Deutsche Grammophon/ Divulgação
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Pianista Hélène Grimaud lança discos em que evoca a música de Brahms

No recém-lançado livro Pianists A-Z (Faber & Faber), o pianista Alfred Brendel percorre, aos 82 anos, o alfabeto em verbetes iluminados com reflexões sutis e consistentes. Num deles, diz que a relação do intérprete com a música prescinde de informações biográficas. Ou seja, acreditam em Papai Noel os que costumam associar vida e obra. Cai, porém, em contradição no verbete Brahms, ao afirmar que o concerto para piano e orquestra nº 1, o seu preferido, foi composto sob impacto do gesto insano de Robert Schumann ao atirar-se nas águas geladas do rio Reno, no início de 1854: “Ele criava ali a mais monumental obra sinfônica para piano e orquestra”.

João Marcos Coelho, Especial para O Estado de S.Paulo

07 de outubro de 2013 | 18h43

A pianista francesa Hélène Grimaud mostra, em dois CDs lançados esta semana no mercado internacional, que acredita em Papai Noel. Faz questão de incluir como insumos de sua interpretação detalhes biográficos dos compositores e vinculá-los a suas obras. E prova que isso não é ingenuidade. Brendel diz que, quando cria, o músico “viaja” para esferas que nada têm a ver com sua vida do dia a dia. Grimaud insiste que conhecer em detalhe o triângulo amoroso-platônico Robert e Clara Schumann e Brahms ajuda na interpretação. E prova isso, com leituras deslumbrantes de obras dos dois compositores em CDs lançados esta semana no mercado internacional.

Pelo selo Deutsche Grammophon, ela interpreta os dois concertos de Brahms, acompanhada pelo mesmo regente, o inglês Andris Nelsons, e duas orquestras diferentes: o primeiro com a da Rádio Bávara, que virá ao Brasil em 2014 sob batuta de seu regente titular Mariss Jansons, em performance ao vivo; e o segundo, em estúdio, marca sua estreia em gravações com a Filarmônica de Viena.

Pela Sony Classical, Hélène junta-se ao violoncelista alemão Jan Vogler para uma fascinante “viagem” pela música de Robert Schumann que tem tudo a ver com o universo pessoal e artístico de Brahms. O repertório reproduz um concerto do duo no último Festival de Moritzburg, dirigido por Vogler. Eles interpretam as três peças-fantasia opus 73 e o mais célebre dos ciclos de lieder (canções para voz e piano), o Dichterliebe, ou o amor do poeta, sobre poemas de Heinrich Heine. Robert embutiu em várias das 16 canções as notas que na notação alemão correspondem ao nome de sua amada Clara, a musa platônica que mesmerizou Brahms por toda a vida. E, num ótimo bônus, Vogler junta-se a dois pianistas (Martina Filjak e Juho Pohjonen), o violoncelista Christian Poltéra (que já tocou com a Osesp) e o trompista Johannes Dengler numa obra raramente gravada, o Andante e Variações op.46.

A bela francesinha de 43 anos, na verdade, leva mais longe o sentimento de Brendel, que associa o primeiro concerto ao impacto que Brahms sofreu com o gesto tresloucado de Schumann. Após ter dito, em entrevista no encarte do álbum duplo, que este concerto é “espiritual, fervoroso, romântico”, La Grimaud confessa que o sente como uma obra autobiográfica: “Ele se nutre dos pensamentos e emoções mais íntimos de Brahms. O primeiro movimento constrói um retrato de seu amigo e defensor Robert Schumann; o segundo, dedicado ao amor impossível de Brahms, Clara Schumann, é praticamente uma prece; e o terceiro é uma espécie de ressurreição. Em suma, tocar este concerto é mergulhar diretamente no drama da vida do jovem Brahms”.

De igual modo, substituir a voz humana pela do violoncelo no ciclo de Schumann potencializa o impacto emocional desta “love story” assim distribuída: nos primeiros quatro lieder, nasce o amor; em seguida, a amada se afasta (5 e 6); o desastre acontece entre os lieder 7 e 12: a amada o trai e se casa com outro; nos quatro finais, instaura-se o desespero na alma do poeta. Se os versos de Heine são magníficos, a música de Schumann alcança nível estratosférico e ao mesmo tempo memorável (no sentido de que as melodias são assobiáveis, daquelas que você ouve e colam na alma).

Romanticamente, está tudo explicado. Falta, entretanto, o outro lado, racional, decisivo para diferenciar uma interpretação. No verbete “performance” de seu raro livrinho de pensatas da maturidade sobre seu ofício, Brendel cita com simplicidade um filósofo alemão do século 18, Johann Christoph Lichtenberg. A metáfora é clara: não se usa tesoura para cortar a carne à mesa, para acrescentar que a arte da interpretação é difícil porque nem ao menos sabemos se estamos cortando carne ou peixe à mesa. “A arte da interpretação é um quarto de espelhos distorcidos. Percebemos algo. E esta percepção já é uma interpretação”. O intérprete é contraditório por natureza: deve perder-se na obra, mas manter o controle sobre ela. “Quando o vento certo sopra, a interpretação opera uma síntese destas contradições.” Joga, portanto, a responsabilidade na intuição.

Entre os dois concertos, a leitura que mais impacta é o do primeiro. Tecnicamente, Grimaud é sempre irretocável. Mas ajusta-se melhor ao primeiro concerto. No segundo, sinceramente, prefiro a versão notável de Nelson Freire com a Gewandhaus. O brasileiro faz o que recomenda Brendel ao intérprete: “A música dorme na partitura. O intérprete tem o privilégio de acordá-la, ou, mais amorosamente, despertá-la com um beijo”.

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