Político e progressivo, o Marillion faz balanço

Vocalista Steve Hogarth fala ao ‘Estado’ sobre a polêmica canção ‘Gaza’ e sobre sua visão da crise econômica na Europa

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

08 de maio de 2014 | 19h20

Com uma canção de 17 minutos chamada Gaza, sobre um garoto palestino crescendo no célebre campo de refugiados na fronteira de Israel, a banda de rock progressivo Marillion abre nesta sexta, no HSBC, às 22 horas, o show Best Sounds Tour - um concerto baseado numa compilação que foi lançada no ano passado somente na Europa e inventaria a trajetória de 35 anos do grupo.

Falando ao Estado por telefone da Cidade do México, o vocalista da banda, Steve Hogarth, diz que Gaza (canção do disco mais recente deles, Sounds that Can’t be Made) foi inspirada na história de um menino cujo pai foi morto pelo exército israelense enquanto apanhava passarinhos, e que cresceu em Gaza sem conhecer o significado preciso da palavra liberdade.

"Fico aterrorizado em abrir minha boca para falar desse conflito, porque sempre dá problema. Eu escrevi aquela letra para um menino. O que quer que eu estivesse querendo dizer, não é uma canção contra Israel, ou contra o sionismo, ou contra os judeus. Em última análise, é uma canção contra o mundo todo, porque já é hora de o mundo fazer alguma coisa. Não é certo que as pessoas sejam forçadas a viver naquilo que é efetivamente uma prisão. Eles não têm liberdade de movimentos em Gaza, não é permitido que se locomovam livremente. Eu falei com alguns palestinos e com alguns israelenses de Gaza e conheço a situação. O fato é que os palestinos às vezes mandam uns foguetes para cima dos israelenses, e a verdade também é que é muito raro que algum daqueles foguetes faça algum dano significativo em seus alvos ou machuque alguém. Mas quando Israel retalia, aí sim muita gente sai machucada, muita gente morre. É desproporcional a força. Eu só quis escrever uma canção para dizer ao mundo que aquela gente merece algo melhor, que é preciso fazer uma pressão mais efetiva para que aquilo mude", disse o músico.

"Israel continua a construir novos assentamentos sem prévio conhecimento. As negociações de paz requerem que isso seja feito de forma clara, que seja negociado com os palestinos", continua Hogarth. "Me desculpe, mas esse é o fato. Não gosto de abrir minha boca grande, porque sempre traz problemas, mas a verdade é que nós todos queremos paz, não queremos conflito. Por isso escrevi Gaza, uma canção para um menino."

"A mais chocante estatística é aquela que trata das diferenças entre os mais ricos e os mais pobres. Essa é a situação que mais assusta. Ouvi que os 85 mais ricos do mundo possuem mais do que 3,5 bilhões de pessoas, quase metade de toda a população do planeta. Ouvi uma entrevista da mulher que comanda o Fundo Monetário Internacional e ela fala em apertar os cintos, mas ninguém fala em mudar essa situação, em distribuir renda para os mais pobres. Algo tem que ser feito a respeito disso", afirmou Hogarth.

Altamente politizado, ele vê uma recuperação gradual na economia da Europa. "A Espanha está com problemas. Portugal parece melhor. A Inglaterra está melhorando. A Alemanha está bem. Sou o tipo otimista, você tem de permanecer otimista. Na Ucrânia, o problema é mais complicado. Mas minha opinião é a seguinte: se tem muitos ucranianos querendo se tornar russos, deixem eles se tornarem. Sei que é meio ingênuo, mas, no final das contas, somos todos iguais."

Best Sounds Tour é a seleção "daqueles que nós consideramos os melhores momentos de nossa carreira", disse Hogarth. Só inclui 2 canções de Sounds that Can’t Be Made, o resto são as favoritas da própria banda.

O Marillion é um velho conhecido dos palcos brasileiros, sempre pinta por aqui. "O cantor original, Fish, se não me engano, veio em 1988. Eu entrei no grupo em 1989. O grupo fez quatro discos com Fish, e depois outros 13 comigo. Desde que estou na banda, acho que viemos umas quatro ou cinco vezes ao Brasil. Acho que esta é a sexta vez. Honestamente, a gente não consegue perceber muito as mudanças nos países da América do Sul. Vivemos nessa pequena bolha enquanto excursionamos, fazemos os shows, vamos aos hotéis, viajamos de novo. A primeira vez que estive aqui, em 1990, resolvi sair para dar um passeio por Copacabana. E alguns garotos vieram atrás de mim e enfiaram as mãos nos bolsos do meu jeans, procurando algo para roubar. Percebi que, da última vez que viemos, nada aconteceu. Eu também vim no ano-novo de 2006 ou 2007, com minha mulher. Andamos pela praia, jogamos flores, vimos os fogos de artifício. Foi simplesmente maravilhoso. Era algo que eu queria fazer toda minha vida. Mas, em geral, são períodos muito curtos de tempo, não dá para saber se as pessoas estão mais tristes ou mais alegres. Ouvi dizer que dessa vez há muita gente infeliz com a iminência da Copa do Mundo, não sei se é verdade."

MARILLION

HSBC Brasil. Rua Bragança Paulista, 1.281, Chácara Santo Antônio, 4003-1212. R$ 75/ R$ 350.

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