Fernando Aceves
Fernando Aceves

Philip Glass fala sobre ópera em streaming e trilhas sonoras

Norte-americano se apresenta em São Paulo

Ubiratan Brasil, O Estado de S.Paulo

06 de setembro de 2017 | 06h02

O americano Philip Glass é um compositor versátil. Aos 80 anos, um dos mais bem sucedidos e prolíficos criadores do planeta ostenta um currículo com mais de 20 óperas, oito sinfonias, inúmeros concertos para violino, piano, além de mais de 30 trilhas sonoras de filmes. Para ele, a música tem um apelo duradouro porque oferece um sentido de auto expressão que transcende a linguagem. É o que Philip Glass vai apresentar no concerto Estudos Completos para Piano, que será apresentado na Sala São Paulo no dia 16 - antes, na noite de 14, acontece uma apresentação na Cidade das Artes, no Rio de Janeiro.

Trata-se de um evento do projeto Mais Piano, que festeja as oito décadas do compositor. Glass vai se apresentar ao lado de quatro pianistas convidados: a japonesa Maki Namekawa, a tailandesa-americana Jenny Lin e os brasileiros Ricardo Castro e Heloísa Fernandes. Os cinco vão se revezar na execução das 20 peças dos estudos compostos por Glass entre 1994 e 2012 e que tiveram estreia em 2013, na Austrália, como programa completo.

“Minha primeira intenção ao criar essas peças foi a de explorar uma variação de técnicas e texturas do piano”, comentou Glass ao Estado na tarde de ontem, em entrevista telefônica desde Nova York. “Mas também aproveitei para me exercitar como pianista - a improvisação é um exercício intelectual muito forte e, em alguns casos, resultou em um trabalho artístico."

Philip Glass tem uma assinatura musical muito característica, marcada pela reiteração de células melódicas, harmônicas e rítmicas, na linguagem singular que cunhou como “música com estruturas repetitivas” e que costuma ser chamada de “minimalismo”, termo que ele mesmo não aceita. Um exemplo clássico - e que o tornou mundialmente conhecido - é a trilha sonora do filme Koyaanisqatsi, dirigido por Godfrey Reggio, em 1982, e cujas imagens, exibidas em uma hipnótica velocidade aumentada, casaram com perfeição com a melodia em repetição.

A origem do interesse por tal musicalidade remonta aos anos 1960, quando Glass, então estudando em Paris, entrou em contato com a música de Ravi Shankar e com poesia devocional de Rûmî, que se confunde com o amor humano e que encantou o compositor americano a ponto de, em 1997, ter criado o Monstros de Graça, espetáculo em que são declamados 16 de seus poemas em meio a um show de computação gráfica. “Ele ensina que a nossa capacidade de amar nos fornece uma conexão com o divino”, comentou o músico, na época.

Glass é um artista antenado com seu tempo. Questionado sobre o que pensa sobre a recente onda de exibição de óperas e concertos sinfônicos exibidos ao vivo em salas de cinema, Glass abre um sorriso (é possível perceber o gesto pelo som, mesmo com a longa distância) e responde rápido. “Sou plenamente favorável, especialmente depois que a tecnologia avançou e permitiu que os cinemas fossem munidos com ótimos aparelhos de som”, observa. “Também torna a arte mais democrática - quando isso acontece, por exemplo, no Hollywood Bowl, em Los Angeles, onde cabem mais de 15 mil pessoas, a divulgação é fantástica e temos a chance de colocar mais pessoas em contato com a arte. Considero isso particularmente importante em cidades do mundo que não contam com casas capacitadas para receber uma orquestra sinfônica, por exemplo. Felizmente, não é o caso de São Paulo e Rio, que estão muito bem servidas de casas do gênero.”

Como o assunto migrou para o Brasil, torna-se inevitável questionar o compositor sobre sua relação com a música nacional. Historicamente, é longa e intensa. Em 1989, Glass compôs Itaipu, para coro e orquestra. Naquele mesmo ano, iniciou uma parceria com o encenador Gerald Thomas, com quem trabalhou na ópera Matogrosso e em peças como Carmem com filtro 2. Outra peça para orquestra, de 1997, reflete suas impressões sobre a maior favela da América do Sul: Days and Nights in Rocinha. Também, o grupo mineiro Uakti trabalhou com o americano, em Oito Peças para um Ballet, para o Grupo Corpo. Sua última passagem pelo Brasil aconteceu em 2011, quando tocou em duo com o violinista Tim Fain em Olinda e São Paulo.

Glass também cultiva uma amizade fraterna com a diretora e produtora brasileira Monique Gardenberg, para quem criou a trilha sonora do filme Benjamim e da peça Fluxorama. O cinema, aliás, é um meio pelo qual o compositor transita com facilidade. “Trabalho muito com encomendas, o que me obriga a me prender no desenrolar da trama e nas intenções do diretor”, comenta. “Mas é importante observar a diferença entre a música de alta tecnologia e a comercial, que são como diferentes idiomas. Gosto de dizer que sou como um pintor, que faz pintura abstrata em casa, mas que não deixa de ir às ruas e fazer esboço das pessoas passeando.”

Glass gosta do contato com o público e, no dia 17, fará uma apresentação gratuita ao ar livre, no Auditório Ibirapuera. No programa, trechos da trilha do filme Mishima, entre outras peças.

PHILIP GLASS

Sala São Paulo. Pça. Júlio Prestes, 16. Tel.: 3367-9500. Sáb. (16/9), 21h. R$ 10/ R$ 250

Auditório Ibirapuera. Pq. do Ibirapuera. Dom. (17/9). 18h. Grátis

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