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Paulo Chagas volta ao Brasil para apresentar sua obra 'A Geladeira'

Composição é sobre a tortura que o autor sofreu durante a ditadura militar, quando tinha apenas 17 anos

Paula Sacchetta, Especial para O Estado S.Paulo

08 de abril de 2014 | 10h46

No marco dos cinqüenta anos do golpe de 1964, Paulo C. Chagas, o hoje professor de Composição e chefe do Departamento de Música da Universidade da Califórnia, em Riverside, nos EUA, volta ao Brasil para apresentar pela primeira vez sua obra A Geladeira, sobre a tortura que sofreu durante a ditadura militar, quando tinha apenas 17 anos de idade.

Paulo era aluno do Colégio de Aplicação da UFRJ. Entrou na quinta série, em 1965. No ano de 1968, já na oitava, quando os estudantes tomavam as ruas do mundo, ele entrou para o movimento estudantil. O presidente do Centro Acadêmico do qual fazia parte era Franklin Martins, que não muito depois participaria do sequestro do embaixador americano Charles Burke Elbrick, que acabou com a libertação de 15 presos políticos. Segundo ele, o ambiente do colégio era muito politizado e naquela época era quase impossível ficar alheio a isso. Eles produziam o jornal A Forja e eram simpatizantes de grupos da luta armada, como o MR-8 e a VAR-Palmares, dando apoio de “logística” e “segurança” em algumas ações.

Depois de decretado o Ato Institucional no5, o A.I.5, com os militantes da luta armada presos, torturados e assassinados, os estudantes começaram a ser recrutados de fato, para fazer parte das ações. Com 15 anos, Paulo já possuía carteira de identidade falsa, participava de grupos de estudos sobre Marx e tinha encontros semanais com líderes de algumas dessas organizações. Em 1970, percebeu que “tudo estava ficando radical demais”, então partiu para a França, ao encontro de um tio que estava no exílio. Os pais o colocaram em um avião e ele passaria um ano fora para se distanciar de tudo aquilo.

De lá, ao contrário do que imaginava, de ficar longe da política, partiu em busca de novos horizontes. Pegou um barco de Marselha em direção à Argélia. Não tinha dinheiro algum para pagar a viagem então foi lavando os pratos na cozinha da embarcação. Queria conhecer os palestinos da OLP que eram treinados no país. Para ele, Argel era a capital mundial da revolução e do treinamento para a guerrilha e ele queria virar um “militante internacional”. Assistiu à Copa de 1970 ao lado dos 40 presos políticos brasileiros que acabavam de chegar ao país. Em mais uma ação da luta armada, a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR) seqüestrou o embaixador alemão Von Holleben e exigiu da repressão a libertação de 40 presos. Eles foram soltos e banidos do país.

Na primeira Copa transmitida a cores para o mundo todo pela televisão, os ex-presos, entre eles o líder histórico Apolônio de Carvalho, entraram em uma longa discussão de se deveriam ou não torcer pelo Brasil, afinal, era o país deles, mas que vivia então sob uma terrível ditadura. Paulo conta que nessa época conversou longamente com Miguel Arraes, que também fazia parte do grupo, e que para ele era “uma raposa política”, de visão sempre muito clara sobre os acontecimentos.

Porém, o clima de Argel nos anos 1970 não era dos mais agradáveis para um menino de então 17 anos, que vivia longe de casa. “Era um país muito duro, severo, tenso. O processo ali da independência havia sido longo e pesado e eles ainda estavam muito desconfiados de tudo”, relembra.

Pegou o barco para Marselha e voltou também lavando pratos. Tinha desistido de ser um militante internacional. Em 1971, retornou ao Brasil. Pouco tempo depois de sua chegada foi preso na casa dos pais em Copacabana. Completara 17 anos. Entraram em sua casa numa manhã bem cedo, armados de metralhadoras e o levaram. Sua mãe e irmã de então doze anos assistiram à cena horrorizadas. A irmã menor chorava.

Paulo ficou aproximadamente três semanas preso no DOI-Codi carioca, à rua Barão de Mesquita, no bairro da Tijuca. Segundo ele, os militares haviam acabado de matar Stuart Edgard Angel Jones e então “precisavam pegar mais leve com a tortura”, suspeita. Insiste que a “geladeira”, que dá nome à sua obra, foi sua sorte. “Se não fosse a geladeira, seria o pau-de-arara”, afirma.

