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Pianista Pierre-Laurent Aimard apresenta obras dos grandes mestres do século 20 em São Paulo

Francês falou ao 'Estado' sobre os recitais que faz nos dias 5 e 6 de maio na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

05 Maio 2015 | 03h00

O pianista francês Pierre-Laurent Aimard faz nesta terça, 5, e quarta-feira, 6, recitais que vão levar ao palco da Sala São Paulo obras de grandes mestres do século 20 - Ligeti, Kurtag, Debussy, Messiaen e Scriabin entre eles. É música sob medida para um artista que, ao longo da carreira, construiu a reputação de grande especialista em música contemporânea. A pecha, no entanto, não o agrada - nem um pouco. 

“Não se trata de eleger um período como foco, mas, antes, de uma compreensão mais ampla do que é a música e do papel do intérprete”, ele diz, em entrevista ao Estado no último sábado, dia 2. “Montar um recital não deve ser apenas juntar peças, mas, sim, criar sentidos”, completa, mostrando por que é um dos artistas mais estimulantes de sua geração.

No recital desta terça, 5, pela temporada da Sociedade de Cultura Artística, Messiaen e Kurtág aparecem ao lado de trechos do Cravo Bem Temperado, de Bach; já nesta quarta, 6, Chopin se une a Scriabin e Ligeti, entre outros autores. Misturar épocas e estilos não é novidade para o pianista. 

Em agosto, na edição deste ano do Mostly Mozart Festival, em Nova York, ele será responsável por concertos que estabelecem paralelos entre autores como Mozart e Bach com Webern, Boulez e George Benjamin. Em 2009, ele também propôs, em disco, a união de Beethoven e Bach à escrita do norte-americano Elliot Carter - e o título deste álbum não poderia ser mais emblemático: Not Just One Truth, algo como “não há apenas uma verdade”.

“A ideia básica por trás desses recitais e projetos é uma percepção menos sectária da história da música. Entender a evolução da escrita como a sucessão de quadros individuais é questionar esse próprio caminho evolutivo. Imagine-se em uma exposição: a presença de quadros de diferentes períodos permite a você perceber o modo como a herança se traduz por meio da transformação”, explica.

E a mesma lógica pode ser aplicada a um recital. “Ao unir essas peças, quero mostrar como cada autor respondeu aos desafios da escrita, como a forma se transformou. E só é possível fazer isso criando ressonância entre elas. O meu objetivo como intérprete é suscitar a reflexão. É uma tarefa pedagógica, em certo sentido. O intérprete não pode ser apenas um entertainer, tem que descobrir e dar sentido ao repertório que executa”, afirma ainda.

Nascido em 1957, Pierre-Laurent Aimard começou os estudos em Lyon, sua cidade natal, e, mais tarde, aperfeiçoou-se com Yvonne Loriod, segunda mulher do compositor Olivier Messiaen, e Maria Curcio, que teve entre seus alunos nomes como Martha Argerich, Radu Lupu e Mitsuko Uchida. O contato com compositores se deu ainda na juventude. 

Além de Messiaen, ele trabalhou com Ligeti, Boulez (com quem participou da criação do Ensemble InterContemporain) e Stockhausen, fazendo, inclusive, a estreia de algumas de suas obras. Da mesma forma, tem sido, hoje, grande defensor do trabalho de autores como Tristan Murail (de quem fez a estreia do concerto Le Désenchantement du Monde), George Benjamin e Marco Stroppa. 

O repertório tradicional, no entanto, também esteve presente em sua carreira. Com o maestro Nikolaus Harnoncourt e a Orquestra de Câmara da Europa, por exemplo, gravou uma elogiada versão dos cinco concertos para piano e orquestra de Beethoven, além de se dedicar à obra de Mozart, Bach ou Schumann.

“O que me interessou, desde cedo, foi compreender o ato de criação. O criador busca a originalidade e acompanhar esse processo é um enorme aprendizado”, diz ele sobre o contato, desde o começo de sua trajetória, com grandes compositores. 

E, em seguida, explica por que a mistura de repertório sempre lhe pareceu natural. “Para mim é inconcebível um intérprete que não se volte ao criador, àqueles que hoje se dedicam a pensar os caminhos da linguagem musical. Isso deveria ser uma prioridade. Afinal, o que dá sentido à música e, principalmente, ao trabalho do intérprete, é justamente a conjugação, o diálogo, da tradição com o novo. É isso que tento mostrar.”

PIERRE-LAURENT AIMARD

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Luz, 3367-9500. Terça, 5, e quarta, 6/5, às 21 h. R$ 50/ R$ 285. 
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