Preta Gil investe na carreira de artista

Na velha casa de Salvador era um entra e sai sem fim. Num dia Gal Costa chegava cantarolando, no outro Caetano trazia o violão. Noite sim, noite não, dava o ar da graça João Gilberto, contava piadas Moraes Moreira, aparecia para o jantar Maria Bethânia ou algum Caymmi. Preta Maria cresceu assim. Filha de Gilberto Gil, viu ainda criança o pai se juntar aos Novos Baianos, cantar com os Doces Bárbaros, se tornar um tropicalista. Na hora de fazer a escolha da profissão, foi um tormento. Traiu todos os palpites da família e foi trabalhar com publicidade.Ao fazer 27 anos, quando nem o pai pensava mais ser possível, Preta decidiu ser cantora. Vai deixar o controle da produtora Dueto Filmes, que ajudou a criar há seis anos, nas mãos de seus sócios. Quer investir pesado em uma carreira artística. Em maio, fará um show em São Paulo e outro no Rio de Janeiro. Logo depois, com o repertório já testado no palco, entrará em estúdio para gravar seu primeiro disco.Ir para a tevê é outro projeto que deve se concretizar em agosto. Preta Gil ganhou de Marlene Mattos, mulher forte da Rede Globo, um quadro no programa Planeta Xuxa. Algumas entrevistas feitas por ela durante as trasmissões de carnaval da Globo serviram como teste. Segundo Preta, foram convincentes. "O pessoal curtiu muito."Mas é na música que Preta tem depositado suas maiores forças. "Quando digo que vou cantar as pessoas se assustam e falam ´nossa, ela vai fazer isso!´. O que decidi é algo real e sincero. Se não der certo, tenho minha produtora para trabalhar. Tenho parentes bacanas mas ainda não sei se isso vai ajudar. Quero arriscar."Risco não é exatamente a palavra quando o assunto é repertório. Ainda que tenha pesquisado canções para gravar por mais de um ano, Preta Gil tem uma cartela de colaboradores que sabem bem o caminho das pedras. Ana Carolina já mandou uma música. Davi Moraes, filho de Moraes Moreira, será parceiro em outra. Haverá ainda a mão de Leonardo Reis, percussionista que toca na banda de Gil.Versões serão feitas para canções do funkeiro setentista Carlos Dafé e para a velha rainha das discotecas Lady Zu. Salve esta Flor, gravada por Cassiano, está na lista. Naturalmente haverá ainda algo do pai e do "tio" Caetano Veloso. Mesmo com tanta gente do soul e do funk de 70 na manga, Preta não quer associar seu nome à black music. Prefere outra denominação. "Vou fazer música afro-baiana. Haverá influências também do Olodum, do Ilê Ayê e de Carlinhos Brown."Fazer um bom disco com uma lista de músicas bem sacadas, sonho de qualquer estreante, teria um peso duplo no caso de Preta Gil. Além de satisfazer a si própria, se livraria de pelo menos parte de seus difamadores. Eles são muitos e encaram Preta como oportunista. Nada mais do que o preço que paga não só por ser filha de quem é mas também por ser afilhada de Gal. "Não sei se isso vai me ajudar".

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