Pianista Gogô lança seu maduro primeiro álbum

Parceiro de Dick Farney por 10 anos e professor de nomes promissores, Gogô mostra trabalho aos 69 anos

Livia Deodato, de O Estado de S. Paulo,

17 de dezembro de 2008 | 18h43

Gogô fala em generosidade de intérpretes e instrumentistas que participam de seu primeiro álbum, mas a grande maioria desses 31 nomes convidados é que deve seu agradecimento ao mestre. Aos 69 anos, sendo 51 de carreira, o pianista, arranjador e professor de música bem menos conhecido por seu verdadeiro nome, Hilton Valente, não sabe bem precisar sobre o motivo que o levou a gravar um disco próprio só agora. Mas tem a certeza de que esse é o momento certo: conseguiu reunir a nata da música popular brasileira atual para trabalhar ao seu lado, personalidades que de uma forma ou de outra fizeram parte de sua vida artística. Veja também:Ouça trecho da música 'Dos Anjos', de Gogô  O Piano de Gogô foi idéia de um ex-aluno, o também pianista e compositor Thiago Cury, a quem o músico prefere chamar de "mentor intelectual e material". Na apresentação impressa no encarte do álbum, Thiago frisa a importância de se gravar um artista que "chama a atenção pelo modo sutil de se colocar, com um conceito de não-protagonismo e uma concreção incomum nos dias de hoje". A preposição ‘de’ contida no título do álbum, portanto, também nasce sob esse contexto, conforme preciosismo do próprio Gogô: "Não poderia ser O Piano ‘do’ Gogô, pois esse é o que está lá em casa. O ‘de’ está me mostrando como piano solista, gravando com cantores, violonistas, clarinetistas, contrabaixistas, flautistas e etc." Zé Luiz Mazziotti, por exemplo, foi o convidado a dar voz à canção Copacabana, de João de Barro e Alberto Ribeiro, uma homenagem prestada por Gogô ao intérprete e também pianista Dick Farney, de quem sempre foi fã e com quem trabalhou por 10 anos, entre 1977 e 1987, quando ele morreu. "Eu me lembro de quando eu vi, pela primeira vez, o Dick se apresentando. Eu ainda era adolescente e fui vê-lo no Copacabana Palace. Ele sempre foi um tremendo pianista. Por meio de um amigo em comum, cerca de 20 anos antes de eu começar a trabalhar com ele, criamos uma amizade", relembra. Gogô foi o segundo pianista convidado a dar apoio no piano a Dick, depois de Julinho Figueiredo. "Ele preferiu que outros pianistas o acompanhassem para que pudesse ficar à vontade conversando com o público." As conexões artísticas estabelecidas por Gogô ao longo de sua carreira se fazem presentes de forma implícita no álbum. Dick não só foi o seu parceiro, como ofereceu o primeiro ganha-pão a Johnny Alf, que, por sua vez, foi o responsável pela inserção de Gogô no universo profissional da música. "O primeiro emprego que tive foi dado pelo Johnny. Eu tinha uns 20 anos e ele me indicou para trabalhar na extinta boate Cave", conta. Ana Maria Brandão, que já atravessou muitas noites trabalhando ao lado de Gogô, é devota de Johnny Alf e empresta sua bela voz à interpretação de O Que É Amar, composição do carioca. Quatro dos convidados de O Piano de Gogô foram seus alunos nas disciplinas de piano, harmonia e história da música popular brasileira na Universidade de Campinas (Unicamp). O pianista, compositor e arranjador Leandro Braga faz um duo de pianos em uma canção-homenagem ao ex-professor, Go-Gô, enquanto o baterista Edu Ribeiro dá o ritmo na grande maioria das músicas presentes no disco. Rodrigo Morte preparou os arranjos de Se Eu Pudesse, de José Maria de Abreu, e Sábado em Copacabana, de Dorival Caymmi e Carlos Guinle, uma das duas canções que Gogô se arrisca no canto (a outra é Chegaste, canção de sua própria autoria). "Não sou cantor de ofício. Estava tão nervoso que gravei com as mãos no bolso. Em barzinhos sempre toquei e cantei por ser algo informal, mas em um disco a ‘responsa’ é imensa", diz, aos risos. Alessandro Penezzi completa o quarteto de ex-alunos, interpretando uma música sua, Lacaniana, com Gogô. Alaíde Costa, Proveta, Toninho Carrasqueira e Guinga são apenas alguns dos outros destaques de peso no disco nascido maduro.

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