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Pianista russa de 29 anos apresenta-se pela primeira vez no Brasil

Yulianna Avdeeva venceu o primeiro lugar no Concurso Chopin em 2010 e fará concerto no Municipal do Rio

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

24 de março de 2014 | 18h28

Compositores são pessoas, “no final das contas, sem nacionalidade”. Yulianna é russa, fala direto da Califórnia, sobre concerto que fará na semana que vem no Brasil. O mesmo não valeria para intérpretes como ela? “Sim, um músico não tem gênero, não tem país. Está, precisa estar, acima de definições como essas.”

Para entender o comentário, é preciso apresentar a personagem. Yulianna Avdeeva é pianista, tem 29 anos e, em 2010, venceu o prestigioso Concurso Chopin. Mas a vitória esteve envolta em controvérsias. De um lado, foi bombardeada com perguntas a respeito do fato de ter sido a primeira mulher em mais de 40 anos a vencer a premiação (a última havia sido Martha Argerich, em 1965). De outro, teve de ouvir de críticos que suas interpretações eram emotivas demais, reforçando o estereótipo de que Chopin é “música de mulheres”, seja lá, convenhamos, o que isso quer dizer.

Nada disso é importante, diz Yulianna. E ela não parece estar interessada nos comentários de que sua vitória em 2010 sobre outros competidores, como o também russo Daniil Trifonov, não foi justa. Nos últimos anos, Trifonov esteve no Brasil para recitais e concertos. É um excelente pianista – e está com certeza na lista dos grandes de sua geração. Mas o fato é que Yulianna, após vencer o Concurso Chopin, pode bem reivindicar para si mesma veredicto similar.

No dia 5, o público brasileiro poderá tirar a prova. Ela se apresenta com a Sinfônica Brasileira no Teatro Municipal do Rio, regida por Fabio Mechetti, em concerto que marca o lançamento da quarta edição do Concurso Internacional BNDES de Piano do Rio de Janeiro, que será realizada em novembro e dezembro deste ano e vai homenagear a pianista brasileira Magda Tagliaferro. Vai tocar o Concerto nº 1 para Piano e Orquestra de Chopin e o Concerto K.467 de Mozart (o concerto tem ainda as Bachianas Brasileiras nº 9, de Villa-Lobos). “O Chopin, coloquei no programa por motivos óbvios”, ela diz, brincando. “E o Mozart? Bom, foi uma maneira de propor um diálogo que ilumine os dois autores.”

Chopin, diz Yulianna, sempre foi considerado o poeta dos compositores – e isso, ela acredita, tem muito a ver com a sua paixão pela ópera. Mozart foi autor de grandes obras do gênero. E Chopin o reverenciava, assim como acontecia com Bach. “O que Chopin nos diz com sua música é que o piano é capaz de cantar, de imitar a voz humana. O segundo movimento do concerto nº 1 é como uma ária de ópera. E o segundo movimento do Mozart também. É claro, são autores de momentos diferentes, mas não é exagero pensar nessas semelhanças”, explica.

Há um outro elemento nesta conta – a importância compartilhada por piano e orquestra. “O diálogo acontece de modo direto, no mesmo nível. Claro, as arquiteturas e estruturas das obras são diferentes, e acredito que, de alguma forma, Chopin leva mais adiante a ideia do canto a que me referia. Mas essa conversa entre piano e orquestra é extremamente teatral e está presente na obra dos dois compositores, assim como um sentimento de alegria muito grande.”

Yulianna lembra que, ao longo das três semanas em que esteve em Varsóvia, para o Concurso Chopin, não viveu o stress normalmente associado a este tipo de evento. “Isso tem a ver com o público polonês. Todas as provas são realizadas com o teatro cheio, os ingressos esgotam muito rapidamente, é algo especial. Então, para mim, cada prova era como um concerto real, ou seja, a oportunidade de compartilhar com as pessoas que ali estavam minha arte, a música desses grandes autores. Talvez por conta disso a sensação que tenho, ao me lembrar do concurso, é de um período de enorme liberdade.”

O período na cidade permitiu a ela também se aproximar “o máximo possível” da obra de Chopin. Yulianna conta que visitou lugares associados a sua trajetória, conversou com músicos, trocou ideias, sensações. Paradoxalmente, saiu do processo convencida de que, apesar de pertenceram a contextos e momentos históricos específicos, compositores não têm pátria. Ou, por que não dizer, têm uma só – a música. 

Tal noção mantém relação estreita com a maneira como ela entende a história da música, que ela explica quando perguntada sobre que repertório se imagina fazendo daqui a dez, quinze anos. “Não consigo me limitar a um período, a um estilo, é algo que não combina com quem sou, com a minha personalidade”, diz. “Entendo a criação musical não em termos de momentos específicos e estanques mas, sim, como um processo contínuo, de mútua influência. E esse processo não é necessariamente linear. Por exemplo, não se trata apenas de um compositor barroco nos ajudar a compreender o que vem depois. Isso é óbvio, mas o contrário também é verdadeiro. Cada vez mais me dou conta de que, ao tocar Ravel ou Debussy, tiro lições que serão fundamentais na minha compreensão de autores que vieram antes deles, como Chopin ou Mozart.”

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