Filipa Aurelio
Filipa Aurelio

Popload Festival 2019: Prejudicada pelo som, Patti Smith faz sua estreia em São Paulo

Cantora é atração principal do festival que acontece na noite desta sexta-feira, 15; Popload responde questionamentos da reportagem

Guilherme Sobota, O Estado de S.Paulo

15 de novembro de 2019 | 23h18
Atualizado 28 de novembro de 2019 | 16h42

Prejudicada por uma equalização de som que não atendeu às 15 mil pessoas que a esperavam avidamente, Patti Smith fez sua primeira apresentação em São Paulo na noite desta sexta-feira, 15, como atração principal do Popload Festival 2019.

O Popload Festival já tem idade suficiente para não ter que ter passado por dois erros muito básicos nessa que é sua sétima edição em São Paulo. Um deles é não acertar o som da sua atração principal (a ponto de acontecer um coral em uníssono, da plateia, pedindo para aumentar). O outro é assistir a filas enormes em qualquer uma das poucas possibilidades de banheiro (nesse ponto, o Coala, há dois meses no mesmo local, talvez tenha algo a ensinar).

Mesmo remando contra a maré, Patti Smith é a definição de uma estrela no palco. Começando com People Have The Power, canção de 1988 que se transformou em hino de auto afirmação para jovens revolucionários de todo o mundo, ela segue para o mantra de Ghost Dance (do álbum Easter, de 1978) e emenda com um dos seus poucos sucessos radiofônicos, Dancing Barefoot (de 1979), em seguida um dos primeiros covers da noite, Beds Are Burning, do Midnight Oil.

Suas viagens musicais são particulares e convidam o espectador de um festival pop como esse a olhar para dentro, em transes diversos ao longo do show mas sempre com uma qualidade punk que não foge à sua banda. Ver Lenny Kaye, seu parceiro desde o começo e com a mesma cabeleira dos anos 1970, é igualmente emocionante.

Sempre com um microfone que não faz justiça à sua voz claríssima, Patti relembrou aos presentes que os governos são escolhidos pelas pessoas. “Não vamos deixar nenhum líder nos oprimir, nenhum deles que não se importa conosco, nem com o meio ambiente”, gritou.

Depois de versões animadas de I’m Free (Rolling Stones) e Walk on the Wild Side (Lou Reed), ela faz um chamado pelo planeta Terra com a sua After the Gold Rush, discutivelmente a melhor música de Neil Young.

Patti termina o show com Land – o épico de 9 minutos do Horses (o seu mais clássico disco, de 1975) – e com a versão mais curta de Gloria, a melhor versão de uma música de outra pessoa (no caso, Van Morrison) que alguém já fez.

E chega por aqui, porque tentar conjurar um show de Patti Smith em palavras é apenas vão.

The Raconteurs: Rock à moda antiga

Ver Jack White no palco é sempre um prazer, e ele esteve na noite desta sexta-feira em São Paulo com o Raconteurs, um de seus muitos projetos paralelos, no Popload Festival. 

É interessante comparar como White varia entre as suas próprias empreitadas: se a carreira solo carrega mais da trajetória garageira do White Stripes, a banda que o consagrou, com o Raconteurs ele explora mais campos clássicos do rock and roll, sem perder sua identidade própria: uma guitarra virtuosa e efeitos diversos nos microfones que captam sua voz.

Com uma inspiração clara na época setentista do rock inglês, a banda entrega um show barulhento, e é meio que isso.

Hot Chip: Eletroindie renovado

O grupo britânico Hot Chip fez história ao sediar festas dubiamente ilegais na região de Londres com seu indie dançante, carregado de sintetizadores

O Devo do seu tempo, o Hot Chip faz passeios eletrônicos que somados à incansável presença de palco do vocalista  - e 20 anos depois é o mesmo som que eles trazem para São Paulo no fim da tarde de sexta-feira. A exemplo do Cansei de Ser Sexy,  que fez o seu retorno às plateias paulistanas logo antes, o Hot Chip aparece carregado de anos 2000.

Com seus sete membros já à beira dos quarenta, o grupo traz no DNA o indie pop que tomou conta do mundo há 15 anos, e que agora se questiona sobre a própria sobrevivência. O gênero parece ter envelhecido pior do que outros, mas é difícil não dizer que o show tem seus momentos de glória. 

Cansei de Ser Sexy: Retorno a São Paulo com pompa

Pela primeira vez num palco paulista em oito anos, o Cansei de Ser Sexy – sensação do eletrorock brasileiro, reviveu no Popload Festival 2019. A apresentação dá esperança para os fãs – hoje roqueiros e roqueiras chegando aos 40 – de que a banda trabalhe em material inédito. Porque uma sensação, e aparentemente reconhecida pelos músicos no palco, é que a mistura indie e eletrônica das canções dos anos 2000 ficou marcada com o carimbo daqueles anos.

“2005 era um ano bom porque dava para fazer música para a Paris Hilton”, disse a vocalista, Luisa Lovefoxx. “Se a gente voltar, vai ter que ser música política”, comenta antes de revelar um look com os dizeres “MST, Revolução Agroflorestal”.

O CSS fez um tipo de sucesso internacional pouco comum para bandas brasileiras dessa estirpe, e boa parte dele era proveniente da energia e da carisma da vocalista – e que anos de cultivo semi-agrícola em Santa Catarina não fizeram ela perdê-los. Ela ainda se estica, dança, se joga no palco e na galera – e claro, canta. “A gente é o Cansei de Ser Sexy, da Santa Cecília, onde o Minhocão passa mas não entra.”

Canções como Bezzi (“eu já peguei o Bezzi”) são atualizadas visualmente – agora, o Instagram do Bezzi, DJ da noite paulistana, aparece no telão. Let’s Make Love and Listen to Death From Above vem de um lugar muito americano, mas durante a canção um “tira o pé do chão” traz a canção para um festival em uma São Paulo super nublada.

“Eu fiz essa música quando tinha 16 anos e achei que para ser respeitada tinha que viver na cidade grande”, diz antes de City Grrrl, e Superafim termina um show animado para indies na faixa dos 30.

***

Em nota, o Popload Festival respondeu aos questionamentos da reportagem:

1) A equipe de produção do Popload Festival 2019 se integrou com operações da T4F e essa nova formação agrega muitos pontos positivos para o evento como um todo. Dentre todos os aspectos que conseguimos aprimorar em qualidade e eficiência para entrega final ao nosso público, sabemos que os banheiros infelizmente não atenderam à necessidade. Durante o evento assim que constatado foram tomadas todas as medidas viáveis para amenizar esta questão mas entendemos que não foi o suficiente. Será certamente ponto de melhoria para próximas edições. 

2) Quem opera o som dos shows é o técnico da banda. O volume do som no show da Patti Smith não foi definido pelo Popload Festival. Nós fornecemos o rider solicitado mas cada banda tem o seu próprio técnico de P.A. e monitor para operar nos shows.


 

Tudo o que sabemos sobre:
Popload FestivalPatti Smithmúsica

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências:

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.