Katlyn Morahan/Divulgação
Katlyn Morahan/Divulgação

Paulinho da Viola faz show de arrepiar no Carnegie Hall, em NY

Emocionado, cantor apresentou '70 Anos de Samba', em comemoração ao seu aniversário

Tonica Chagas / NOVA YORK,

29 de novembro de 2012 | 19h55

Duas semanas atrás, no bairro carioca de Madureira, o "eterno menino" da Velha Guarda da Portela, como o chama Monarco, começou a comemorar seus 70 anos, completados dia 12. Lá, ao ar livre, Paulinho da Viola - 70 Anos de Samba foi um grande show de música popular brasileira. Na quarta-feira, 30, à noite, na primeira apresentação do menino septuagenário no palco principal do Carnegie Hall, em NY, o show ganhou jeito de concerto, com a marca de nobreza e erudição que Paulinho imprime à MPB e transforma em clássicos seus sambas e chorinhos.

Timoneiro, parceria dele com Hermínio Bello de Carvalho (de Bebadosamba, último disco que ele gravou com composições inéditas, em 1996), abriu o repertório de 25 músicas, quase todas reconhecidas e aplaudidas já nos primeiros acordes. O set foi pouco diferente do show em Madureira, mas teve a inclusão de composições instrumentais que enfatizaram o clima de concerto: Inesquecível, choro canção composto por ele em homenagem a Jacob do Bandolim (que no início da década de 1960 criou o conjunto Época de Ouro, do qual fez parte o violonista César Faria, pai de Paulinho); Um Abraço no Waldir, parceria dele com Cristóvão Bastos; Sarau para Radamés, também de Paulinho; e o choro de Pixinguinha Cochichando.

Paulinho já havia se apresentado em NY por duas vezes, no Lincoln Center. "Mas o Carnegie Hall dá um friozinho na barriga!", comentou, depois das duas horas em que tomou conta do palco onde Dvorák e Mahler estrearam sinfonias, George Gershwin e Benny Goodman deram espetáculos históricos, Maria Callas cantou pela última vez e, em novembro de 1962, João Gilberto e Jobim encabeçaram o grupo de brasileiros que iniciou a paixão americana pela bossa nova. "Isso é brincadeira!", admirou-se, ao comprovar a famosa acústica do teatro de 121 anos.

Com ele estavam músicos que o acompanham já em grande parte de sua carreira de 48 anos: Cristóvão Bastos (piano), Mário Sève (sopros), Dininho Silva (baixo elétrico), Celsinho Silva e Marcos Esguleba (percussão), Hércules Nunes (bateria), além de seus filhos João Rabello (violão) e Beatriz Faria (vocal).

Com a entrada do público, a acústica do teatro mostrou como era difícil manter os instrumentos afinados. "O que é aço ia para um lado, o que é náilon ia para o outro", contou Paulinho depois da apresentação. Sem que o público percebesse, a solução foi um intervalo improvisado antes do bloco de composições instrumentais. Todos os músicos saíram do palco, Paulinho murmurou no ouvido do filho e também se retirou. "Falei para ele não se preocupar, afinar primeiro seu violão e tocar o que quisesse enquanto nós afinávamos os outros instrumentos fora do palco." João deu conta do recado tocando uma de suas composições.

Com a batida acelerada nos versos finais ecoando marchas militares, Sinal Fechado marcou um dos momentos de arrepiar os brasileiros que formavam a maior parte da plateia no Carnegie Hall. Paulinho sempre afirmou não ter feito esta música como ato de resistência à ditadura militar que controlava o Brasil naquela época. Para ele, a composição com que ganhou o 5.º Festival de Música Popular Brasileira promovido pela TV Record em 1969, "causou polêmica porque não era muito própria de um sambista... mas a turma gostou".

O público acompanhou o espetáculo em coro pianíssimo ou bocca chiusa até o bloco dos cinco sambões finais - Dança da Solidão (nome do disco que ele lançou em 1972, gravado de novo em Bebadachama, de 1997, e também com Toquinho, em Sinal Aberto, de 1999), Talismã, parceria dele com Marisa Monte e Arnaldo Antunes; Ame (dele e Elton Medeiros, gravado em Bebadosamba); Eu Canto Samba (título do disco de 1989); e Coração Leviano (1978).

Alguns brasileiros que sentiam "a falta de um cavaco, de um pandeiro ou de um tamborim" como na letra de Argumento, deixaram as poltronas de veludo e foram sambar nos corredores laterais. E todo mundo ficou em pé para o bis, com Tudo se Transformou e Foi Um Rio Que Passou em Minha Vida, o hino de amor de Paulinho da Viola para a Portela. Para finalizar mesmo, só na voz e nas palmas, ele homenageou Clementina de Jesus, imitando a voz dela no jongo Moço Boiadeiro.

A próxima apresentação de Paulinho da Viola - 70 anos de Samba será no dia 11, em Buenos Aires.

 
Tudo o que sabemos sobre:
Paulinho da ViolaCarnegie Hall

Encontrou algum erro? Entre em contato

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

O Estadão deixou de dar suporte ao Internet Explorer 9 ou anterior. Clique aqui e saiba mais.