Wilton Junior/ Estadão
Wilton Junior/ Estadão

Por salários, servidores do Teatro Municipal do Rio fazem espetáculo-protesto

O Estado ainda não depositou os salários de março nem deu previsão de quando vai pagar o de abril

Roberta Pennafort, O Estado de S.Paulo

09 Maio 2017 | 14h16

RIO - Com dois meses de salários atrasados e até hoje sem perspectiva de receber o 13º salário de 2016, em decorrência da crise financeira do governo Luiz Fernando Pezão (PMDB), artistas do Teatro Municipal do Rio fizeram ontem à tarde um espetáculo-protesto na escadaria da casa, na Cinelândia. Há uma semana, eles recolhem doações em dinheiro e de alimentos, porque alegam a existência de funcionários passando fome.

O ato reuniu e emocionou cerca de 300 pessoas, e fechou a Rua Evaristo da Veiga, em frente à casa. Cantores, músicos e bailarinos apresentaram trechos de balés e de óperas populares, como O Lago dos Cisnes e Carmen, uma forma de chamar a atenção da sociedade e desnaturalizar o fato de que estão trabalhando de graça – assim como todas as categorias do funcionalismo (só as áreas da Segurança e da Educação vêm recebendo prioritariamente). 

A manifestação, que levou artistas e público às lágrimas, foi dedicada à memória do barítono Leonardo Páscoa, do coro do teatro. Ele foi vítima de enfarte no fim de semana, aos 42 anos, e sua mulher, Rose Provenzano, que é soprano do grupo, teve de recorrer a uma vaquinha entre os colegas para conseguir enterrar o corpo. “Eles têm um filho de 12 anos e estão sem salário. Leonardo vivia desgostoso e estressado, com o aluguel atrasado havia meses”, contou Pedro Olivero, representante do coro. Rose não teve condições emocionais de participar. 

O teatro tem cerca de 550 funcionários, somando corpos artísticos e administrativo. Eles estão recolhendo doações diariamente. Quem vai assistir aos espetáculos chega com latas de óleo e embalagens de arroz e feijão. Ontem, durante o protesto, populares deram dinheiro para contribuir para a compra de cestas básicas. “Os parcelamentos dos salários começaram em outubro. É muita humilhação. Não temos perspectiva”, lamentou Celeste Lima, ensaiadora do balé. 

Foram muitos os gritos e cartazes de “Fora, Pezão” e “Fora, Temer”. Um dos símbolos do teatro, a primeira bailarina Ana Botafogo, hoje uma das diretoras do balé, clamou ao microfone por apoio popular. “Agradecemos as doações. Temos tristeza, angústia e muitas incertezas. Estamos gritando que olhem por nós, porque temos muito a dar a vocês.” Também primeira bailarina e diretora, Cecilia Kerche ressaltou o descaso com a cultura. 

Músico mais antigo da orquestra do teatro, o flautista Marcelo Bomfim tocou entre lágrimas. “Estou aqui há 40 anos e nunca vivemos uma situação assim. É revoltante. Somos profissionais da mais alta qualificação, já acompanhamos os maiores artistas do mundo.”

Creditada pelo funcionalismo, em parte, à corrupção no governo Sérgio Cabral (PMDB), preso por desviar mais de R$ 200 milhões, a situação do Estado vem difícil desde o fim de 2015. Tem se agravado com o arresto e os bloqueios feitos em suas contas pelo governo federal. 

A Secretaria de Cultura, à qual o Municipal é vinculado, divulgou nota informando que o momento difícil do Estado vai ser contornado com o auxílio da União que está sendo negociado por Pezão.

(Atualizada às 20h15)

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