PercPan termina com Rap, terreiro e Lepo Lepo

Vigésima edição terminou no domingo; segunda noite foi a grande surpresa do festival

Julio Maria, O Estado de S.Paulo

28 de julho de 2014 | 20h31

 Se fossem teorizar sobre si mesmos, pensando em como é que podem deslocar o tempo forte de lugar a qualquer instante ou criar uma massa nova sobrepondo paredes de tumbadoras a solos de bateria, os jovens percussionistas do Aguidavi do Jeje entrariam em parafuso. Muita informação para se explicar o inexplicável: o “jazz” percussivo que criam esses meninos sai dos terreiros e do instinto.

O grupo liderado pelo percussionista Hunto Luizinho abriu, no domingo, a última noite do PercPan, o panorama percussivo mundial que, em sua 20.ª edição, voltou para a casa, Salvador, onde fez suas primeiras aparições. Seu mote, a percussão como cultura além da própria música, parece inesgotável. As atrações que apareceram não tinham obrigatoriamente a percussão na linha de frente, mas em sua essência.

O sobrevoo deste domingo foi o mais livre. Seu recorte, pensado pelos curadores Alê Siqueira, Letieres Leite e José Miguel Wisnik, tinha o nome Das Matrizes às Batidas Contemporâneas. Assim, começou com as raízes afro de muito impacto do Aguidavi e terminou com o rap de peso de Marcelo D2. As atrações pop, criticadas por quem defende um 'PercPan de raiz', mais voltado para os grupos de percussão pura, entraram por uma necessidade de formato. Os shows feitos agora em praça pública, pensam os organizadores, precisam de uma isca graúda por noite.

Assim como Mano Brown na sexta, quando chegou com seu projeto dançante Boogie Naipe, D2 foi abraçado pelo conceito sem fazer força. Garantiu seus melhores momentos ao lado de Fernandinho Beat Box, o impressionante simulador vocal de batidas de rap e baterias de escola de samba, mas não preparou um show especial.

Marcio Victor, do Psirico, esteve por lá. Havia prometido que não cantaria o 'Lepo Lepo', seu hit mais avassalador do último verão, mas foi surpreendido pelos integrantes do grupo Samba Chula de São Braz, que puxaram a música em formato samba de roda baiano. Victor levou ao palco o que pode ser considerado a velha guarda do samba do Recôncavo, mas assumiu sua postura de liderança. Depois do show, falou com os repórteres. “Neste momento, me importo mais com projetos como esse do que com minha própria carreira.” A noite teve ainda o Percussivo Mundo Novo, Gabi Guedes e Dj Cia (com Opanijé, Nelson Maca, Jorjão Bafafé e João Teoria) e o grupo Simples Rap’ortagem.

Balanço. A segunda noite se consagrou como a melhor, a mais bem resolvida do panorama. As mulheres da Galícia trouxeram sua cultura de séculos, criada por aldeãs do noroeste da Espanha. E as senhoras baianas do Ganhadeiras de Itapuã emocionaram mesmo um público que as conhece há tempos (embora só agora elas lancem seu primeiro disco, produzido por Alê Siqueira). Houve ainda Margareth Menezes, mas a melhor aposta foi deixar o fechamento para a cantora da Guiné, Sayon Bamba. No primeiro dia, o festival pecou pelo excesso de grupos vocais seguidos, três, o que cansou o público. Mano Brown no encerramento foi a notícia do dia, mostrando praticamente em primeira mão o repertório de seu disco solo, previsto para sair no ano que vem.

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