Tonje Thielsen
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Prodígio indie da internet, (Sandy) Alex G vem ao Brasil pela primeira vez

Fã de Silvina Ocampo e Roberto Bolaño e colaborador de Frank Ocean, cantor e compositor americano fará dois shows no Sesc Pompeia em janeiro de 2020; ele também lançou este ano o novo disco 'House of Sugar'

Guilherme Sobota, O Estado de S. Paulo

19 de dezembro de 2019 | 14h41

Se o leitor abriu a Pitchfork ou o Fader nos últimos 10 anos, é muito provável que já tenha esbarrado com o nome de (Sandy) Alex G em algum momento. Espécie de prodígio do Bandcamp – a plataforma número 1 dos artistas independentes, americanos especialmente, com tendências a trabalhar sozinhos em seus quartos, viajando nas múltiplas possibilidades da música na web –, Alexander Giannascoli conquistou um alcance maior de público com sua estreia por uma gravadora, o disco DSU, de 2014. Agora, com 26 anos, ele vem ao Brasil pela primeira vez para dois shows no Sesc Pompeia, em 16 e 17 de janeiro de 2020.

Os ingressos, ainda sem valores definidos pelo Sesc, poderão ser adquiridos no site oficial da instituição a partir do dia 7 de janeiro. Quem traz o artista é a Balaclava Records.

O disco mais recente de Alex é House of Sugar, o terceiro álbum seu com lançamento pela gravadora indie inglesa Domino Records. Aclamado como o seu melhor projeto até hoje – e são muitos – o disco lançado em setembro expande a textura indie rock do artista, misturando ali o tipo de gravação caseira e lo-fi pela qual ele ficou conhecido com elementos de folk, rock industrial, eletrônica e até pitadas da música country.

Alex explica, por telefone desde a Filadélfia, onde vive e produz, que não tenta passar mensagens com suas músicas, mas que procura fazer algo divertido, “como uma série de TV”. Em House of Sugar, os temas das canções são, no mínimo, variados. 

Em Gretel, ele reconta um dos contos clássicos dos irmãos Grimm, João e Maria (Hansel e Gretel em inglês) – aquele dos pedaços de pão e da bruxa com a casa feita de doces. Em Hope, ele homenageia um amigo que morreu de overdose de fentanil (a mesma substância que matou Prince) com um folk carregado de psicodelia. Near é uma experiência industrial em que a palavra “você” (you) é repetida centenas de vezes depois da frase “tudo que eu quero é estar perto de...”.

Cow pode passar por uma canção de amor. Sugar House é a única canção do álbum gravada ao vivo, num show em St. Louis, e o título da canção é inspirado em um cassino na região onde Alex vive, na costa leste dos Estados Unidos, frequentado pelo próprio músico. “Às vezes eu ganho, e às vezes perco, mas sempre prefiro jogar na roleta”, explica, bem-humorado. O nome do álbum é também inspirado pelo local – bem como pela casa da bruxa do conto alemão.

Há ainda uma espécie de acaso. The House Made of Sugar é também o título, em inglês, de um conto de Silvina Ocampo (1903-1993), escritora argentina que também teve seu trabalho publicado no Brasil pela primeira vez este ano. O conto é carregado de um ar etéreo que poderia igualmente se referir ao som de Alex – ele conta que leu a história antes de lançar o disco, mas o título acabou sendo uma coincidência. 

“Para ser honesto, eu não nomeei o álbum pelo conto, mas eu o tinha lido um ou dois anos antes”, diz. “Não me lembrei dele na hora. Roubei, acidentalmente, mas deve ter ficado no meu subconsciente. Encontrei esse livro numa livraria por acaso e levei por conta da capa.”

Conhecido no mundo indie como amante dos livros (ele chegou a entrar em uma faculdade para estudar inglês, mas desistiu para perseguir a carreira na música), ele é modesto quanto questionado sobre o assunto. “Eu gosto de literatura, mas não sou muito educado nisso. Leio por diversão, não seria capaz de ter uma conversa perspicaz sobre livros.” No momento, seus escritores preferidos são Roberto Bolaño e Donna Tartt.

Na música, talvez sua influência mais óbvia é o cantor e compositor Elliott Smith (1969-2003) – e talvez não seja por acaso que Frank Ocean tenha usado letras de Smith na canção Seigfried, do aclamado Blonde, seu álbum de 2016 que teve guitarras gravadas por Alex.

“O empresário dele me mandou um e-mail quando a gente estava em turnê pelo Reino Unido, perguntando se eu queria trabalhar com o seu cliente, e eu falei que topava na hora, mas na verdade não conhecia muito a música dele, não sabia o suficiente sobre ele para ficar realmente emocionado. Mas ele faz música boa, e eu topei”, conta.

Sem educação formal na música e desacostumado ao nível de atenção que Ocean recebe, Alex fez com ele uma série de poucos shows em vários pontos do mundo, mas até hoje reluta em admitir algum talento próprio muito especial. “Se eu pensar muito sobre como toco guitarra, na verdade eu sou bem ruim”, diz, com uma risada.

Até hoje, são quatro álbuns lançados de maneira independente e mais quatro por gravadoras pequenas ou médias. Seu processo de gravação, porém, não mudou: um microfone (que, confessa, melhorou de qualidade com o tempo) e um laptop em seu próprio quarto.

“Ter uma gravadora é legal porque existe um suporte”, conta. “Quando eu lançava sozinho, era mais para divulgar o trabalho, porque eu não pagava as contas e o aluguel com isso. Gravava sozinho em casa, com uma guitarra e o laptop. E eu ainda basicamente faço isso, mas a gravadora agora banca locais para eu levar minhas canções para um mixer profissional e um cara para masterizar.”

Para ele, a característica lo-fi da sua música é em parte acidental, justamente pelo estilo de gravação. “É um resultado da minha tentativa de construir todo o processo eu mesmo. Usar meu conhecimento limitado de gravação, usar apenas um microfone, e o meu laptop. Acaba sendo lo-fi porque não gravo num estúdio. Eu mantenho esse processo só porque quero ter controle sobre toda a gravação e acessá-la todo tempo, sem ter de depender de tempo de estúdio.”

Nascido e criado no subúrbio da Filadélfia – cidade da qual surgiram vários outros expoentes do indie rock americano dos últimos 15 anos, como The War On Drugs, Kurt Vile, Sheer Mag e Hop Along –, Alex diz não saber o que existe na água do lugar para que surjam tantos artistas com características similares, mas arrisca um motivo imobiliário. “Acho que é mais barato do que em Nova York, então é legal ser uma pessoa criativa aqui, porque não há tanta preocupação e talvez as pessoas possam bancar mais tempo para fazer música”, diz, antes de arrematar com um tipo de ceticismo indie: “Pode ser só coincidência também”. Coincidência ou não, fato é que ele vai trazer um pouco dessa energia para o Brasil.

(SANDY) ALEX G NO BRASIL

SESC POMPEIA. RUA CLÉLIA, 93, 16 E 17/1/2020. VENDAS ONLINE, 7/1, E NAS BILHETERIAS DO SESC, 8/1. VALORES AINDA INDEFINIDOS

Ouça canções do novo disco de (Sandy) Alex G, 'House of Sugar':

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