Thiago Queiroz / Estadão
Thiago Queiroz / Estadão

Poesia de Manoel de Barros encanta crianças pela música de Márcio de Camillo

Projeto ‘Crianceiras’, de Márcio de Camillo, apresenta versos de poetas para os mais novos, que dispõem ainda de CD e aplicativo para celular

Edison Veiga, O Estado de S.Paulo

26 Maio 2017 | 03h00

Márcio de Camillo já era músico. Já gostava de poesia, sempre gostou. Já era amigo de Manoel de Barros (1916-2014), o poeta do Pantanal. Já era pai. E foi para ensinar a filha a gostar de poesia que passou a musicar os versos que Manoel havia escrito não necessariamente para leitores da primeira infância, para leitores de todas as infâncias da vida – inclusive as adultas. Nascia ali, em 2007, o projeto Crianceiras.

Mariah, a menina, tinha então 9 anos de idade. “Como conhecia Manoel desde os meus 21 anos, comecei a mergulhar nas poesias dele, mexer nos textos, compor a partir deles”, conta o músico. O poeta gostou. Para quem dizia que “para o meu gosto a palavra não precisa significar – é só entoar”, afinal, a música vinha a calhar. 

“Ele me incentivou”, recorda-se Márcio. Então o músico, sul-mato-grossense como o poeta, fazia uma música, gravava num CD e mandava entregar na casa de Manoel. Que ouvia e, uma semana depois, enviava “as considerações” – por carta, sempre por carta. 

O disco nasceu em 2011. O poeta se emocionou, chorou ao ouvir. No ano seguinte, nascia o espetáculo. Crianceiras não é um simples show musical. É teatro também. Os cenários são um misto de arte contemporânea, umidade pantaneira, luzes e poesia. Projeções traduzem poemas em imagens. Sombras interagem com elas. Toda a peça surpreende a criançada, que sai embasbacada, cativada pelos personagens da lavra natural e inventiva de Manoel.

Já foi visto por mais de 260 mil espectadores em cerca de 300 shows realizados em todo o País. No primeiro fim de semana de junho, haverá duas apresentações no Teatro das Artes, no Shopping Eldorado. 

No ano passado, virou aplicativo para celular: com clipes das músicas, ferramentas para desenho e fotografia, poemas com brincadeiras interativas. “Penso na criança como um ser inteligente”, diz Márcio – e suas criações não deixam dúvidas.

“O Manoel me chamava de ‘meu menino’. E dizia que, no começo, iria me levar; mas, depois era minha música que levaria a poesia dele às novas gerações”, afirma. Na última conversa entre os dois, em 2013, Márcio comentou que o Crianceiras era “a asa da sua poesia”. “Olha, eu fiz a poesia; você fez o encanto”, Manoel respondeu. Relíquia de sua coleção, o músico guarda um CD do seu projeto autografado pelo poeta. 

Márcio quer seguir gravando para crianças músicas feitas a partir de obras de poetas para adultos. No ano passado, saiu o segundo disco do Crianceiras, desta vez musicado a partir de versos de Mário Quintana (1906-1994). Um show destas canções está em fase de preparação – deve estrear no segundo semestre. 

“E já há um terceiro poeta à vista”, antecipa ele. Márcio parece ter encontrado sua missão, essa de traduzir poemas para crianças, fazer com que os pequenos se encantem com os versos. Mariah, afinal, já tem 19 anos. 

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