Pepe Deluxé sacode o marasmo pop

Quem tem mania de rotular gêneros, correntes e tendências musicais, ou algo que o valha, certamente vai encontrar dificuldade em classificar o estilo da dupla finlandesa Pepe Deluxé. Ouvintes familiares com a cobertura de música pop já devem ter lido isso sobre umas 500 bandinhas que a todo momento surgem para ?salvar? o planeta pop, como propagam os semanários britânicos. De qualquer maneira, os próprios integrantes do duo não conseguem nem querem se definir. ?Um dia vamos descobrir exatamente o que é Pepe Deluxé e nesse dia nós vamos matá-lo, porque ele é todo sobre descoberta e aventura. É sobre a jornada, não o destino?, dizem James Spectrum, produtor e responsável pelas programações eletrônicas, e JA-Jazz, que abastece a parte instrumental orgânica.Bem, o que está em foco é uma tal ?odisséia esquisita para dentro dos sons do amanhã? a que eles desafiam o ouvinte a seguir em Beatitude (ST2 Records), seu segundo álbum. Acima das ambições de quem ?volta no tempo para salvar o futuro?, a música da dupla é realmente cheia de surpresas a cada curva e encontra harmonia no caos. Ambos são do tipo que enjoam facilmente das coisas e detestam se repetir. Compuseram as 19 faixas do CD juntando blocos e fragmentos. O processo, na verdade, é mais complexo do que os paradoxos do resultado do disco. É o que se pode chamar de experimentalismo consumível. Até aí nada de novo, mas vale o embarque, embora a sessão seja longa (mais de 75 minutos) e a certa altura a brincadeira perca um pouco a graça.Com a saída do DJ Slow ? que participou do promissor primeiro álbum Super Sound, de 1999, inédito no Brasil ?, James e JA decidiram usar menos o sampler e convidaram músicos de várias partes do mundo para participar do projeto. Vai daí que receberam gravações de um baterista de jazz da Finlândia, vozes de cantores da Síria, Cuba e Inglaterra, uma sessão de cordas gravada na Rússia, coisas do Paquistão, da Suécia.Jazz, soul, folk, blues, variações de rock (noise, punk, surf), baladas etéreas, trip hop e até tango finlandês (sim, isso existe) se alternam a cada faixa. No meio disso cabem música árabe com alusão ao reggae, flerte com a new age, referências a temas de westerns, metais de marcha militar, guitarras distorcidas, levada de salsa boogaloo, teclado melancólico de ficção científica, pianinho entorpecente, sintetizador retrô, scratches e outras manobras e texturas eletrônicas.Girl! vai na fonte de The Presidents, reproduzindo o vocal e a pulsação do baixo de Girl You Cheated on Me. Black Cadillac, o tal tango finlandês, destaca o vocal denso de Antti Raiski, considerado o rei do gênero. Como diz JA, ?tango argentino é fogo, o finlandês é gelo?.O disco todo é cheio de sobreposições de elementos e camadas. Pepe Deluxé não revoluciona nada, mas prova que às vezes a viagem é mais divertida e interessante do que o ponto de chegada. É dessas maluquices que o mundo pop anda precisando para sacudir um pouco o marasmo.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.