Ayrton Vignola/Estadão - 29/6/2011
Ayrton Vignola/Estadão - 29/6/2011

Pinchas Zukerman em interpretação marcante de Beethoven

Violinista fez apresentação excelente no Cultura Artística Itaim no último dia 15

João Marcos Coelho - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

16 de agosto de 2013 | 19h26

Desconcertante, inédito, demoníaco, o músico descabelado gesticula e transpira, parecendo ter parte com o demo. Notas aos borbotões emitidas no menor tempo (im)possível. “Isso soa como bravura pela bravura”, escreve o dublê de pianista infelizmente aposentado e ótimo pensador Alfred Brendel num trecho recentemente divulgado de seu próximo livro. Músico particularmente arredio à gestuália espalhafatosa dos que querem fazer da situação de concerto um circo, lamenta que “uma parte considerável do público fique arrebatada” com tais acrobacias. A afinidade com a arte refinada e sutilíssima de Pinchas Zukerman é evidente. Mesmo empunhando o violino, instrumento que propiciou o nascimento da figura do virtuose-símbolo Paganini, Zukerman recusa o gesto virtuosístico e grandiloquente. Prefere a intimidade da prática da música de câmara, integrando-se no mais alto grau a suas parceiras.

Ele toca com extrema simplicidade e fluência, como se estivesse ensaiando no estúdio em sua casa. A música parece fluir das suas veias até as cordas naturalmente, mesmo quando a obra é complexa e exige virtuosismo. Não se preocupa em impressionar plateias. O que lhe interessa é a música, o som que sai de seu instrumento. E este é límpido, afinadíssimo, adequado.

Quinta (15), na sala Cultura Artística Itaim, o trio formado por ele ao violino, sua mulher Amanda Forsyth e a pianista Angela Chen entregou-se a interpretações de elevadíssimo nível. Ao violoncelo, Amanda possui sonoridade forte e se integra com o violino de Pinchas em fraseados exatos e dinâmicas sutis; ao piano, a ótima Angela dosa bem o potencial sonoro de seu instrumento para equilibrá-lo em relação aos demais. Ok, vou me arriscar agora, mas gostei muito mais do que esperava da leitura que fizeram do célebre Trio Arquiduque de Beethoven. Em casa, voltei a ouvir uma gravação famosa, de 1970, onde Pinchas, então com 22 anos, toca com o casal Barenboim (Daniel, 27, ao piano, e Jacqueline Du Pré, 25, ao cello). E olhem, o Arquiduque de anteontem ficou devendo pouquíssimo àquela mítica versão – se é que ficou devendo mesmo.

Obra de plena maturidade, exige tudo dos intérpretes, pois funde a intimidade da música camerística com o fôlego sinfônico. Nele predomina um sentido raro do dolce, do cantabile e do espressivo. À textura mais cheia dos acordes cheios do piano e aos constantes entrecruzamentos de timbres, ora fundindo-se, ora afirmando diferenças nas cordas, Beethoven acrescenta outra tática: amplifica progressivamente a escrita, até o clímax final. Com certeza a versão do Pinchas de 1970 é mais fogosa; mas a de anteontem combinou maravilhosamente sua maturidade aos 63 anos com as parceiras bem mais jovens.

O concerto completou-se com outras duas obras de Beethoven. O Allegretto WoO 39 é banalíssimo, quase uma bobagem de tão simples. A sonata primavera, quinta das dez que ele compôs para violino e piano, bebe demais nas águas mozartianas. É bela, belíssima, mas ainda ingênua face à grandeza do Arquiduque que se seguiria.

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