Primal Scream funde punk e disco em novo CD

Um dos melhores discos deste ano que termina é sem dúvida Evil Heat, do grupo escocês Primal Scream. É disco-punk total. A canção Miss Lucifer é um achado e faz a cópula definitiva do Kraftwerk com a acid house britânica. É um pouco Prodigy, um pouco Sex Pistols, um tanto de Nirvana (pelo menos nos riffs de guitarra), um pouco também New Order, e não se detém em nada muito específico."É um tanto heavy, mas também psicodélico às vezes; mas não é uma coisa só, são muitas", disse, em entrevista ao Estado, Andrew Innes, que forma o Primal Scream com Bobby Gillespie, Robert Young, Gary Mounfield, Martin Duffy, Darrin Mooney, entre outros agregados (até Jim Reid, do Jesus and the Mary Chain, toca aqui). Innes acha que há mais rock e garage punk do que psicodelia nesse seu trabalho, mas a mistura é equilibrada.Bobby Gillespie se esgoela na metálica e fascinante Lord Is My Shotgun, fundindo um vocal à John Lennon (nos tempos da Plastic Band) com guitarras punk, desconstrutivistas. Já em City, eles revisitam o Public Image Limited, de Johnny Rotten (ou John Lydon, como prefiram), com riffs matadores de Kevin Shields - também produtor do álbum. Há uma participação da Robert Plant tocando gaita em Lord Is My Shotgun. "Ele é um gentleman, estava no estúdio e convidamos e ele topou na hora." E da gazela fashion Kate Moss cantando na faixa Some Velvet Morning, de Lee Hazlewood. "Olhe para nós mas não toque", repete Kate, quase num mantra sexy, na letra da canção. "Ela deu dor de cabeça na gente nos estúdios", diverte-se Andrew Innes, ao falar da sessão de gravação com a musa das passarelas. "É divertida, inteligente e não ficou nem um pouco intimidada com a gente, mas nós ficamos um bocado amedrontados."Depois vem Skull, furioso assalto de guitarras debulhadas por Paul Harte. Profusão de sintetizadores em faixas como Autobahn (referência direta ao Kraftwerk) e vozes digitalizadas apontam para um som programado, mas o resultado é orgânico - e é rock.Quem foi antecipador na sua leitura do som do Primal Scream foi Irvine Welsh, autor de Trainspotting - embora sua definição não se refira exatamente ao som em questão. "Eles vieram direto do coração daquela turva, furiosa zona entre amor e guerra, dança e rock´n´roll." O som do grupo estava na trilha do filme.Para um grupo que tinha retratos de Fidel Castro nos crachás de bastidores, o Primal Scream mostra que tem diversas abordagens tanto da música quanto da política. Andrew Innes não se conforma com a atitude belicista do premiê britânico Tony Blair. "Está indo para a guerra sustentado por uma propaganda racista contra o Iraque, dando apoio a uma estúpida demonstração de força do governo americano", bradou Andrew.Innes, que já esteve em Belo Horizonte e foi com alguns amigos conhecer uma favela brasileira, é grande fã do futebol nacional, e não deixou passar a chance de cumprimentar um nativo pela conquista na Copa do Mundo. "Foi um time inspirado e a final com a Alemanha foi um grande jogo", disse. "Acho que o futebol perdeu um pouco a magia, é apenas uma questão de muito dinheiro hoje, especialmente na Inglaterra, e eu sinto que não tenha surgido um novo Maradona nessas novas gerações", afirmou, com certo conhecimento de causa.

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