Stefano Moloni
Stefano Moloni

Primeiro disco solo de Marina Lutfi amplia influência deixada pelo pai

'Outra Dimensão' conta com dueto da cantora com o pai em 'Barravento'

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

28 de agosto de 2021 | 05h00

Depois de ouvir e se emocionar com a gravação que sua filha, a cantora Marina Lutfi, fez para Barravento, o músico e compositor Sérgio Ricardo (1932-2020) perguntou: e o contracanto?

Exigente, Ricardo sabia que a canção, que fez em 1964 inspirada no filme homônimo de Glauber Rocha, com quem começaria a trabalhar naquele ano, pede uma segunda voz. Ela seria para reforçar o drama e o vai e vem das ondas que a letra sobre a vida dos pescadores sugere, tal como acontece na gravação original.

Ou ainda talvez fosse um pedido não verbalizado de um pai orgulhoso que queria participar do primeiro álbum solo da filha. A voz grave de Ricardo foi gravada, em 2017. Agora, um ano após sua morte, pode ser ouvida no disco Outra Dimensão, que Marina acaba de lançar de forma independente nas plataformas musicais.

É preciso explicar que Marina começou a gestar esse álbum em 2013, em meio ao trabalho de designer, produtora e cantora nos shows que o pai fazia. “Sempre achei muita responsabilidade fazer uma carreira de cantora. Esperava a hora de estar mais preparada”, diz, ao justificar a longa gestação do projeto. 

Sempre cercada por músicos, Marina foi, no que ela chama de um processo interno e emocional, tomando coragem para botar a voz para fora sem a companhia do pai, com quem se apresentou, por exemplo, em palcos como o Theatro Municipal do Rio de Janeiro e participou de três projetos ao lado dele, Quando Menos Se Espera, de 2001, Ponto de Partida (2008) e Sérgio Ricardo Cinema e Música, de 2019.

Fora do ninho familiar, quem lhe estendeu a mão foi o músico e produtor Flávio Mendes, que assina a direção musical e os arranjos das oito canções do álbum. O repertório foi experimentado nas noites cariocas, no Bar Semente, na boêmia Lapa, no ano de 2014.

“Não queria que fosse um disco de arranjador. E sim de cantora. O mais importante era dar minha interpretação para essas canções, procurar qual era o meu jeito de cantar. Buscar outras referências musicais que não fosse a do meu pai – já que sou influenciada por ele desde sempre”, diz sobre Sérgio Ricardo, que lhe mostrou Dorival Caymmi, João Gilberto e Tom Jobim.

Essa segurança permitiu que Marina incluísse no repertório outro clássico de Sérgio Ricardo, Esse Mundo É Meu. A gravação se afasta do registro mais conhecido da canção, o da cantora Elis Regina, que mergulhou na dramaticidade dos contestadores versos que Ricardo escreveu ao lado do cineasta Ruy Guerra para seu primeiro longa. De mesmo nome, o filme foi lançado em 1º de abril de 1964, dia do golpe no Brasil.

Para os batuques que evocam o Ogum presente na letra, Marina chamou Lucas Ciavatta, criador do método de educação musical O Passo que, ao lado de Isabela e Rosa Ciavatta, fizeram coro e palmas, em leve gravação.

A terceira composição de Ricardo é Cacumbu, que há tempos acompanha Marina. É nome da empresa de designer que ela tem, além de batizar seu próprio selo, pelo qual ela lança o álbum e que futuramente pode abrigar outros lançamentos, sobretudo a obra do pai. “Cantar Sérgio Ricardo é uma aula. Há mil armadilhas nas músicas dele. Ele tinha um ouvido absoluto e nos chamava atenção para as notas, sobre como emiti-las de maneira precisa.”

A canção que dá nome ao álbum, Outra Dimensão, é do compositor e cantor carioca Julio Dain, bem como outra faixa escolhida por Marina, No Meio da Escuridão. Ambas estão no álbum que Dain lançou em 2010. “Sempre adorei as músicas dele. Me soavam diferente do usual. Fui colocando na minha caixinha de ideias”, conta Marina.

Entre as mais conhecidas do repertório estão Ahie, de João Donato e Paulo César Pinheiro, do lendário disco Quem É Quem, lançado por Donato em 1973 – e que ganhou marcante gravação de Nana Caymmi no mesmo ano. 

De Arnaldo Antunes e Péricles Cavalcanti, Marina escolheu Quase Tudo, do disco Um Som, lançado no final dos anos 1990. A faixa traz a percussão e o toque do berimbau feitos pelo craque Marcos Suzano.

Milonga, de Rodrigo Maranhão, era uma das canções que sempre estiveram no repertório dos shows experimentais que Marina fez até chegar a esse registro fonográfico. “Era tão gostosa no palco que tinha de estar no disco também, que é um álbum leve, delicado. Ele começa no ar, no etéreo, e termina na terra”, diz.

Paralelamente à agora oficial profissão de cantora – ela diz que já pensa em um próximo trabalho –, Marina dirige o projeto Sérgio Ricardo – Memória Viva, um site que reúne mais de 5 mil itens, entre fotografias, discografia, partituras, reportagens e gravuras relativas ao compositor.

A iniciativa começou com a mãe de Marina, a museóloga e professora da UniRio, Ana Lúcia de Castro, que, mesmo não mais casada com Ricardo, resolveu, em 2009, organizar toda sua obra. “O papai também tinha essa preocupação, ou desejo, de deixar tudo organizado”, conta Marina. Entre 2019 e 2020, o Memória Viva conseguiu patrocínio do Itaú Cultural. Atualmente, não conta com nenhum.

No site, é possível comprar as reproduções de algumas das telas que Ricardo pintou ao longa da vida, comprar os DVDs dos filmes que ele dirigiu, seu livro de poemas, Canção Calada, e uma camiseta alusiva ao primeiro curta-metragem que o artista dirigiu, Menino de Calça Branca, de 1962, que teve montagem de Nelson Pereira dos Santos.

Marina espera que o projeto seja uma oportunidade para que as novas gerações conheçam o legado deixado por Sérgio Ricardo, compositor importante da bossa nova e das trilhas do Cinema Novo – em filmes como Deus e o Diabo na Terra do Sol e Terra em Transe, ambos de Glauber Rocha.

“A obra dele, na verdade, é pouco conhecida. Ele é do rol do Tom, do Chico Buarque, mas suas músicas são pouco executadas”, diz Marina, ao relatar que o pai sempre lutou pelo recebimento justo dos direitos autorais e enfrentou dificuldades financeiras. “Também há a questão de ele ter sido calado pela ditadura, afastado pela mídia. E, à medida que ele era afastado, se isolava ainda mais. Uma coisa levou a outra”, diz.

Uma das cenas que marcaram a carreira do compositor – e a história da música brasileira – foi sua apresentação no 3º Festival de Música Popular Brasileira da TV Record, em 1967, com o samba Beto Bom de Bola. Irritado com as insistentes vaias da plateia, ele quebrou seu violão no palco.

Em 2019, os cineastas Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles incluíram a canção Bichos da Noite, de Ricardo e Joaquim Cardozo, na trilha do longa Bacurau – o que abriu um caminho para que a obra do compositor seja redescoberta. 

Sérgio Ricardo contraiu o coronavírus e morreu em julho de 2020, aos 88 anos, no Rio.

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