Produção descuidada prejudica recital de Nelson Freire

A apresentação do pianista Nelson Freire ontem no Auditório Ibirapuera foi muito mais um show de desacertos do que um recital. Freire, coitado, não teve culpa. Pela primeira vez na carreira, interrompeu a execução de uma peça, no caso, Navarra de Albéniz. Pediu licença à platéia para ?tocar outra coisa? e embarcou num intermezzo do opus 118 de Brahms para acalmar sua fúria, causada pelo ambiente, pelo instrumento, por tudo que aturava. Acústica sofrível Nelson foi a maior vítima de uma produção meio desleixada do Auditório Ibirapuera: a mesinha do café que ainda estava ao lado do piano imediatamente antes da entrada de Nelson foi acidente de percurso, mas a acústica sofrível que simplesmente matou os harmônicos do piano é defeito estrutural. Em seu primeiro aniversário, o auditório provou que não é palco para recitais de piano (ainda mais com um instrumento duro como aquele). Esperava-se muito de um recital sem programa anunciado. Nelson ficaria ao sabor de sua inspiração de momento - sonho que ele já confessou aos mais próximos. Pois quando nem a tampa do piano é aberta como manda o figurino, só resta ao pianista a sensação de desconforto. Na verdade, infelicidade e mal-estar indisfarçáveis. Anunciaram-se dois prelúdios para órgão de Bach. Mas não disseram que era uma transcrição para piano de Busoni, informação indispensável para um público mais interessado em ver e ouvir de perto a Dança dos Espíritos Abençoados de Gluck, arranjo de Sgambatti usado como trilha sonora de um romance adolescente na novela Páginas da Vida. O coral da cantata 147 de Bach foi muito aplaudido, e a versão ao vivo da sonata opus 110 de Beethoven (ele acaba de gravar um CD com sonatas deste compositor) ficou aquém do talento do pianista, visivelmente cansado. Interrupção Na segunda parte aconteceu a cena inédita em sua carreira, com a interrupção no meio de Navarra e o embarque imediato em Brahms, um de seus compositores preferidos. Nem Children?s Corner, de Debussy, nem o Polichinelo de Villa-Lobos o devolveram a seu enorme talento, tão incomodado ele estava. Só faltava mesmo o malabarismo final, quando o fundo móvel do palco abriu-se deixando à mostra as árvores do Parque Ibirapuera e ele, sem alternativa, sapecou burocraticamente a Dança dos Espíritos Abençoados. ?Uma pintura?, exclamou alguém. Suspiros por todo o auditório. Êxtase geral. Muita gente fotografou com seus celulares (que, aliás, emitiram seus toques modernosos várias vezes durante o espetáculo). Enfim, um show, no palco e na platéia. Mas faltou música. E não por culpa de Nelson, que fique bem claro.

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