Plácido Domingo vai gravar "Tristão e Isolda"

E não é que ele vai mesmo? Após algum tempo de especulações, que se seguiram ao lançamento de dois discos dedicados a Wagner, a EMI confirmou na semana passada que o tenor Plácido Domingo vai gravar a versão completa do Tristão e Isolda, de Wagner, o que depende apenas da confirmação do patrocínio. Não é pouca coisa. Tristão é considerado o maior entre os maiores papéis escritos para tenor. E, ao interpretá-lo, Domingo contraria todas as projeções de que jamais poderia atingir tal feito. E o faz aos 63 anos, idade em que muitos de seus companheiros já penduraram (ou já deviam ter pendurado) as chuteiras.A relação de Domingo com Wagner é mais antiga do que a gente imagina. Começou em 1968, em Hamburgo, onde, com 26 anos, cantou Lohengrin pela primeira vez. Muitos anos depois, voltaria a este papel, cantaria Tannhäuser e então Parsifal, papel-título da última ópera de Wagner. Para não falar de seu Siegmund na Valquíria, infelizmente não registrado em disco, ao contrário dos outros citados. Em todos esses papéis, provocou certa polêmica (interpretações "italianas" demais), mas, eventualmente, conquistou seu lugar de destaque no cânone wagneriano.Tristão e Siegfried (do Anel), porém, unanimidade, eram demais para ele. O problema era muito simples: são papéis muito pesados, longos, e com a tessitura muito alta para ele. Até seria possível se, 15 ou 20 anos atrás, Domingo tivesse largado grande parte de seu repertório (os papéis italianos mais pesados, nos quais é virtualmente imbatível) e focalizado sua carreira e seu treinamento no repertório alemão. Não o fez. Mas a voz humana é um troço maluco. E dois anos atrás, o tenor lançou um disco, Love Duets, em que interpretava ao lado de Deborah Voigt duetos do Siegfried e do Tristão. A crítica adorou o disco, preparando o terreno para um segundo: cenas do Crepúsculo dos Deuses, com Violeta Urmana. Outra vitória. E começaram os boatos de que ele gravaria um Anel completo (improvável, tendo em vista a crise das gravadoras) ou o Tristão.Mas, o que esperar deste Tristão (a Isolda será Nina Stemme e, a regência, de Antonio Pappano, o mesmo dos dois discos acima)? Fora do campo das adivinhações, a primeira constatação é a de que esta nova gravação do Tristão é mais uma prova da longevidade da carreira de Domingo. Com relação à sua interpretação, o que se tem são os dois discos recentes dedicados a Wagner. Ali, é interessante ver o modo como a inteligência no uso da voz e um senso de estilo muito pessoal impecável podem ultrapassar dificuldades vocais.

Agencia Estado,

03 de fevereiro de 2004 | 12h42

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