Primeira discografia de Noel Rosa está pronta

Não é à toa que a frase "o Brasil não tem memória" é recorrente. Muitas músicas de Noel Rosa - das 259 que compôs, segundo o livro Noel Rosa, uma Biografia de João Máximo e Carlos Didier - perderam-se nestas seis décadas posteriores à morte do compositor. Os motivos alegados para tanto descaso são inúmeros: as gravadoras da época, nos anos 30 e 40, não tinham o "costume" de arquivar as matrizes; o número de cópias lançadas no mercado era pequeno em relação ao padrão atual; os lançamentos não acompanharam o desenvolvimento tecnológico do mercado fonográfico. Todavia, nem mesmo esse empecilhos desanimaram o pesquisador paulista Omar Jubran, de 46 anos.Após 13 anos de trabalho artesanal e dois anos de embate com gravadoras, chegará às lojas no início de setembro a Discografia Original de Noel Rosa, um lançamento fruto de uma parceria entre a Funarte e a gravadora Velas. O trabalho é composto por 14 discos com 230 músicas, algumas inéditas, recuperadas e remasterizadas por Jubran. Não há projeto similar no Brasil. "Nem de um artista bem popular contemporâneo é possível reunir hoje todas as músicas. Muitos trabalhos estão fora de catálogo e não há nenhum interesse das gravadoras em lançá-los", explica o pesquisador.Complementa a obra um livreto, contendo letras das músicas, nome dos compositores, data das composições e das gravações, curiosidades sobre Noel e até um glossário com os termos hoje obsoletos, mas comuns na época. O trabalho gráfico, que inclui as capas, a caixa e o design do livro, foi desenvolvido por Elifas Andreato. "O único trabalho que se assemelha a este foi lançado pela RCA e pela Odeon, com músicas de Carmem Miranda, mas não está completo, não", diz.Nos 14 álbuns da Discografia Original de Noel Rosa estão os maiores e mais famosos cantores da época de ouro do rádio. Ismael Silva, Mário Reis, Francisco Alves, Araci de Almeida e Marília Batista, grandes intérpretes da obra de Noel que eram, aparecem em inúmeras faixas. Mas também não faltam Almirante, João Petra de Barros e Castro Barbosa, companheiros de Noel no início de carreira, Carmem Miranda, preterida inúmeras vezes pelo compositor, e Orlando Silva, que Noel pouco pôde ver cantar já que morreu quando ele iniciava a carreira. Os últimos CDs são reservados às "inéditas contemporâneas", músicas que foram recuperadas por Carlos Didier, Henrique Cazes e Vânia Bastos.Há, ainda, o próprio Noel Rosa cantando com sua voz "fraca´, sem longo alcance vocal - completamente diferente dos operísticos cantores da época. Aliás, o timbre da voz de Noel era muito similar ao que, com a bossa nova, se tornou comum entre os intérpretes nacionais. Destaque para Com Que Roupa? e Eu Vou pra Vila.Sem demagogia - Para compilar todas as músicas, Omar Jubran estudou recuperação sonora, investiu em equipamentos - montou um estúdio em sua casa. Professor de biologia em cursinhos da capital, inúmeras vezes precisou abandonar os afazeres diários para levar adiante o projeto. Foram 13 anos de muitas alegrias e vários recomeços. "Eu fiz tudo que podia para ver esse material publicado", conta. "Fico feliz em poder colocá-lo na rua. Sem demagogia, tudo isso pertence ao Brasil."Em 1997, suas finanças minguaram. A alternativa encontrada para dar continuidade ao projeto foi vender a coleção antecipadamente para alguns amigos. "Hoje eles são apenas oito, além de mim, que têm todas as canções originais do Noel em CD", conta. Para Jubran, porém, a fase mais difícil foi ver seu trabalho rejeitado pelas gravadoras. "Eu ouvia sempre a mesma resposta: ótimo material, mas inviável para ser publicado. Já havia praticamente desisitido quando a Funarte me procurou", conta.O pacote está quase pronto. Segundo Luís Pedreira, gerente de Produto da gravadora Velas e coordenador do projeto, ao lado do jornalista Claudiney Ferreira, falta apenas a conclusão de alguns detalhes jurídicos. "Estamos finalizando a liberação dos direitos autorais", diz. "Esperamos colocá-la no mercado no início de setembro." Esta primeira edição das "Obras Originais" de Noel Rosa deve contar com tiragem de 3 mil exemplares. "Lançar essa obra é preservar a memória da música brasileira. Dá gosto perceber a evolução da música e das letras de Noel, o que, de certa forma, é a própria evolução do samba", comenta Pedreira.História do carnaval - A caixa de Noel Rosa não é o único projeto de Jubran. Para o próximo ano, ele pretende lançar a história do carnaval no século 20. "Eu estou com 3 mil músicas de carnaval, de 1905 até hoje, que ilustram perfeitamente o desenvolvimento da festa popular ao longo dos anos." Ele ainda não sabe como fará para reunir tão amplo material. "Pode ser em CD´s, livro ou até mesmo CD-ROM, em que eu casaria som e texto."Há também a possibilidade de um trabalho similar ao realizado com as obras de Noel. Desta vez, os contemplados podem ser Ari Barroso e Adoniran Barbosa. "O maior problema do Adoniran é que não sobrou ninguém para contar a história. Acho, por isso, mais fácil lançar a do Ari primeiro", revela. Jobran credita a uma boa recepção do público a possibilidade de ver trabalhos similares ao seu no mercado. "Temos de incentivar uns 10 ou 15 como este todo ano. Só assim começaremos a recuperar a memória musical do País."

Agencia Estado,

15 de julho de 2000 | 00h25

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