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Philippe Jaroussky fala sobre seus concertos dedicados a Vivaldi

O contratenor francês se apresenta nesta terça, 11, e na quinta, 13, na Sala São Paulo

João Luiz Sampaio, Especial para O Estado de S. Paulo

11 de novembro de 2014 | 03h00

É uma voz aguda, que se assemelha à de uma mulher – ou, dependendo do caso, a de um jovem menino cantor. A diferença é que ela é emitida pelas cordas vocais de um homem adulto, o contratenor, registro vocal que, nos últimos anos, ganhou enorme popularidade pela atuação de uma geração particularmente rica de intérpretes. E, nesse contexto, destaca-se o francês Philippe Jaroussky que, aos 36 anos, é um dos mais importantes cantores líricos da atualidade – e faz nesta terça, 11, e na quinta, 13, na Sala São Paulo, dois concertos acompanhados do Ensemble Artaserse, do qual é criador.

Jaroussky vai interpretar, encerrando a temporada da Sociedade de Cultura Artística, um repertório inteiramente dedicado a Vivaldi, que está também em seu mais recente disco, que a Warner Classics lança este mês, Pietà. No encarte do álbum, ele escreve que sentiu uma necessidade “física e vocal” de retornar ao compositor. “Eu estava com 21 anos quando minha carreira de fato começou”, ele explica, em entrevista ao Estado. “E, naquele momento, Vivaldi foi um autor muito importante para mim. Ele permitia o equilíbrio entre a minha voz e o som orquestral. Com o tempo, porém, outros autores foram aparecendo e nos afastamos. Até que senti que era hora de recuperar nossa relação.”

Jaroussky nasceu em Paris e, aos 11 anos, começou a estudar violino – apesar, ele lembra, de ouvir de muitas pessoas que, para ter uma carreira, precisaria ter se dedicado ao instrumento desde muito mais cedo. Aos 18 anos, porém, ele assistiu a um concerto de música barroca com a participação do cantor Fabrice di Falco. O impacto provocado pela deslumbrante voz cristalina de soprano foi enorme. E ele soube, então, o que queria fazer, com uma vantagem: para um cantor, 18 anos ainda era bastante cedo. Após ter aulas com o professor de Di Falco, ele passou a ser orientado pelo contratenor Gerard Lesne e, após a primeira aparição pública, cantando um oratório de Scarlatti, já seria convidado a participar de uma série de concertos dedicada a Monteverdi. 

Sua carreia seguiu, a partir de então, um ritmo vertiginoso. Ele logo trabalharia com William Christie, maestro especializado no repertório barroco, com quem gravaria alguns discos. E passaria a ser celebrado por colegas ilustres, como a meio-soprano italiana Cecilia Bartoli. “Quando o ouvi pela primeira vez, fiquei impressionada com sua musicalidade e sensibilidade. Há uma beleza no seu fraseado e uma delicadeza, ou mesmo fragilidade, em sua alma que toca o ouvinte profundamente”, disse ela em entrevista recente ao The New York Times.

Aos 24 anos, Jaroussky resolveu criar, ao lado de alguns colegas músicos, uma orquestra que pudesse acompanhá-lo em algumas de suas apresentações. Ele é bastante franco com relação ao que motivou a ideia. “Às vezes, você se sente pronto para cantar um repertório específico, e é um pouco frustrante ter que esperar um maestro convidá-lo para poder fazê-lo. E tem outra coisa. Em um rotina de trabalho que, muitas vezes, se limita a dois ou três ensaios, a chance que você tem de estabelecer de fato uma relação artística com um maestro e seus músicos é pequena. E a consequência disso é que nem sempre o resultado o deixa feliz. Mas não importa: você tem que subir no palco e cantar do mesmo jeito. É por isso que ter um grupo de músicos com quem você trabalha regularmente é especial.”

E isso, diz Jaroussky, é particularmente verdade no repertório barroco e na obra de Vivaldi. Assim, no momento em que ele e o Artaserse resolveram que era hora de refinar a sonoridade do conjunto, acabaram se voltando à produção do compositor – Jaroussky também rege, mas prefere dizer que ele e seus músicos cooperam na busca de uma interpretação. “Eu trabalhei com grandes maestros e eles me ensinaram muito. No caso de Vivaldi, o mais importante talvez seja o autocontrole. Canso de ver artistas tentando acrescentar algo às notas, buscar uma espécie de sofisticação forçada. Mas, para mim, basta de verdade olhar a partitura. E perceber como tudo o que o cantor faz está, de alguma forma, sugerido no que a orquestra toca. Perceber isso, participar desse diálogo, mais do que qualquer outra coisa, é o que me faz crescer muito como músico”, diz.

PHILIPPE JAROUSSKY 

Sala São Paulo. Praça Júlio Prestes, 16, Campos Elíseos. 

Telefone 4003-1212. 3ª e 5ª, às 21 h. R$ 50/ R$ 455. 

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