Jayme de Carvalho/AE
Jayme de Carvalho/AE

Paulo Szot, o barítono brasileiro aclamado em Nova York

Ovacionado no Metropolitan de Nova York, nosso cantor revela que vai trabalhar com Almodóvar

Lúcia Guimarães, de O Estado de S. Paulo,

13 Março 2010 | 16h23

"Ainda bem que ele não perdeu o ouvido!" A mulher atrás de mim soltou a exclamação no empurra-empurra que sucedeu a ovação, de pé, à première da ópera O Nariz. Em inglês, ouvido e orelha são a mesma palavra. A mulher se referia à enorme dificuldade oferecida pela partitura atonal cantada pelo protagonista major Kovalyov, vivido pelo barítono brasileiro Paulo Szot, em sua aclamada estreia no Metropolitan Opera de Nova York. Espere aí, o protagonista guapo que se curva aos aplausos não passou os últimos dois anos no teatro ao lado, derretendo o coração da heroína do musical South Pacific?

 

Aqui, vamos aposentar o clichê "o paulista de Ribeirão Pires". Afinal, todo mundo tem que nascer e crescer em algum lugar. Se o glamour do berço e a proximidade ao umbigo urbano do planeta na segunda metade do século 20 equivalesse a uma certidão de nascimento artístico, então Louis Armstrong, Albert Einstein, Laurence Olivier e Philip Roth, entre outros, teriam nascido em Times Square.

 

 

Quantos tenores, barítonos e baixos profundos não gravitam no pensamento em torno do levemente fascista conjunto de prédios no Upper West Side de Manhattan, construído na década de 60, sonhando com a chance de acrescentar à sua biografia a frase "Estreia no Metropolitan Opera"? Quantos?

 

 

 

 

 

A expressão de Paulo Szot, quando o zangado segurança do teatro abriu a porta do camarim, ajuda um pouco a explicar a carreira extraordinária do jovem que embarcou num navio cargueiro para a Polônia aos 18 anos, com planos de ser bailarino. Confesso que a compostura jornalística foi ligeiramente prejudicada pela consciência de que, desde 1937, quando Balduína de Oliveira Sayão, a nossa Bidu, havia despertado reação semelhante, um brasileiro não estreava como protagonista no Met. Ofereci meu cumprimento torcedor e notei a reação que o diretor Bartlett Sher, o primeiro a apostar no carisma de Paulo Szot no palco, havia descrito em 2008, quando Nova York se apaixonou pelo Emile de Becque de South Pacific. Na festa de comemoração pela estreia do musical que faria de Szot o primeiro brasileiro a ganhar um prêmio Tony, Sher me contou que Paulo parecia não entender o que estava acontecendo.

 

Ovação. A esta altura, ninguém mais subestima a inteligência de Paulo Szot. Mas ao sair do camarim em meio à zoeira eufórica do restante do elenco, e justamente quando perguntei "está feliz?", Paulo não deu o menor sinal de que tinha acabado de ser ovacionado por 3.800 pessoas. "Não sei como foi, não vi, estou tão cansado", reagiu com um sorriso subjugado, antes de ser arrastado pela corrente humana para mais uma festa de comemoração.

 

O Paulo Szot que abre a porta do apartamento no 43º andar, numa tarde gloriosa de temperatura amena, já digeriu todo tipo de elogio à sua estreia publicado na imprensa americana e continua desassombrado. Sua primeira ordem de preocupação é saber se o fotógrafo e a repórter não querem um bolinho com o café expresso que se apressa em fazer.

 

Em seguida, diante dos superlativos inevitáveis de quem se depara pela primeira vez com a vista espetacular para o Rio Hudson e o Central Park, o anfitrião quase se desculpa por acordar todos os dias naquele cenário. "Eu sei, eu sei, quando cheguei, exclamei de cara ‘quero a vista’, nem prestei muita atenção no apartamento", lembra-se bem. Para um apartamento alugado por temporada já mobiliado, a decoração não insulta a vista panorâmica. Há gravuras de Alexander Calder e Jean Michel Folon, móveis modernos de cores neutras e o toque dos dois barítonos moradores do lugar, visível nas muitas fotos e vasos de orquídeas. Logo a porta se abre e um sorridente Eduardo Amir vem ao nosso encontro.

