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Pianista Jérôme Ducros desafia o academicismo

Músico francês lança nova moldura para pensar a produção contemporânea no disco 'En Aparté', que traz ótimo quinteto

João Marcos Coelho - Especial para o Estado, O Estado de S. Paulo

08 de dezembro de 2013 | 20h59

O escritor checo Milan Kundera diz num ensaio que tudo assume, a nossos olhos, a importância de uma história. Nossa sensação da beleza é condicionada ao conhecimento de uma data. Assim, “se sentimos um prazer estético diante de uma sonata de Beethoven, por que não sentimos a mesma coisa diante de outra no mesmo estilo e com o mesmo encanto quando é assinada por um contemporâneo? Não é o máximo da hipocrisia?”.

Vale a pena tentar sair dessa camisa de força historicista e curtir música bem feita. Um pianista francês de 39 anos e ótima carreira desafia, em sua estreia em disco como compositor, a moldura sob a qual se pensa a música. Chama-se Jérôme Ducros, foi vencedor por unanimidade no Conservatório de Paris e ganhou um prêmio especial num concurso de música contemporânea em 1994, em júri presidido por Maurizio Pollini. Trabalhou com alguns dos mais qualificados músicos da atualidade, como Maria João Pires, os irmãos Capuçon e Gérard Caussé.

Mas sentia-se infeliz e culpado por não curtir a música dita contemporânea mais radical. Consegue agora soltar as amarras no CD com duas obras camerísticas que chama sintomaticamente de En Aparté (US$ 10,99 no iTunes). A expressão quer dizer em separado, à parte. Ele escreve música escancaradamente tonal.

O musicólogo Gilles Cantagrel, em texto interno do CD, pergunta-se: “Será que a modernidade não sofre de um academicismo terrível? A música é feita primeiro para ser ouvida, antes de ser lida, analisada, julgada”. Em entrevista recente, Jérôme diz que “o ensino acadêmico nos empurrava goela abaixo que rejeitar Stockhausen em 1990 equivalia a rejeitar Beethoven em 1820. Meu desamor por esta música devia ser incompetência minha. Senti-me culpado de um passadismo incurável. Tudo se passava como se o atonalismo tivesse para sempre o rosto do novo”.

Bem, hoje em dia, no clima pós-moderno onde se aceita tudo, Ducros é alegremente tonal. Seu quinteto para piano e cordas é música de qualidade. Lembra, é verdade, Fauré. E seria elogiado se saísse da pena de um compositor de uns 120 anos atrás. O quinteto só tem um defeito: foi composto há quatro anos. A “novidade” da obra é que, em movimento único, Ducros primeiro apresenta o desenvolvimento e só no final de cada parte expõe o tema puro. Mero truque gratuito? Pode ser. Mas funciona musicalmente, ultrapassa largamente o nível do pastiche ou exercício escolar.

Ducros tem a vantagem de ser ótimo pianista, assim como seus parceiros: os violinistas Sergey Malov e Mi-sa Yang, Gérard Caussé à viola e Jérome Pernoo ao violoncelo. Complementa o CD seu trio para piano e cordas de 2006. Mas aqui ele põe de lado a autocrítica e escreve uma obra frouxa e longuíssima, de quase 45 minutos, que não sustenta o interesse como o quinteto, que não chega a 23 minutos.

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