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Pianista Alfred Brendel lança palestras em DVD

Eventos foram realizados no Festival de Salzburgo, em 2010

João Marcos Coelho/ESPECIAL PARA O ESTADO,

30 de dezembro de 2011 | 22h30

"O prazer de investigar e aprender não tem fim." Dois anos depois de se despedir dos palcos em 2008, aos 77 anos de vida e 57 de carreira discográfica, Alfred Brendel repetiu sua regra de ouro nas três palestras realizadas no Festival de Salzburgo em 2010, agora disponíveis em DVD duplo Unitel. Em forma, desfruta a posição de "mestre dos músicos". Um dos maiores pianistas do nosso tempo, o austríaco Alfred Brendel também é poeta, pintor e ensaísta de primeira. Raro homem de cultura, não apenas toca, como pensa a música de modo consistente e às vezes com originalidade.

Ex-aluno de Edwin Fischer e Edward Steuermann, delimitou desde o início seu universo musical. Entre Philips e Decca, suas gravadoras por cinco décadas, gravou três integrais dos concertos e duas das sonatas de Beethoven. Também gravou Schubert, os concertos de Brahms, além de Haydn, Mozart, Liszt e Schumann. Do século 20, aprecia Schoenberg e o húngaro Gyorgy Ligeti. Musicalmente, é um iluminado. Quando o assunto é a trinca clássica vienense, fala com absoluta pertinência.

É isso que faz as delícias do DVD duplo Alfred Brendel on Music: Three Lectures. Você se sente na plateia do Festival de Salzburgo em 2010, com direito a quase quatro horas de convivência íntima com o pianista.

Humor. A mais divertida, sem trocadilho, é a primeira palestra: "A música clássica precisa ser inteiramente séria?" Não há indicação no folheto do DVD, mas ela já havia sido feita 27 anos atrás, na Universidade de Cambridge, o que não tira seu brilho. Com bandagens em vários dedos das mãos, Brendel fala e toca sobre o humor na música pianística.

Irônico, faz as caretas e bocas que economizou nos concertos convencionais para salientar os toques cômicos de peças de Haydn, Mozart, Beethoven e Ligeti. "A música cômica mais convincente é a dos clássicos vienenses e de alguns compositores do século 20." Estranha o ritual tácito do concerto que proíbe o público de rir mas lhe permite tossir à vontade. "Alguém deveria pesquisar por que a pessoas tossem tanto nas salas de concerto." Haydn acreditava que o "humor que toma conta da gente e nos domina" é sinal de muito boa saúde. Em todo caso, é humor criptografado, pois pressupõe que o público conheça as regras que estão sendo esculhambadas. Diderot, lembra Brendel, dizia que os artistas são como os criminosos: desafiam as regras. O melhor momento acontece quando Brendel enfoca o final da sonata em sol maior Op. 31, nº 1, de Beethoven: "Há uma sucessão de tempos com adágios quase lentos demais e pausas quase longas demais, seguidas por um presto que tenta recuperar comicamente os 30 segundos perdidos anteriormente." Toca o trecho e decreta: "O pianista que não conseguir provocar o riso no final desta sonata deveria tornar-se organista."

Na segunda palestra, "Caráter musical nas sonatas de Beethoven", Brendel recorre a Schoenberg para provar sua tese de que o caráter, ou seja, o impulso extramusical, programático, ainda é válido nestes tempos pós-estruturalistas, para se pensar a obra musical. Saber que o compositor quis retratar um afeto, estado d’alma ou aspectos da natureza ajuda o intérprete a compreender melhor a obra - tanto quanto esmiuçar sua forma e estrutura, como querem os modernos. "Schoenberg colou o título ‘a vida era tão fácil’ no primeiro movimento de seu concerto para piano." Toca um trecho e conclui: "Uma das tarefas mais gratificantes dos intérpretes é detectar esta motivação psicológica, mesmo quando o compositor não a indica expressamente, ou é impossível de ser traduzida em palavras".

Armadilhas de interpretação. Sem medo de ir contra a corrente, acentua que devemos agradecer estas ajudas verbais. "O intérprete jamais deve pensar que o entendimento da estrutura da peça vai lhe permitir compreender automaticamente o caráter da peça. O intérprete fará bem em considerar caráter e estrutura como duas funções que emanam de diferentes fontes, com a esperança de que um dia se unam em um ponto no qual a dor da interpretação poderá se transformar em alívio e satisfação."

Ao expor as dez armadilhas que desqualificam a interpretação musical na terceira palestra, Brendel relembra a definição de intérprete que ouviu de seu professor Edwin Fischer: dar vida a uma obra sem violá-la. É errado pensar que a música só existe quando transformada em som. "Não, a obra vive antes disso, de forma latente, encapsulada na partitura. Durante a performance, manifesta-se. O intérprete tem o privilégio de despertar a obra com um beijo, nada mais nada menos do que um beijo."

Bate na interpretação historicamente informada. E lista cacoetes a evitar: os diminuendos nas repetições de frases e finales; acentuação estereotipada dos compassos pesados; a ideia de que é preciso tocar sempre as repetições; aumentar o volume quando a música sobe e diminuir quando desce; o destaque automático das vozes extremas do piano. Estas são algumas das armadilhas. As outras, com exemplos magnificamente tocados por Brendel, estão nos DVDs, que são, numa palavra, imperdíveis.

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