 

Ousadias de um barítono

 

Eduardo Amir e Paulo Szot já haviam dividido o palco em produções brasileiras como O Morcego, Carmen, Don Giovanni e O Barbeiro de Sevilha. Eduardo, um carioca do Grajaú, é também conhecido por ter vivido o Harry de My Fair Lady e o Andre de O Fantasma da Ópera.

 

Enquanto Paulo posa pacientemente para as fotos - paciência é uma palavra-chave de sua carreira -, Eduardo, que se recosta na poltrona para a conversa, celebra a atuação recente do cantor com encantamento sincero e não como desfrute vicário do sucesso alheio.

 

Uma das paixões do barítono foi reprimida com a súbita mudança para Nova York. Assim como ele não fazia planos a longo prazo, já está no terceiro apartamento alugado por temporada, não esperava ficar privado de seus cinco cães weimaraners que correm soltos pelo seu sítio em Ribeirão Pires, na região do Grande ABC. Por enquanto, ele mata a saudade pelo Skype e se diverte dizendo comandos online que os cachorros obedecem.

 

Os weimaraners mal desconfiam que um certo Pedro Almodóvar os separa de seu dono elusivo. Paulo Szot foi convidado para viver Ivan na primeira versão teatral de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos, o filme que colocou o espanhol na curta lista de diretores estrangeiros reconhecidos nos Estados Unidos. Mais uma vez, Emile de Becque exerceu sua mágica. Almodóvar foi assistir a South Pacific para se familiarizar com a direção de Bartlett Sher, que também vai dirigir a versão teatral com música e letras de David Yazbek e libreto de Jeffrey Lane. A estreia está marcada para o dia 2 de outubro, desde que Paulo concilie os seus planos de fazer mais uma turnê de ópera no Texas. O espanhol e Szot já participaram de duas leituras juntos, até agora. "Maravilhoso" é a impressão do barítono sobre o diretor.

 

"Quando me convidaram para fazer O Nariz, depois de tanto sonhar com o Metropolitan, recusar seria jogar fora uma oportunidade que poderia não voltar nunca mais", lembra o cantor.

 

Ele concorda quando comento que O Nariz, escrito por Dmitri Shostakovich aos 22 anos, atira o cantor num território de perigo que só um jovem estreando no gênero teria coragem de ousar. William Kentridge, diretor e cenógrafo do espetáculo, lembra que o conto de absurdo de Nikolai Gogol, que inspirou a ópera, trata da singularidade do ser humano e dos terrores da hierarquia. O major, vivido por Szot, acorda um dia sem o seu nariz, que começa a passear impunemente pela São Petersburgo czarista. Enfrentando oito performances de South Pacific por semana, Paulo encarou a partitura durante um ano, preocupado com o desafio, mas sem reverência hierárquica.

 

Como disse o New York Times, se o cantor queria convencer o público de sua versatilidade, não poderia ter feito escolha mais ousada. "Não é como um trabalho de ópera de repertório. A música não entra fácil na cabeça, os intervalos são dificílimos", lembra. "Mais do que garra, era preciso muita paciência", garante ele.

 

Não escapou a Paulo a ironia histórica. Emile de Becque foi criado há 60 anos pela dupla de compositores Richard Rodgers e Oscar Hammerstein especialmente para o barítono italiano Ezio Pinza, que acabara de se aposentar no papel de Don Giovanni no Metropolitan. Embora tenha uma carreira de 20 anos de papéis operísticos, foi Emile de Becque o personagem que instalou Paulo Szot no radar nova-iorquino. Ele fez o caminho da volta no Lincoln Center para sete apresentações que vão mudar a sua carreira.

 

Da janela de seu quarto, o barítono avista os cartazes na fachada dos dois teatros. Uma cruz preta cobre seu nariz no pôster do Metropolitan Opera House. O banner de South Pacific vai receber a estrela pródiga de volta no dia 31 de março. Paulo Szot fica no elenco do musical até agosto, quando deve ser gravado um DVD do espetáculo, e embarca, sem pausa, nos ensaios de Mulheres à Beira de Um Ataque de Nervos. A história de Pedro Almodóvar não poderia receber uma adesão mais serena.

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