Prêmio Visa tem sua melhor semifinal

O Prêmio Visa de MPB - Edição Instrumental realizou anteontem à noite, em Salvador, sua segunda semifinal. Foi a primeira vez, em seus quatro anos de existência, que o concurso teve uma etapa sediada fora de São Paulo. A intenção dos organizadores - Rádio Eldorado e Visa do Brasil - é divulgar a iniciativa em um Estado que teve poucos instrumentistas inscritos e nenhum selecionado este ano. Grupo Bonsai, Duofel, o pianista Itamar Assiére e o violonista Yamandu Costa chegaram ao Teatro Acbeu como incógnitas e saíram como surpresas. Deslizes e indefinições em alguns momentos não ofuscaram o brilho de uma das noites mais atraentes do concurso. O grupo Bonsai, de Mané Silveira (sax e flauta), Paulo Braga (piano) e Guello (percussão), tem bagagem individual, mas ainda busca um discurso. Seus temas conduzidos por harmonia delicada propõem caminhos curiosos e desprendidos do mero desfile técnico. Falta-lhes, no entanto, uma face. Um de seus pecados mais perceptíveis foram os exagerados ataques de Guello ao pandeiro e aos pratos, como os feitos em Chorinho pra Lôi, de Silveira. A postura, a não ser que a intenção seja mesmo chocar, soa despropositada. Os violonistas Luiz Bueno e Fernando Melo, do Duofel, mantiveram a estatura da apresentação que fizeram na primeira fase. Nos palcos há 25 anos, a dupla é a que chega ao Prêmio mais pronta. No entanto, seus poucos desencontros, pesam mais que os dos novatos. A estrutura de suas interpretações seguiu intuitivamente um esquema: introdução, apresentação de tema, improviso, tema e caos. Assim fizeram com Procissão (Gilberto Gil), Azul da Cor da Manteiga (Melo e Bueno) e Pedi Moleque! (Melo e Bueno). No caos vale tudo que possa criar tensão. Massa e volume são conseguidos com fortes ataques às cordas, uso de pedais de efeito, recursos inusitados como o esfregar de arcos nos graves. São momentos de clímax que emocionam o público. E é também onde mora o perigo. O Duofel se prende a fórmulas que permitem perturbar em detrimento da sutileza que lhe é particular. O encerramento com Bom Dia Tristeza (Adoniran Barbosa e Vinícius de Moraes), sem apelação, foi seu melhor número. Itamar Assiére comprovou ser um dos mais eficientes escritores e intérpretes de versões do festival. Em Cais, de Milton Nascimento, colocou a melodia em acordes "tortos" com maestria e foi sucinto. Em Desafinado, de Jobim e Newton Mendonça, subdividiu o tempo e o acelerou para conseguir uma simpática levada jazzística. Seus problemas começaram com o acompanhamento dos percussionistas Marcelinho Moreira e Ovídio Brito. O problema é estético. O piano de Assiére não se aproxima do ritmo marcado por pandeiro e surdo. Com baixos pouco preocupados em estabelecer o casamento rítmico, não há liga e tudo perde o suingue. Foi o que fez Tempo de Futebol, de Marco Pereira, e Rapaz de Bem, de Johnny Alf, ficarem frias. O violão de Yamandu Costa, como em sua primeira aparição, vibrou como a mais grata aparição da noite. Ao chegar, o gaúcho, de 23 anos, teve problemas com o som e ficou por mais de três minutos sentado e encarando o público. Depois de perder a paciência com a demora dos técnicos em ligar o microfone do instrumento, empurrou o pedestal para trás e começou a tocar sem nenhuma amplificação. Yamandu Costa tem provocado os melhores comentários até o momento. Sua técnica apurada é bem usada para expressar uma musicalidade vigorosa e sensível. Em seu repertório há sempre peças de grande dificuldade e sua entrega a cada nota é intensa. Só cabe aqui uma ranhetice. Nos instantes de "viagens", Costa maltrata o instrumento e tem idéias que, no calor de sua ebulição criativa, não ficam claras. Ainda assim, já se pode considerá-lo um fenônemo. A última semifinal do Prêmio Visa será realizada amanhã, a partir das 20h, no Teatro Cultura Artística. Logo depois das apresentações de Sérgio Reze, Trato a Três, Heloísa Fernandes e a dupla Rogério Caetano e Rodrigo Santiago, o júri escolherá os cinco concorrentes que disputarão a finalísssima, marcada para dia 7 de junho, no mesmo teatro.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.