Como guitarrista e compositor do The Who, Pete Townshend é um dos músicos mais influentes da história do rock 'n' roll. Foto: Jill Furmanovsky/NYT
Como guitarrista e compositor do The Who, Pete Townshend é um dos músicos mais influentes da história do rock 'n' roll. Foto: Jill Furmanovsky/NYT

Aos 70 anos, Pete Townshend está mais ocupado do que nunca

Guitarrista britânico não pensa em parar e engata novos projetos, como uma adaptação clássica de 'Quadrophenia' e uma nova compilação dos seus trabalhos solo, além da turnê com o The Who

Entrevista com

Pete Townshend

Gary Graff - The New York Times, The New York Times

30 Julho 2015 | 09h44

NOVA YORK - Peter Townshend jamais superará o vexame de ter escrito a letra "Hope I die before I get old" para o álbum My Generation (1965), do The Who. Ainda bem. Townshend está vivíssimo aos 70 anos e, além da música icônica que fez desde então, com o Who e sozinho, ele está tão ocupado hoje como nunca esteve, mais ocupado do que muitos músicos com uma fração da sua idade.

Só este ano, Townshend e Roger Daltrey, os dois membros sobreviventes do Who, estão na estrada celebrando o 50º aniversário da banda. Townshend também capitaneou o lançamento e produção ao vivo de Classic Quadrophenia, uma adaptação orquestral da opera rock de 1973 do Who. Ele começou a relançar seu catálogo solo com uma compilação, Truancy: The Very Best of Pete Townshend, que inclui um par de canções novas em folha. No horizonte, há um projeto multimídia, originalmente chamado Floss e agora batizado The Age of Anxiety, no qual Townshend pretende se concentrar após concluir a turnê atual do Who.

“Tem momentos em que eu sinto que devia desacelerar”, admitiu Townshend com uma risada, falando por telefone de Manhattan, onde o Who estava se apresentando. “Tem momentos em que eu digo que vou desacelerar, mas não cumpro. Eu me surpreendi ao começar a escrever e registrar muita música que gostaria de ver na rua.”

“Se isso vale a pena fazer ou não eu não sei”, ele continuou, “porque acho que se lanço um disco, vou ter de ficar por trás dele, e acho que no fim deste ano, tendo feito 75 shows com muita espera para entrar no palco, eu provavelmente estarei um bagaço. De modo que, vamos ver.”

“Há decididamente muita coisa a ser feita, porém, e isso é empolgante e inspirador para mim a esta altura da vida.” Townshend, que nasceu em Londres, também é um ativo escritor de prosa que escreveu vários livros, começou sua própria editora Eel Pie Publishing e trabalhou como editor de aquisições para a Faber and Faber, e este ano empenhou muita energia para impulsionar Classic Quadrophenia, um projeto nascido de um esforço para encomendar partituras clássicos de suas obras.

“Eu queria tudo que chamo de ‘propriedades de grandes direitos’ – não só coisas do Who como Tommy (1969) ou Quadrophenia (1973), mas também outras coisas como Psychoderelict (1993), The Iron Man (1989) e algumas coisas nas quais estou trabalhando agora”, explicou Townshend. “O que eu queria era partituras orquestrais do que eu gostava e que poderia por num arquivo e, portanto, quando o entusiasmo pela música elétrica passasse, esta música sobreviveria.”

Com sua namorada, Rachel Fuller, orquestrando a obra, Townshend foi um participante ativo na gravação de Classic Quadrophenia com a Royal Philharmonic Orchestra e o London Oriana Choir, conduzidos por Robert Ziegler. Ele toca no álbum também, e canta em The Punk Meets the Godfather, embora os vocais principais sejam do tenor britânico Alfie Boe, um amigo de Daltrey, que Townshend sentiu que aplacaria qualquer decepção que seu colega do Who poderia ter por não estar envolvido no projeto.

Townshend ficou aborrecido porque o álbum foi julgado impróprio para os catálogos de clássicos britânicos – “Esnobismo musical na elite clássica ainda vivo”, ele fuzilou no Facebook – mas estreou em segundo lugar na lista do Billboard Classical Crossover nos Estados Unidos. Ele ficou particularmente satisfeito por ter recebido aprovações da comunidade clássica, que acolheu calorosamente o projeto. “Algumas pessoas com quem conversei e que dirigiram orquestras, particularmente nos EUA, mas também no Reino Unido e na Europa, ficaram realmente empolgadas com a ideia de ter algo como Quadrophenia disponível para grandes orquestras”, ele disse.

“Acho que eles esperam tocar isso entre o repertório estabelecido de Bach, Wagner e Mozart e material mais radical de compositores contemporâneos, e trazer para as salas de concerto pessoas que, não fossem isso, não viriam e poder descortinar um mundo para elas.”

The Age of Anxiety de Townshend também está bem adiantado – já está há alguns anos agora – mas ele não vê um fim à vista. “Estou muito contente com o projeto”, disse ele. “No fim das contas, será um concerto, uma exposição de arte ou, quem sabe, um livro. Talvez as três coisas. É uma peça realmente desafiadora para mim, mas estou avançando. Espero que esteja pronta em 2017. Veremos.”

Ele também fala em reviver a Thunderclap Newman, sua banda lateral de fins dos anos 60 e início dos 70, que fez sucesso com o single Something in the Air (1969).

Nada disso significa que ele está prestes a decretar o fim do Who. Embora Townshend tenha admitido que “é um exagero chamar o que fazemos de ‘o Who’ apenas com ele e Daltrey do grupo original, ele ainda acha que há trabalho a ser feito que pode se encaixar sob essa bandeira. “Ainda tem coisas que podemos fazer”, disse Townshend. “Acho que Roger cresceu de várias maneiras diferentes e, em certo sentido, está aprendendo como conduzir uma luta pelo poder dentro da banda porque somos apenas ele e eu. Não são quatro pessoas. Ele não está num canto lutando para se expressar. Somos apenas ele e eu agora, por isso, se ele e eu nos sentamos para conversar, se discutimos música ou projetos ou álbuns ou canções que poderíamos fazer, é muito mais igual do que foi no passado, e assim eu penso, para nós dois, isso significa uma completa reavaliação de nossa maneira de trabalharmos juntos.”

“Portanto, creio que por trás dessa bandeira (Who) as coisas mudaram”, disse o guitarrista, “e que poderia ser espinhoso para nós elaborarmos o que fazer em seguida. Mas preciso dizer que nós dois estamos muito empolgados com o que podemos fazer. Por isso, acredito que faremos outras coisas além do grande aniversário, e para mim isso teria de ser novo. Teria de ser completamente à parte de tudo que fizemos no passado. Isso pode ser espinhoso.”

“E se fizermos um álbum juntos ou o que for, seria estúpido não chamá-lo de trabalho do Who”, disse Townshend. “Seria tão Who quanto qualquer coisa que já fizemos.” / TRADUÇÃO CELSO PACIORNIK

Veja e ouça os novos trabalhos de Pete Townshend:

Classic Quadrophenia – Love Reign O’er Me ft. Alfie Boe

Guantanamo (música inédita lançada em 2015):

Pete Townshend: Classic Quadrophenia (Trailer)

The Who - Who Are You (Glastonbury Festival 2015)

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