Clayton de Souza/Estadão
Clayton de Souza/Estadão

Pianista clássico lança álbum-aplicativo dedicado a compositores brasileiros

Para Antônio Vaz Lemes, tecnologia pode ajudar artistas a conquistar novos públicos

João Luiz Sampaio, O Estado de S. Paulo

29 de março de 2014 | 16h00

Antônio Vaz Lemes iniciou 2012 pronto para realizar seu sonho - e de todo jovem pianista: gravar seu primeiro disco. Ao longo de uma semana, em uma igreja no interior da França, registrou peças de um repertório todo dedicado a compositores brasileiros.

Na volta ao Brasil, porém, uma surpresa. Seu irmão lhe mostrou o novo disco de Björk. Biophilia, na verdade, era um conjunto de dez aplicativos para a internet, cada um dedicado a uma faixa e dialogando entre si, propondo uma nova experiência auditiva.

"Ali tive um estalo. Minha geração sempre teve um amor pelo disco, mas o jovem de hoje não tem mais isso. E, se quero chegar nele, preciso ir onde este novo público está", conta ele, hoje com 34 anos.

Assim, o primeiro CD do pianista acabaria se tornando Sonata Brasileira, o primeiro álbum-aplicativo da música clássica nacional, agora lançado.

Vaz Lemes não esconde: não sabe qual o resultado comercial que um produto desse pode ter. Mas está certo de que é hora de pensar na tecnologia como um caminho incontornável - no que faz parte de um contexto que já inclui algumas das principais instituições musicais do País, como a Osesp, que já criou inclusive um selo digital, e o Teatro Municipal de São Paulo.

O álbum-aplicativo Sonata Brasileira já está disponível para download no sistema iOS e, a partir do dia 25 de abril, também no sistema Android. “A música clássica sempre olhou antes para a indústria do que a música popular, por exemplo. Os primeiros vinis eram eruditos! Temos muito conteúdo para expor, mostrar. Basta, agora, entender e se apropriar das plataformas trazidas pela tecnologia”, diz o pianista.

O álbum-aplicativo traz peças de Camargo Guarnieri, Villani-Côrtes, André Mehmari e Marcelo Amazonas - as dos dois últimos, encomendadas especialmente para o projeto. Ao acessar cada peça, o ouvinte encontra conteúdo extra: áudios com análises dos compositores ou outros músicos; a partitura; fotos; e texto do compositor e professor Leonardo Martinelli, comentando as peças. A programação visual é de Nivaldo Godoy, as fotos, Marjorie Sonnenschein - e a narração ficou a cargo de um dos grandes nomes do piano nacional, Gilberto Tinetti.

"Não importa a época em que vivemos, o interesse das pessoas pelo belo persiste. A questão é que hoje o acesso à música é diferente. Trabalho com jovens e adolescentes, e o que percebo é que a música chega a eles pela internet, pelo celular, pelo smartphone, tem que estar disponível em três, quatro cliques. E, no que diz respeito aos clássicos, vejo que eles sentem a necessidade de mais do que o áudio. Querem ver fotos, vídeos. Depois que absorvem a música em si, se dão conta de que não precisam disso para entendê-la e aproveitá-la, mas todo esse material extra ajuda na aproximação com obras que são mais longas, exigem outro tipo de atenção."

No ano passado, Vaz Lemes participou de um outro projeto, iniciativa do Brasil Piano Masters, chamado Tribos e coordenado pelo pianista Hudson Souza. Ele e mais sete pianistas gravaram clipes para grandes peças do repertório clássico - buscando aspectos e cenários inusitados ou, ao menos, não comumente associados ao universo clássico. 

Em seu vídeo, Antonio faz dialogar uma peça de Camargo Guarnieri com imagens de uma construção - e a obra foi indicada para melhor vídeo na 20.ª Mostra do Festival MixBrasil. Leonardo Hilsdorf, por sua vez, interpretou Stravinski em um piano instalado no hall da Estação da Luz - e, enquanto ele tocava, artistas de street dance criavam uma coreografia em tempo real. O Beethoven de Erika Ribeiro inspirava um universo de formas digitais que saíam de seu piano; o Debussy de Silvio Baroni era acompanhado da criação de grafites, por Chivitz; já Juliana D’Agostini e o rapper Projota criaram juntos uma versão para Rachmaninoff.

Todos os vídeos foram feitos para a internet e disponibilizados no YouTube. E o objetivo, expresso no site do projeto, era “democratizar o acesso da população à audição e apreciação de música erudita, formar plateias e desenvolver oportunidade de expressão para os excelentes pianistas brasileiros".

"O interesse que as pessoas demonstraram ao parar para curtir e tentar entender o que estava acontecendo, mesmo em um local onde a maior parte dos passageiros está sempre com pressa, apenas comprova o que eu acredito ser uma das teses que deram origem ao projeto: a música clássica é ainda relativamente pouco consumida porque não é acessível o suficiente", diz Hilsdorf, pianista de 25 anos. 

Para ele, pensar maneiras de atingir novos públicos é um desafio para o pianista de hoje. Vaz Lemes concorda. Lembra que perguntou certa vez a Tinetti, seu professor, se em sua época também era tão difícil para um pianista jovem conquistar seu espaço. “Ele disse que não, não era tão ruim. Hoje, há muitos pianistas, e são excelentes. O desafio para mim é chegar no jovem. A música clássica olha muito para trás. É preciso hoje costurar uma estratégia de atuação no mercado que inclua a internet, o jovem. A tecnologia tem que ser um trunfo.”

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