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Persona complexa e movediça de Jimi Hendrix torna biografias um risco

Ele era um delirante que tinha um propósito: fazer a guitarra falar

Jotabê Medeiros, O Estado de S. Paulo

22 de novembro de 2014 | 03h00

Como é amplamente sabido, Jimi Hendrix só levou quatro anos para construir seu mito. E, desde sua morte em Londres, em 1970, nós já levamos outros 44 anos debatendo sobre o que o tornou eterno. 

A própria definição da identidade de Hendrix é movediça. Negro de sangue índio, bluesman de delírios siderais, pagão de performance espiritual, ocidental de circularidade oriental. Criador de um novo léxico na guitarra, tornou sua música (e sua vocação para a moda flamboyant) um veículo para mudanças comportamentais, políticas e sensoriais. Revolução da qual não desfrutaria.

Muitas biografias tentaram arrematar esse retrato. Room Full of Mirrors, de Charles R. Cross, insinuava que Jimi era insone, suicida potencial e bissexual. O irmão mais novo de Jimi, Leon (ex-viciado), lançou há 2 anos A Brother’s Story, um apanhado de memórias sentimentais da infância (ele conta, inclusive, que Jimi era chamado de Buster, tributo a seu ator de filmes de ficção científica, Buster Crabbe). 

Hendrix, o próprio, tinha consciência de que sua memória estava mais na linguagem do que na sua infância problemática ou na vertiginosa queda em um círculo cheio de drogas e sexo. “Eu não estou aqui para destruir nada. Vocês ainda terão os Beach Boys e The Four Seasons para tocar o barco adiante”, disse o músico.

Nascido Johnny Allen Hendrix em 27 de novembro de 1942 em Seattle, Washington, Jimi foi batizado pela mãe, Lucille, que tinha sangue de índio cherokee. Seria rebatizado quatro anos depois pelo pai (infiel à mãe de todas as formas), Al Hendrix, como James Marshall Hendrix. Sua trajetória pela música, até o reconhecimento internacional em Londres, foi curta e inquestionável. “O rock jamais tinha experimentado antes essa mistura especial de verve, sexualidade e crueza”, dizia texto no encarte da caixa The Jimi Hendrix Experience, em 2000.

Jimi estabeleceu uma conexão xamânica, selvagem, com os rincões da América e com as possibilidades futurísticas da música. “A ideia de tocar com os dentes me veio lá no Tennessee”, ele contou. “Lá embaixo, ou você toca com os dentes ou eles te enchem de bala”, ele contou. 

O que Jimi dizia fazia sentido (e é com base em sua própria versão das coisas que esse novo livro, Jimi Hendrix Por Ele Mesmo, foi feito), mas era preciso ligar os pontos. Era um delirante que tinha um propósito: fazer a guitarra falar, e a voz que ele arrancaria dela não seria uma voz humana conhecida. “Quero ser o primeiro homem a compor blues em Vênus”. Ou: “Eu gosto de observar os raios”. Ou seja: não é possível começar do zero para compreender sua música, porque ela o antecede e o precederá até o final dos tempos.

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