REUTERS|Stringer
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Pianista turco Fazil Say seduz em recital na Sala São Paulo

Ele volta a se apresentar nesta quinta, 12, e na sexta, 13

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

12 de maio de 2016 | 05h00

Em palestra na segunda, 9, em São Paulo, o prêmio Nobel Mario Vargas Llosa propôs uma leitura do século 20 como viagem da utopia à realidade. A busca da perfeição coletiva levou-nos aos malfadados totalitarismos. Hoje, disse o autor da Guerra do Fim do Mundo, nos resta buscar a perfeição individual. Pode soar até inevitável, mas é sempre emocionante assistir a um artista como o pianista turco Fazil Say mergulhar nas questões políticas que envolvem o seu país. Gezi Park 2 foi o clímax de seu recital na Sala São Paulo, na terça, 10. Ele não se omite desde 2013, quando manifestações populares contra a demolição da praça Taksim em Istambul provocaram forte repressão do governo Erdogan, com 8 mortos e centenas de feridos. Estava entre os manifestantes e vem compondo um painel sobre o tema. Gezi Park 1 é um concerto para dois pianos; Gezi Park 2 é uma sonata tecida com cantos de protesto de 2013 que termina com um réquiem a um adolescente morto; e Gezi Park 3 é uma balada para meio-soprano, piano e cordas.

Musicalmente, assombram suas abordagens pessoais de obras-primas do repertório. Foi inédito o que fez com os Quadros de uma Exposição de Mussorgsky, com direito a toques diretos nas cordas e liberdades em relação à partitura; e a sonata n.º 11 de Mozart. Nenhuma frase burocraticamente tocada; dinâmicas, planos sonoros, interpretações sempre inesperadas. É como se essas peças estivessem sendo escritas diante de nós.

Em Mussorgsky, cada episódio constituía mundo próprio. Todos ligados pela promenade, formando um mosaico. Como a sonata n.º 11 em que Mozart, por detestar a arrogância dos franceses, enfiou a melodia de uma canção alemã que fala do “verdadeiro saber viver” no Andante grazioso inicial.

O extra foi um show à parte. Uma versão improvisada com excelência da bela Summertime de Gershwin. Say tocou Mussorgsky com o uniforme preto costumeiro dos pianistas de concerto; mas voltou como pop star para o Mozart e Gezi Park, num novo casaco brilhoso e mangas azuis bufantes.

Saí, confesso, com uma sensação deliciosa, parecida com a do público que costumava assistir aos amalucados e divertidíssimos recitais de Franz Liszt nos anos 1830, que misturavam pirotécnica e musicalidade genial. Caras, bocas, gestos de regência com as mãos, pernas às vezes para fora da banqueta – nada postiço, tudo natural. Impossível despregar os olhos de sua figura, impossível não ser seduzido por seu piano de exceção.

OSESP

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elísios. 5ª e 6ª, 21h; sáb., 16h30. R$ 42/ R$ 194 (5ª, 10h, ensaio aberto, R$ 10). 

 

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