu certo.” O barbudo Góis é o idealizador e apresentador do programa A Hora da Vitrola, um dos sucessos do rádio brasileiro neste ano. O programa resgata standards da música norte-americana e inglesa dos anos 1950, 60 e 70. De vez em quando, a máquina do tempo recua até a década de 40 ou avança até o limiar dos 80. “Nunca vou além disso, jamais”, explica Góis.

Naquele dia, ele gravava o especial de Natal do programa, que vai ao ar neste domingo, 24, às 12h. “Vou tocar uma do velho Blue Eyes agora”, me avisa Góis. “Uma canção do primeiro disco natalino dele, de 1957”, completa. Góis coloca o fone de ouvidos, mexe nos botões da mesa de som e Frank ‘The Voice’ Sinatra (1915-1998) entoa lindamente os versos iniciais de “Have Yourself a Merry Little Christmas”.

Como se lesse o que vai pela minha cabeça, ele afirma: “Estou pisando em terreno sagrado, que é a memória afetiva das pessoas”. Engatamos um papo sobre as grandes vozes masculinas do cancioneiro norte-americano e descobrimos uma divergência. Ele gosta mais de Nat King Cole (1919-1965). “Nos anos 40 começou a se formatar o que Chuck Berry (1926-2017) ia transformar em rock na década seguinte”, diz ele.

O didatismo, a paciência e o entusiasmo de Góis ao falar sobre as canções, junto com o repertório musical, são os pontos altos de A Hora da Vitrola. O programa estreou este ano e logo virou sucesso. “Procurei meu chefe Emanuel Bomfim e apresentei a ele a ideia. Ele topou na hora.” O piloto ficou tão bacana que foi ao ar imediatamente. Desde então, a arqueologia sonora promovida por Góis vem conquistando corações e mentes em diferentes gerações. “Teve uma ouvinte que me escreveu dizendo que ela e o marido dançam de rostinho colado ouvindo o programa”, conta ele.

Pergunto se ele gosta mais do heavy metal que canta com sua banda Vodu ou das canções que toca no programa. “A música é a minha religião, eu vivo música, respiro música. Gosto de praticamente tudo, mas minha praia mesmo é a do programa.”

Nem só das vozes aveludadas das grandes legendas vive o programa. “Toco muito o pop bubblegum, músicas solares”, diz ele. Verdade. A banda californiana The Turtles e o grupo The Four Seasons, sucessos dos anos 60, quase sempre marcam presença na lista de escolhidas de Góis, junto com The Beach Boys e outros sucessos da surf music. É claro que as lendas Elvis Presley, Rolling Stones, America, Pink Floyd e The Beatles não ficam fora.

No último domingo de cada mês, Góis atende a pedidos dos ouvintes. “Nunca tive um retorno tão grande”, diz, orgulhoso. No próximo dia 31, também a partir do meio-dia, o programa terá duas horas de duração e será ao vivo, para celebrar com o público o sucesso deste ano. “Quando foi que o rádio perdeu essa capacidade de conversar com as pessoas?”, questiona ele. A julgar pelo programa de Góis, respondo que nunca.

A interatividade com os ouvintes é feita via e-mails e pela página do programa no Facebook. “Estou laçando os ouvintes pelo coração”, diz ele, sem falsa modéstia.

Nossa viagem ao passado termina quando eu pergunto a André Góis se ele tem uma vitrola em casa. “Não, ouço música no computador.” Voltamos a 2017, rumo a 2018. 

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