Ele pega o tapete de ioga no chão da casa da mãe, onde está hospedado nessa passagem pelo Brasil, e explica que a geladeira era uma cela de 2m por 2m, forrada de Eucatex preto, que possuía um sistema de refrigeração. Ele ficou sozinho ali por aproximadamente três dias, mas não consegue afirmar ao certo. Os policiais diziam que as paredes davam choque, então ele nem encostou para saber se era verdade ou não.

Havia alto falantes nas paredes e era reproduzido um som de motor altíssimo, por horas e horas seguidas, naquele frio de dentro da cela. Os militares afirmavam que sua mãe, Carmen, estava ali também, sendo torturada, mas era mentira. Depois dos três dias do susto inicial, ele foi tirado para uma sessão de interrogatório. Do outro lado da luz forte estava a voz inquisidora, de uma pessoa que ele não conseguia ver. Segundo o músico, era tudo muito confuso e absurdo, então ele acabava inventando dados e informações, porque falar que não sabia de nada não adiantava. Ele tomou tapas, socos e lhe aplicaram o famoso “telefone”.

Foi solto três semanas depois e por um ano teve de se apresentar no Batalhão do Exército na Av. Presidente Vargas. Em 1972 partiu para Londrina e de lá para São Paulo, onde se formou em música na USP. Começou um doutorado na Bélgica nos anos 1980 e acabou em 2003, na Alemanha. Hoje, professor na Califórnia, foi convidado para compor uma peça especialmente para o concerto dos 50 anos do golpe. Até então preferia não tocar muito no assunto.

Paulo conta que há dez anos está trabalhando em uma adaptação do Ensaio Sobre a Cegueira, de José Saramago. Será uma ópera de três horas que ainda não foi composta. Ele já tinha essa ideia na cabeça, de falar sobre sua experiência da tortura na ópera, então quando veio o convite compôs a peça rapidamente, pois o assunto estava latente. Segundo ele, o livro de Saramago não é propriamente político, mas fala do paradigma da cegueira na sociedade, que não quer ver a realidade. Para ele, assim como no livro, hoje não olhamos para trás e continuamos vivendo os efeitos da ditadura. “Sem olhar para a história, não vemos o que são heranças daquele período que continuam latentes ainda hoje”, afirma.

Segundo ele, a ditadura criou uma situação de trevas em que o Brasil continua mergulhado nos dias de hoje. Haviam decretos para impedir “subversivos” de estudar, os militares privatizaram o ensino, estabeleceram as aulas de moral e cívica e mais que isso, instituíram um ensino muito mais tecnicista e menos crítico, acabando com as cadeiras de humanas. “Instauraram o medo e a ignorância se instaurou-se como norma”, afirma.

Assim, Paulo acredita que sua música sirva para o público refletir e pensar sobre aquilo. “Não quero me colocar como vítima, mas superar o sofrimento e ver o que podemos fazer a partir disso”. Ele acredita que a arte pode apontar caminhos que nem sempre conseguem ser mostrados com palavras. Para ele, é essencial que se reflita para superar o trauma.

“Não temos nada para celebrar nesses 50 anos do golpe. No Brasil, pela via institucional, nunca dissemos ‘a ditadura não compensa’, porque quem reprimiu, torturou e matou nunca foi punido”. Assim, com a música, afirma, quer trazer um caminho. É uma música triste, mas de superação. Paulo espera que no cinqüentenário do golpe o país passe, pelo menos, a olhar para sua própria história para superar seus traumas, que passe a cantar histórias não contadas.

Na música, a tortura acústica no cubículo escuro e frio vira um canto pela liberdade. Ele faz uma única apresentação da obra A Geladeira nesta terça, às 20h30, no Centro Cultural São Paulo.

Serviço:

Nacionalismos e Vanguardas: Variações em torno de 1964

Centro Cultural São Paulo - Sala Jardel Filho (321 lugares)

Rua Vergueiro, 1000. Dia 8 de abril, às 20h30.

Grátis - A bilheteria será aberta duas horas antes do início do concerto

para a retirada de ingressos (até dois ingressos por pessoa) 

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