Pitty vai do Circo a Nova York, passando pelo Orkut

Roqueira fala sobre sua música e o DVD 'Trupe Delirante no Circo Voador'

Juliane Freitas, do estadão.com.br,

23 de maio de 2011 | 05h00

Pitty recebeu a reportagem em seu estúdio, que também é a casa de Duda, o baterista da banda, lançada em 2003 com o álbum "Admirável Chip Novo". No cenário underground da baixa Rua Augusta, no Centro de São Paulo e pronta para um show de rock, de bota, maquiagem e roupa preta (nos shows de verdade, Pitty investe no tênis), a cantora já dava uma entrevista por telefone quando cheguei.

 

Pitty durante a gravação do DVD "A Trupe Delirante no Circo Voador". Crédito: Divulgação

 

Uma semana após o lançamento de "A Trupe Delirante no Circo Voador", Pitty falou sobre o novo DVD, o 4º em 8 anos de banda, e o sucesso da inauguração do Orkut ao Vivo - em 10 dias, a comunidade criada na rede social para agrupar espectadores lotou, com mais de 6 milhões de membros, muitos deles esperando pela conversa com a roqueira.

 

Durante o bate-papo, em um dos banquinhos de jardim nos fundos da 'casa-estúdio', Pitty deixou o lado agressivo do rock and roll. Serena, ela falou também sobre sua aventura como modelo, seus fãs e, sobretudo, sua música.

 

Como surgiu o lance do Orkut ao vivo?

A gente gosta muito de inventar, procurar novidades, explorar novas possibilidades. Aí a nossa gravadora falou sobre esse projeto do Google, que teve a entrevista ao vivo, e depois a exibição de várias músicas do DVD no YouTube.

 

 

O que você achou da repercussão?

Foi maior do que eu imaginava. Várias pessoas de outros segmentos estavam comentando, como o pessoal de marketing. O pessoal lá [do Google] ficou até preocupado com a transmissão, por causa do número de pessoas que assistiram, pra não travar e sair do ar... E com os fãs foi incrível.

 

Você tem Twitter e o utiliza para conversar com seus fãs. O que você acha dessa plataforma?

Eu sou fã da internet. Ajuda a lidar com as pessoas de forma mais direta, distancia desse negócio de artista. Tem mais a ver com a personalidade. Coloca um lado humano mais pra fora.

 

Você também tem um blog e escreve bastante. Uma vez você disse que gosta da Clarice Lispector... Como funciona essa influência literária no seu trabalho?

Não é racionalizada. É instintiva. As nossas influências fazem parte do que a gente é, aí fica tudo misturado.

 

Todas as músicas que a banda toca são compostas por vocês. Por quê?

Eu sou compositora por natureza. Ainda não teve uma música de outra pessoa que eu quisesse gravar. Eu preciso cantar o que realmente me importa. Mas já rolaram algumas parcerias.

 

Uma vez, entrevistei o artista plástico Alex Flemming e, no meio da conversa, uma colega perguntou pra quem ele fazia arte. Ele respondeu: "Para mim mesmo". E você, pra quem você faz a sua arte?

Eu faço a arte pra mim! Acho populista e hipócrita quando ouço alguém falando "Ah, isso é pra vocês". A arte tem a expressão do artista.

 

Como foi virar modelo da Cavalera, na campanha em que você encarna Coco Chanel?

Foi uma aventura nova. Uma chance pra fazer alguma coisa diferente. Sempre gostei da Chanel e da Cavalera. E eles foram muito competentes. Reproduziram os acessórios que ela usava... Até pensei em pedir, mas fiquei com vergonha.

 

O novo DVD da banda foi lançado no dia 13. Qual foi a ideia para este projeto?

Nós lançamos um DVD de show, o "(Des)concerto Ao Vivo", em 2007. Já fazia bastante tempo. Muita coisa mudou de lá pra cá. A sonoridade da banda, nosso jeito de fazer música... A gente queria registrar essa nova fase. Mas é um DVD diferente, não é um daqueles compilados de vários sucessos. A base dele é o último CD, "Chiaroscuro". E nós também resgatamos músicas do primeiro disco, que ainda não tinham sido registradas em vídeo.

 

Durante o DVD, algumas imagens são feitas lá no meio da plateia, pelo Otavio Sousa. De quem foi a ideia de gravar no meio da galera?

Foi minha, pra pegar realmente a sensação de estar lá no meio de um show de rock. A ideia era de dar a câmera para a plateia, mas não deu certo.

 

Os fãs improvisaram várias coisas. Levaram balões e soltaram bolhinhas de sabão no meio da música "Só Agora", como no clipe, e cantaram todas as músicas. Qual foi a sensação?

O show foi sensacional. Todo mundo foi com o espírito de fazer uma coisa bem quente. Aconteceram várias coisas que não teriam acontecido sem as ideias dos fãs. Eles arranjaram um jeito de se expressar. E eles combinaram tudo isso antes pela internet!

 

Muitos de seus fãs não te acompanham por causa de modinha, mas sim por causa das letras politizadas e do som diferente. Você nota isso?

Noto, sim. Na minha música eu lido com a palavra, com a literatura. Saber o que a música diz e as minhas inspirações acabaram passando para os fãs. É claro que eles também querem se divertir, mas, além da diversão, dá pra propor um pensamento crítico.

 

Nos comentários do vídeo de "Me Adora" do DVD, postados no YouTube, algumas pessoas te criticam quando um garoto tenta subir no palco e você ameaça, na brincadeira: "Desce daí, vou te dar um soco". Você viu?

Todo mundo se acha especialista em tudo na internet e comentam as coisas sem saber do que se trata. Pra quem vê a cena fica claro que eu estava brincando. Geralmente não impeço ninguém de subir no palco, mas naquele dia não dava, tinha um monte de equipamento... Eu já tinha avisado a plateia. Nenhum fã ficou bolado com isso.

 

Então você não ligou?

Não. Eu não quero que esse tipo de pessoa goste de mim.

 

Vocês vão fazer uma turnê pra divulgar o DVD e vão tocar em Nova York...

É, vai rolar um festival, o Summer Stage, no Central Park, e vai ter um dia com bandas brasileiras. Não tenho nenhum plano megalomaníaco de fazer carreira internacional, mas a oportunidade de tocar num domingo a tarde, ao ar livre, no Central Park... Eu quero ir a qualquer lugar que eu possa tocar e fazer meu som.

 

Vocês já sofreram pressão de alguma gravadora pra lançar algum trabalho?

Não. E acho que não tem como ser de outra forma na arte, com muitas limitações. A pressão que acontece tem que ser das nossas próprias vontades. Desejo tudo com o meu trabalho, desejo o mundo todo. Mas não me decepciono quando não rola alguma coisa. Quando você faz sendo bom pra você, tudo o que vem é lucro.

 

Qual é a maior ambição da sua carreira?

É continuar vivendo do rock, até o fim da vida.

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