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Hélvio Romero/Estadão
Hélvio Romero/Estadão

Podcast conta histórias de produtor de clássicos da Tropicália

Em episódios semanais, série com Manoel Barenbein fala de discos de artistas como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Jorge Benjor

Danilo Casaletti, Especial para o Estadão

15 de julho de 2021 | 09h00

Qualquer lista sensata de música brasileira que alguém faça terá pelo menos um álbum produzido pelo paranaense Manoel Barenbein. Tropicália – Ou Panis et Circenses, disco manifesto do movimento Tropicalista que juntou Caetano Veloso, Gilberto Gil, Os Mutantes, Nara Leão, Gal Costa, Tom Zé e o maestro Rogério Duprat em 1968 é um deles. É nesse álbum que estão gravações relevantes, como Baby, na voz da Gal, Panis Et Circenses, com Os Mutantes, e Misere Nóbis, cantada por Gil.

Barenbein trabalhava na Philips quando recebeu a missão de formatar esse disco que daria continuidade ao que Caetano, Gil e Os Mutantes haviam começado um ano antes quando eletrificaram a música popular brasileira no III Festival da Música Brasileira da TV Record com as músicas Alegria, Alegria e Domingo no Parque. Essa é uma das histórias que ele conta no podcast O Produtor da Tropicália, criado e conduzido pelo jornalista Renato Vieira para o projeto Discoteca Básica.

Com edições semanais, sempre às segundas-feiras, nos players de música, a série, além de abordar o braço musical do movimento tropicalista, terá outros 8 episódios. Os que tratam dos discos que Barenbein produziu para Caetano, Gilberto Gil e Gal Costa também já estão disponíveis – na ordem, ainda serão publicados Os Mutantes, Jorge Benjor, Chico Buarque, Maria Bethânia e o disco (que nunca saiu) de João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa.

 

“Antes de ir para a Philips, o Barenbein trabalhava na gravadora RGE onde produzia o Chico Buarque e o Erasmo Carlos. Ele achava que não deveria existir aquela dicotomia que havia entre a música brasileira tradicional e a música jovem, com instrumentos elétricos. Quando ele chega para fazer o disco com Caetano e Gil, que já tinham a intenção de usar guitarra elétrica, ele abraça essa ideia e pode, então, fazer o que ele como produtor também já imaginava. Nada foi imposto”, diz Vieira.

Sobre Chico Buarque, aliás, é importante dizer que foi Barenbein quem convenceu o então jovem estudante de arquitetura a entrar no estúdio e gravar para seu primeiro trabalho, o que tem A Banda, Pedro Pedreiro e A Rita, além de trabalhar em outros três discos do compositor. Chico deu a ele o apelido de Mané Berimbau. 

Barenbein era responsável pelas produções da gravadora em São Paulo, onde, na época, moravam os baianos Caetano, Gil e Gal. Por isso, a o nome do produtor aparece também em discos como o primeiro de Caetano, que tem a canção Tropicália e Soy Loco Por Ti América; o de Gil, que traz Marginália II; e o primeiro solo de Gal, que tem Não Identificado.

 

Memórias em Israel

Na sala do apartamento onde vive em Israel há quase quatro anos, Manoel Barenbein, prestes a completar 79 anos, encontra rapidamente o disco que Gilberto Gil gravou em 1968 e que ele produziu. Lembra-se da letra de Luzia Luluza, na qual o compositor cria toda uma história em torno de uma ida ao cinema.

“É algo muito especial, de uma década que, por alguma razão, apareceram muitos nomes talentosos, como Caetano, Gil, Chico, Jorge. A Tropicália é uma obra de arte. Os dois primeiros do Chico são maravilhosos. Ele produziu algo que jamais se repetirá: um único artista fazer, em sequência, dois discos tão bons, com textos (letras) excepcionais”, diz, em entrevista por telefone para o Estadão, enquanto se lembra da canção Madalena Foi Pro Mar, de Chico. “Ele pegou uma expressão popular e fez uma poesia.”

 

Barenbein está contente de poder participar do podcast O Produtor da Tropicália. “Eu achei ótimo. Me dá trabalho, ocupo minha cabeça, e, o mais importante, transmitir informações para as pessoas. A memória desse período não pode desaparecer”, diz Barenbein, hoje aposentado das produções, mas jamais longe da música.

No país do Oriente Médio, para onde se mudou a fim de ficar perto do filho e dos netos que já viviam no país, foi convidado, há um tempo atrás, a dar palestras sobre música brasileira no Centro Cultural Brasil Israel, na Embaixada do Brasil. 

Para um público de brasileiros e israelenses, falou sobre os artistas com quem trabalhou e dos discos que produziu. Além disso, uma vez por mês, ele participa de um programa em uma rádio israelense para falar sobre música brasileira. Foi daí que nasceu a ideia da série em podcast, a convite do jornalista Renato Vieira.

Entre tantos discos que fez – Barenbein também trabalhou com nomes como Elis Regina, Jair Rodrigues, Claudette Soares, entre outros - há um que jamais foi lançado, e que será tema do último podcast da série. Em 1971, João Gilberto, Caetano Veloso e Gal Costa se uniram para participar de um programa da TV Tupi. A pedido de João, a Philips gravou o áudio da apresentação. A ideia do baiano era que um disco fosse lançado.

“Eu estava de malas pronta para a Itália, onde trabalhei na filial da gravadora, quando o André Midani (então presidente da Philips) me liga para que eu o ajudasse com o pedido do João. Fomos lá, gravamos, levamos para o estúdio, fizemos os cortes, diminuímos os ruídos, mas, por fim, João não autorizou o lançamento do disco. Até hoje não se sabe o motivo”, conta.

Recentemente, o áudio dessa apresentação foi publicado no YouTube. Trata-se de uma gravação amadora, feita diretamente da televisão na época em que o programa foi exibido.

Outro trabalho que bateu na trave foi um disco com a cantora Elis Regina, em 1967, logo após Gil e Caetano apresentarem a música brasileira com guitarra no festival da TV Record. Elis procurou o produtor e pediu que ele procurasse o maestro Rogério Duprat para fazer os arranjos de um novo álbum que ela pretendia gravar. Dois dias depois do encontro, Elis mudou de ideia.

“Ela era difícil, como todo grande artista. O que me resta é a lembrança do nosso último encontro, pouco tempo antes dela morrer. Ela me abraçou, colocou o dedo na minha cara de forma carinhosa e disse ‘a gente ainda vai fazer aquele disco’. Era uma cantora excepcional. Não acho que vá aparecer outra igual”, diz Barenbein.

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