Pianista mineiro escolheu o recato e a elegância

Como a maioria dos brasileiros que gosta de música, eu já conheço Nelson há muito tempo. Só que ele não sabia. Ainda garoto eu freqüentava os seus concertos no Municipal do Rio, ouvindo com espanto aquele que foi descrito recentemente pelo principal crítico de música do jornal Le Monde como um dos maiores pianistas da atualidade: "É possível encontrar três ou quatro pianistas tão excepcionais quanto Nelson Freire, mas ninguém encontrará um melhor", foram as palavras exatas de Alain Lompech. Durante os anos 80 e 90, toda vez que Nelson passava pelo Rio eu tentava conseguir um ingresso para ouvi-lo. De todas as coisas extraordinárias que aconteciam no palco naquelas ocasiões, uma das que mais me chamavam a atenção era a elegância contida dos seus gestos. Isso pode parecer estranho, dado que de um músico se espera música e não mímica. Mas sempre achei que a música de Nelson encontrava sua melhor tradução nos gestos de Nelson - todos eles precisos, sem derrames desnecessários, sem nenhuma retórica. João Cabral de Melo Neto, mesmo não gostando de música, poderia ter se encantado com tanta precisão. Esse rigor, porém, sempre foi um pouco contra a corrente. Uma boa parte do público de música erudita gosta de ver o seu pianista dando golpes de braço à direita e à esquerda, como se o teclado fosse um mar, e ele, um afogado. O problema desse destempero é que quase sempre a música acaba desaparecendo atrás da ginástica. Com Nelson isso nunca acontece. O seu piano é um mar calmíssimo. Acredito que essa elegância seja uma decisão estética; é como se ele dissesse: "Prestem atenção na música e não se deixem ludibriar pela performance." E suspeito também que se trate de uma questão de recato: "Primeiro Schubert, Chopin ou Brahms e só depois Nelson Freire", é disso que Nelson parece tentar nos convencer. É claro que isso é uma ilusão: o Chopin que Nelson toca ninguém toca igual, mas a sensação que a platéia tem ao ouvi-lo é a de um acesso direto à música, sem escalas. Num mundo cada vez mais exibido, esse recato é o seu traço mais doce e, na minha opinião, a razão da extraordinária pureza da sua música. No Brasil existe toda uma mitologia em torno da figura do escritor mineiro, do político mineiro, do banqueiro mineiro - homens discretos, mais privados do que públicos, que preferem falar de suas obras a exibir suas biografias. Pois bem, mesmo que Nelson não tivesse nascido em Minas Gerais (mas nasceu), ele teria inventado mais um personagem para a categoria: a do pianista mineiro. Em março do ano passado eu me apresentei a ele. Fazia algum tempo, o jornalista Flávio Pinheiro e eu vínhamos conversando sobre nossa vontade de fazer um documentário sobre Nelson Freire. Gentilmente, Nelson topou. Estamos filmando desde abril e devemos filmar ainda até o início do ano que vem. Já temos momentos maravilhosos: Nelson tocando o segundo concerto de Brahms no Municipal do Rio, tocando o mesmo concerto no sul da França com a Filarmônica de São Petersburgo, tocando a quatro mãos e a dois pianos com sua grande amiga Martha Argerich, tocando a Fantasia de Schumann em pelo menos três ocasiões diferentes (todas elas de tirar o fôlego), tocando Villa-Lobos dentro de uma igreja barroca com vista para o Mediterrâneo - 38 horas de uma música extraordinariamente bela. O que ainda não temos é o Nelson que imita vozes como ninguém, que sabe de cor diálogos inteiros de filmes clássicos americanos (principalmente os que têm Rita Hayworth), que gosta de tocar Erroll Garner nas horas de folga, que adora contar histórias de músicos, que tem acessos de riso que duram mais tempo do que certas sinfonias de Mahler. Como bom representante da categoria que inventou, Nelson acha que tudo isso é menos interessante do que Mozart, Liszt ou Beethoven, e fica genuinamente sem jeito quando tentamos filmá-lo longe do piano. Ainda vamos tentar flagrar o Nelson-longe-do-piano, mas não sei se conseguiremos. Na verdade, nem sei se devemos. Se entendo bem a psicologia do mineiro, determinadas coisas existem apenas para os amigos, em sinal de respeito e de amizade, como quem diz: "Isso é só para vocês." É uma idéia bonita. Documentaristas têm a estranha mania de achar que tudo, ou quase tudo, deve ser filmado. Foi preciso um pianista mineiro para me mostrar que não é necessariamente assim.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.