Pop eletrônico: conveniência sem raízes históricas

As feições do professor e compositor Flo Menezes assemelham-se a de um personagem de Robert Louis Stevenson, o autor de O Médico e o Monstro. De espírito docente aflorado, ele explicou nesta entrevista ao Estadão.com.br, um tanto polêmico, por que não enxerga nuanças de modernidade na música eletrônica pop. Sentado em frente ao maquinário que utiliza para compor, no Studio PANaroma, fundado por ele em 1994 com apoio da Unesp e da Faculdade Santa Marcelina discorreu sobre assuntos que fazem parte de seu dia-a-dia: a situação da música eletroacústica brasileira, a relação que mantém com outros músicos eruditos, entre outros temas. Aos 38 anos, o principal nome da música eletroacústica brasileira, amigo pessoal do gênio contemporâneo Stockhausen, é dono de um idealismo raro, que o trouxe de volta ao País, há 6 anos, mesmo após estabelecer uma carreira brilhante no velho mundo.Autor de inúmeros livros, entre eles Música Eletroacústica: História e Estéticas (Edusp, 1998), e álbuns independentes, como Música Minimalista Vol. 1 (Studio PANaroma), Menezes é professor de regência e composição da Unesp, na qual defendeu tese de livre docência em 1995, organizador da Bienal Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo (Bimesp), e do Concurso Internacional de Música Eletroacústica de São Paulo (Cimesp). Vive para e em função de sua arte. Paulistano, anti-nacionalista, enxerga na música que faz o futuro da tradição erudita: "Bach era vanguarda quando produziu sua obra", afirma, parafraseando indiretamente seu mestre Stockhausen. Estadão.com.br: Como será a música do próximo milênio?Flo Menezes: Eu tenho absoluta convicção de que a música aliada a tecnologia vai ser o principal ramo da composição no próximo milênio. Na verdade, de longa data, ela já é. As possibilidades que você tem de manifestação espectral por meio da tecnologia e de interação com os instrumentos, que guardam sempre o seu valor inestimável, só aumentam com o uso de elementos tecnológicos. A escritura instrumental é riquíssima e inesgotável, mas a sua potencialidade na interação com os meios tecnológicos já é o principal ramo de atuação do compositor hoje. A música instrumental pura está condenada ao ostracismo.É possível que o grande público consuma este tipo de música. Digo, a mesma pessoa que ouve Bach, música popular, irá ouvir música eletroacústica?Toco todos os dias Bach. O que a gente faz tem um pé muito forte na história. Há um elo. A gente olha a história e percebe músicos já experimentais. O Bach era a vanguarda da época dele. Se o ouvinte tiver abertura o suficiente para entender a arte contemporânea. Digo isso em geral. O caminho natural é ele curtir tudo. Bach, Brahms, Monteverdi e Stockhausen. Mas é possível alguém começar ouvindo música erudita a partir de Stockhausen. Vir a conhecer este amplo universo por meio da música eletroacústica?Sim. Existe no ser humano uma potencialidade de se abrir para novas experiências. De inspiração, de proposição. Isto está dentro de nossas cabeças. Tanto politicamente quanto artisticamente o ser humano tem capacidade de abrir sua mente. Pessoas que não têm formação são capazes de ouvir Stockhausen e gostar. Agora, sem dúvida, se você tem informação, o exercício de recepção musical se torna mais fácil. A possibilidade de assimilação crescerá quanto melhor for a alfabetização musical. E nesse sentido a gente está em grande defasagem. E aí, existe uma lei inexorável, que pode parecer antipática mas é real: quanto mais culto é um país musicalmente, menos força terá a sua música popular. Essa cena crescente da música eletrônica pop, que diz possuir elementos oriundos do universo erudito, pode introduzir o ouvinte à música eletroacústica?Acho pouco provável. Porque ela está tão imbuída de determinados parâmetros condicionados pelo mercado que acaba não dando chance para um ponto crucial: o cerne da música