Alberto Pellaschiar/Reuters
Alberto Pellaschiar/Reuters

Pavarotti capturou o sublime e o vulgar da ópera, mostra documentário

Documentário Pavarotti, dirigida por Ron Howard, estreia nos Estados Unidos no dia 7; veja o trailer

Zachary Woolfe, NYT

06 de junho de 2019 | 03h00

No caso da ópera, as pessoas passam muito tempo falando pouco. Basta uma ária de 4 minutos para o jovem herói de La Bohème de Puccini se apresentar ao vizinho que bate à sua porta. Por causa desse intervalo de tempo, a recusa em dizer apenas isso, é aberto um espaço em que somos forçados a conviver – às vezes com agonia – com emoções que normalmente passariam em segundos. Nessa ária de La Bohème, 'Che gélida manina', é como se nossa cabeça afundasse num anseio pueril, na timidez cativante de um garoto com uma paixão. É sublime mesmo que – e por causa de – um pouco excessivo, até de mau gosto.

Possivelmente, ninguém na história da ópera é tão sublime quanto kitsch como Pavarotti, nome do novo documentário de Ron Howard a ser lançado na sexta, 7, nos EUA. O filme, como a ária de uma ópera, nos deixa de olhos fixos em Luciano Pavarotti, tenor que, 12 anos após sua morte, continua amado, mas não valorizado o bastante.

Os fãs de ópera se atêm aos seus anos de glória nas décadas de 1960 e 1970, quando sua voz exuberante estava no auge e ele se desafiava no repertório do bel canto. O público mais geral deve lembrar mais dos seus concertos beneficentes de péssima qualidade e os duetos com Bono, como também o prazer do concerto dos Três Tenores, e ele com seu lenço branco na mão e seus intermináveis Dós de Peito.

A importância do novo documentário, e a oportunidade que ele oferece, é o fato de reconhecermos esses dois Pavarottis e desse modo admitirmos que existe um lado da ópera que nós, que a amamos como alta cultura, preferimos ignorar: o seu lado vulgar, bem populista – que nunca foi mais bem representado do que por aquele homem suado, tosco, com cabelo abundante, a barba dispersa e uma sonoridade inesquecível.

Nascido em 1935, Pavarotti surgiu em cena bem a tempo de se aventurar na onda do mercado de massa da alta cultura, na metade do século após a 2ª Guerra. Uma figura encantadora, ele também era, como o filme deixa claro, mais ou menos uma criança em toda a sua vida: amável, arrogante e caprichoso.

Sendo parte da primeira geração a crescer cercada por gravações de tenores como Caruso, Gigli e Martinelli, que ele imitava – Pavarotti nunca aprendeu a ler música. Sua grande sorte foi encontrar Joan Sutherland, soprano australiana que o colocou sob sua proteção com seu marido e regente Richard Bonynge. Sua carreira arrancou, no Metropolitan Opera em 1972, com uma série vibrante de nove Dós na ária de La Fille du Régiment de Donizetti. A ópera, como a ginástica e o balé, entrelaça a perfeição corporal e a “destreza artística”. Desde La Fille até a apresentação na Copa do Mundo, a carreira de Pavarotti – e seus altos e baixos – demonstraram que as duas qualidades são inseparáveis.

Mesmo no seu auge, em passagens que ouço em minha cabeça, ele transportou dentro de si os shows nos estádios dos seus últimos anos. Outros tenores cantaram 'Che gélida manina', essa ária de La Bohème, com mais intimidade, como Jussi Björling na gravação de 1956 regida por Thomas Beecham. Björling cantou a ária como um romance em branco e preto, uma cena de Casablanca. A interpretação de Pavarotti, sob a regência de Herbert von Karajan, está em tecnicolor e tela panorâmica.

Ele inicia a ária cobrindo ligeiramente a voz, quase conjurando um sonho, de modo que consegue nos subjugar na frase seguinte com o contraste da tonalidade mais clara. Seus extremos são mais intensos do que a intimidade refinada de Björling – e mais inferiores. Mas a força vital é emocionante. Quando ele canta que vai dizer a Mimi quem ele é, a nota alta de Pavarotti é tão ressonante que faz sentido que, quando ele pergunta se deve continuar falando, ela emudece. E você também. A ópera é certamente delicada, de bom gosto, mas ao mesmo tempo é o oposto. E Pavarotti é quem mais nos lembra desse aspecto.

Seu colega dos Três Tenores, Plácido Domingo, aparece no filme. Embora a carreira de Pavarotti parecesse, para muitos, um descambar irremediável para o estádio como se para o infortúnio, para Plácido os anos 1990 foram uma mudança temporária. Eles não se desviaram muito na época do seu trabalho operístico “real” e uma vez passada aquela era, Plácido voltou à casa de ópera.

Qualquer pessoa inteligente entenderá o que considero ser um dilema no caso de Domingo. Ele alcançou uma longevidade provavelmente inigualável na história operística; lê música o bastante para se outorgar mais de 150 papéis; ambiciosamente adicionou a regência e a administração de uma casa de ópera ao seu currículo. É o modelo de fato de uma estrela de ópera, tudo o que um crítico poderia desejar.

Mas ao conjurar tudo o que nos leva a amar a arte – às vezes com a combinação censurável do alto e baixo, do elevado e do vulgar, da pureza e do suor – Luciano Pavarotti é quem nos leva para o coração pulsante secreto da ópera. / TRADUÇÃO DE TEREZINHA MARTINO

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