Eduardo Nicolau|Estadão
Eduardo Nicolau|Estadão

Paulinho da Viola volta a SP com show de 50 anos de carreira

Músico toca clássicos e conta o bastidor deles

Adriana Del Ré, O Estado de S.Paulo

11 de novembro de 2015 | 05h00

Com sua turnê de 50 anos de carreira na estrada desde o ano passado, Paulinho da Viola retorna nesta quarta, 11, a São Paulo com o show comemorativo, no Teatro Bradesco. No repertório, ele lança olhar sobre a própria obra, equilibrando canções consagradas – como Pecado Capital, Coração Leviano, Dança da Solidão, Timoneiro e Sinal Fechado –, outras menos conhecidas e ainda as instrumentais. “O show vem com pequenas mudanças, porque nunca fazemos uma coisa rígida”, diz Paulinho, em entrevista ao Estado, por telefone, do Rio.

Ele conta que, logo após o início do tour, avaliou que a apresentação estava muito extensa, e, por isso, as duas horas originais foram reduzidas para cerca de 1h40. “Fazer um show direto por duas horas, por melhor que seja, fica meio cansativo. Então, fui obrigado a retirar algumas músicas, a condensar um pouco as coisas que eu falava.” É que, durante a apresentação, Paulinho compartilha com a plateia as histórias por trás de algumas de suas criações. São momentos saborosos em que o autor revela muito do seu processo, ali, em primeira pessoa.

Paulinho da Viola abre seu show com 14 Anos, gravada em seu primeiro disco, Samba Na Madrugada, com Elton Medeiros, e relançado agora (leia mais abaixo). Mais do que ocorria dentro de sua casa, a canção retratava, de maneira geral, a relação entre pais zelosos e filhos que sonhavam em viver de música. “Tinha eu 14 anos de idade/Quando meu pai me chamou/Perguntou-me se eu queria/Estudar Filosofia/Medicina ou Engenharia/Tinha eu que ser doutor”, diz trecho da letra. Segundo o músico, seu pai, o violonista César Faria, do conjunto Época de Ouro, nunca disse que ele precisava ser doutor – mas também nunca disse que precisava ser músico. “Digo que o autor de samba é meio que um cronista. É claro que você está falando de você, mas, na verdade, você está falando de muita gente”, observa.

E completa: “Quando você fala ‘meu pai não queria que eu fosse sambista, queria que eu fosse doutor’, era algo comum, que todo mundo ouvia. Sambista é boêmio, trabalha onde, como ele se sustenta. Músicos como meu pai, Jacob do Bandolim não se consideravam profissionais de música. Meu pai trabalhava na Justiça, fazia música porque amava, eles não viviam daquilo. Muitos artistas, compositores, cantores tinham outra forma de sustentar a família. Em 1950, 60, vi muito isso, imagine antes.”

Outras canções do repertório trazem também esse forte traço biográfico, como Botafogo, Chão de Estrelas, composta em parceria com Aldir Blanc, para o sambista Walter Alfaiate. A letra traz muito do que Paulinho viu e viveu no bairro carioca de Botafogo, inspirado por suas histórias e seus personagens. “Desde menino, eu já ouvia falar em Walter e Mauro Duarte. Eles eram muito conhecidos em Botafogo, onde nasci e fui criado. Era um bairro que tinha um carnaval próprio, os comerciantes fechavam (as portas) e todos os blocos desfilavam ali”, recorda, com carinho.

O portelense Paulinho canta ainda Sei Lá, Mangueira, feita em parceria com Hermínio Bello de Carvalho e que lhe rendeu uma saia-justa no passado. A canção foi inscrita por Hermínio num festival em São Paulo. E, Paulinho conta, ele só soube disso quando a música foi selecionada. Surpreso, ele tentou tirá-la da competição, mas já era tarde. E como a Portela, da qual era presidente da Ala de Compositores, reagiu? “O mais terrível era o silêncio. Isso nunca foi falado na Portela, eu que me sentia mal.”

A redenção veio com a clássica Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida. Sob o impacto do título do livro Por Onde Andou Meu Coração, de Maria Helena Cardoso, que lhe chamou a atenção na estante de uma livraria, e da imagem que guardou desde a adolescência, quando a Portela entrou na avenida e avançou como um rio, banhada pela luz do dia clareando, Paulinho cunhou uma das mais belas declarações de amor a uma escola de samba – e seu maior sucesso.

O ‘laiá laiá’ na letra veio com a “coautoria” involuntária de Jair Rodrigues, lembra Paulinho. “Quando eu a gravei, não tinha o ‘laiá’. Jair gravou a música e acrescentou aquilo. Nos shows, comecei a perceber que cantava o samba e, quando eu queria voltar à primeira parte, o público cantava ‘laiá’ e aí embolava tudo”, conta. “Jair encontrava comigo e brincava: ‘Olá, meu parceiro, como vai?’. Foi ocorrendo de tal forma que eu disse: ‘Não posso mais brigar com o público’. Incorporei e ficou.” A turnê chega ao fim este ano. Paulinho da Viola já tem canções inéditas e pensa em um novo trabalho para 2016.

Seu primeiro disco, com Elton Medeiros, é relançado em CD

Samba Na Madrugada, o primeiro disco de Paulinho da Viola, registrado com Elton Medeiros, retorna ao mercado pela gravadora Kuarup (R$ 24,90). Gravado em uma noite, o álbum foi lançado em 1966 como Na Madrugada e, em 68, ganhou o título de Samba Na Madrugada, pela RGE. O trabalho, que reúne 11 faixas, como 14 Anos, Arvoredo, entre outras, estava fora de catálogo desde 2001. "Eu e Elton, se recebemos alguma coisa relacionada a esse disco, eu não me lembro. Na época, a gente não sabia nada, não tinha advogado. Os caras davam um papel e você assinava. Guardo sempre muitas coisas, mas, desse disco, não tenho contrato nenhum. Soube que ele foi muito elogiado na época", diz Paulinho. O músico afirma que foi apenas comunicado sobre esse novo relançamento.

Procurada pela reportagem, a Kuarup afirma que é uma gravadora que possui diversos títulos licenciados e que, no planejamento deste ano, estava o relançamento de Samba Na Madrugada, "pela relevância histórica do álbum". "Esse é um relançamento da Kuarup licenciado diretamente com a gravadora RGE, detentora do fonograma, e comunicado à equipe do Paulinho", diz a gravadora, em nota.

 

PAULINHO DA VIOLA

Teatro Bradesco. Shopping Bourbon. R. Palestra Itália, 500, 3º piso, 4003-1212. Hoje, 21h. R$ 240/R$ 350

 

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