Primeira dama do samba prepara novo CD

O entusiasmo de Dona Ivone Lara é um bem que não tem preço. Feliz da música brasileira que conta com esse benefício. Dona Ivone não pára de compor. Já perdeu devista quantas melodias criou. Só com o fiel parceiro Délcio Carvalho são mais de 200 músicas. Em setembro, deve entrar em estúdio para gravar um CD com obras inéditas e reinterpretar alguns clássicos de sua carreira. Aos 79 anos, em entrevista exclusiva , ela que é uma das maiores compositoras da atualidade recorda histórias com detalhes e antecipa algumas novidades sobre o novo trabalho, como uma letra inédita feita com o parceiro cavaquinista do grupo Bruno de Castro."Eu estive na França (Festival de la Villette), Portugal (na Torre de Belém) Suíça (Festival de Montreux) e na Alemanha (Festival Viva Afro-Brasil), cantando samba e fiquei deslumbrada quando ouvi aquele coro maciço", informa. "Isso dá um entusiasmo na gente, faz crescer." Dona Ivone viajou a convite de Martinho da Vila (Suíça e Alemanha) e Paulinho da Viola (França e Portugal) e, pelo que conta, roubou a cena. Terminava uma canção e mal tinha tempo para iniciar outra. Era obrigada a se antecipar por causa do público. "Se demorasse, gritavam o meu nome", diz. Segundo a compositora, o mais formidável dessa experiência foi ser abraçada pelos estrangeiros como se a conhecessem havia muito tempo.À França, já tinha ido 11 vezes. A Portugal, foi a primeira vez. Inesquecível. Não esperava tanta receptividade. "Tinha acabado a minha parte e deixado o público com Paulinho da Viola, mas eles me pediram para voltar", recorda. "Paulinho ficou com medo de o público invadir o palco, eu voltei e quase fiz um show inteiro novamente."Dona Ivone entusiasma-se também com a "meninada nova" do samba, como o Quinteto em Branco e Preto. "Eles são estudiosos e fazem música de grande qualidade", acredita. Essa percepção feliz se deve ao fato de "estar realizada". Está fazendo o que mais gosta na vida: shows. "Sinto-me bem que só vendo." Tanto que, para a gravação do CD, tem um esquema todo certinho. Em geral, grava de segunda a quinta para ficar livre nos fins de semana. "Não dá pra abrir mão", ressalta.A gravação do novo disco deve ser feita em setembro. "Essa é uma hora que o artista se entrega por inteiro", acredita. "Principalmente quando se está colocando a voz, a gente capricha." Ano que vem, vai gravar com Cesaria Evora e Célia Cruz. "Eu ainda não conheço as duas, será a maior surpresa", afirma. Seus projetos também incluem uma home page assinada pela Refazenda, a mesma que fez o site de Gilberto Gil.Nesse disco - quase fechado com uma gravadora de São Paulo -, vai incluir inéditas, como a música Um Grande Sonho feita com o novo parceiro e músico de sua banda, Bruno de Castro, e Agora, feita com Délcio, há cerca de duas semanas."Bruninho faz letra e coloca música, mas ele se amarra no meu estilo de melodia." E o ciúme? "Délcio está enciumado, todo dia telefona e pergunta se pode ir à minha casa", conta. "Pergunta se agora só tem Bruno, digo que não, mas tem Bruno também." Agora e Um Grande Sonho ficam dentro de sua bolsa. Em qualquer pausa, cantarola os sambas.Ela está selecionando as músicas, que ficam guardadas num caderno. É para não ter confusão, como informa. "Não dá para gravar só música minha e de Délcio, temos mais de 200, nós estamos distribuindo para pessoas que nos pedem canções." Vai registrar ainda alguma parceria com Nelson Sargento. Para 2002, Dona Ivone tem planos de lançar um CD só com inéditas pela gravadora Lua Discos.Délcio é parceiro desde 1971. Quando Silas de Oliveira (com ele compôs o samba-enredo Os Cinco Bailes da Corte, em 1965, o primeiro feito por uma mulher) morreu, Délcio quis homenageá-lo e a procurou. "Desde o início, houve uma afinidade extraordinária, já fizemos até música por telefone."Intuição - A facilidade para criar melodias existe desde os 12 anos, quando fez a primeira música, Tiê-Tiê. Não podia cantar. A tia - que a criava - não queria ver a sobrinha no mundo marginalizado do samba. Ela devia estudar. "Então, eu dava a música para o meu primo, Fuleiro, e falava para ele dizer que era dele", conta. "Desde pequena, tenho essa intuição."O seu grande clássico, Acreditar, por exemplo, era introdução de Nasci para Amar e Sonhar. "Estava me apresentando com Nelson Cavaquinho e fiz introdução enquanto esperava, Délcio Carvalho estava na platéia", conta. "Quando cantei a introdução, ele ficou prestando atenção e quando terminou me pediu uma fita, disse-me que não podia deixar aquela melodia apenas como introdução."Em Bodas de Ouro, último disco gravado em 1997 - uma coletânea em homenagem aos 50 anos de carreira -, ela dividiu a interpretação de Sonho Meu com Djavan. E fez uma introdução. Luiz Carlos da Vila gostou e também vai colocar letra na introdução.Já com outro parceiro, Hermínio Bello de Carvalho, o processo de criação foi uma exceção. "Eu acho que o Hermínio estava querendo fazer uma experiência comigo", diz. "Ele chegou um dia, dizendo que eu tinha de ser parceira dele de qualquer jeito e me deu um monte de versinhos naquele papel usado para exames cardíacos." Dona Ivone revela que deu mais trabalho. Assim nasceu outro clássico: Mas Quem Disse Que Eu te Esqueço. "Aliás, fiz uma introdução, mas ninguém vai mais botar letra nela", afirma.Dona Ivone diz estar preparada para tudo. "Feliz daquele que passou dos 50 anos como eu, por isso quero é viver o momento." Ela não se aborrece com nada, não dá ouvidos a fofoca mas se alguém quiser fazer uma música, é a primeira da fila. "Eu quero é cantar", acrescenta.

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