eletrônica contemporânea é abrir barreiras; é partir para a invenção pura. Você não pode se ater a modelos rítmicos e harmônicos. Então tem um aspecto de invenção na música contemporânea que na música tecno não existe. É possível dizer que a música eletrônica pop tem raiz na música de vanguarda?Não acredito que haja nenhuma raiz. Na verdade, para mim, são coisas completamente diferentes. O emprego do termo se deve a um desconhecimento do termo. Uma ignorância histórica. Na verdade, este tipo de som surge de uma conveniência mercadológica sem raízes históricas. Como você interpreta o fato de cada vez mais músicos populares anexarem elementos "eletrônicos" em suas músicas. Todos dizendo: ´olha, nós estamos de portas abertas para a modernidade´?Isso é fruto de uma ignorância muito triste. Pior ainda por chegar em patamares universitários. Num âmbito em que as pessoas deveriam ter consciência cultural. Isso demostra que a verdadeira música, infelizmente, está cada vez mais restrita aos músicos. Se você for num ateliê de um artista plástico contemporâneo perceberá que ele ouve tudo menos música contemporânea, que é a que mais tem há ver com a linguagem plástica dele. Como é a relação entre compositores clássicos eruditos e os músicos vanguardistas?Foi o que eu escrevi no programa para o concerto da Sala São Paulo. Algo bem polêmico mas a pura verdade. A grande maioria dos músicos não se interessa, para valer, por música contemporânea. Isso independente de ser eletroacústica. A grande maioria dos músicos chega até Shöemberg, Bártok, Stravinsky. A partir daí, música serial, Stockhousen, cresce a dificuldade. Porque o músico brasileiro, em geral, é muito conservador. Agora existem músicos que transitam por estes dois universos e que privilegiam a música contemporânea.Para esclarecer: o que é a música eletrônica?Música eletrônica existiu como um dos sub-gêneros da chamada música eletroacústica, quando surgiu a música eletroacústica na forma de oposição da música concreta francesa à música eletrônica alemã, em 1949. A partir de 1955 as coisas começaram a se misturar de forma que hoje dificilmente você vai dizer que existe uma música simplesmente eletrônica. Por fim, música eletrônica é um termo datado do início da música eletroacústica para determinar uma vertente germânica da música eletroacústica. É isso que é música eletrônica. E Como é a música eletroacústica no Brasil?Eu diria que desde a fundação do PANaroma, que se deu em julho de 1994, a partir de uma cooperação entre a Unesp e a Santa Marcelina, o panorama da música eletroacústica brasileira mudou radicalmente. Antes disso e paralelamente até, você tem pessoas isoladas trabalhando. Com a criação do PANaroma, uma série de estúdios institucionalizados nas universidades passaram a existir. Por exemplo, na PUC, que possui um centro de semiótica, onde sempre existiu um estúdio, foi criado um braço ligado a composição. Iniciativas foram levantadas na UFRJ, na Unicamp e na USP. Por isso acredito que a fundação do PANaroma foi um marco, do ponto de vista estético, técnico e institucional. E esse pessoal que trabalhava isoladamente?A primeira peça eletroacústica brasileira é de 1958. Mas a produção sempre foi extremamente incipiente: um que faz uma coisa ali, e acolá. Como o Jorge Antunes na década de 60. Hoje você já pode dizer que existe uma música eletroacústica brasileira. Apesar de que dentro da vertente da música de vanguarda, radical, contemporânea, especulativa, erudita, clássica (risos), você dificilmente vai encontrar uma música que tenha cor nacional. Porque nós somos internacionalistas. Eu sou, claramente, anti-nacionalista. Apesar de eu reconhecer a minha raiz tipicamente paulistana. Mas aos poucos estamos construindo uma música eletroacústica brasileira e, com isso, conseguindo um certo reconhecimento internacional.

Agencia Estado,

24 de agosto de 2000 | 01h35

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